As medidas enérgicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Venezuela e na Argentina estão contribuindo para uma guinada à direita na América Latina em um ano eleitoral crucial, aumentando a probabilidade de fluxo de capital estrangeiro para a região, à medida que os investidores projetam reformas favoráveis ao mercado.
A destituição do presidente Nicolás Maduro pelos EUA no fim de semana fez a dívida em default da Venezuela disparar, enquanto a aposta de Trump no ano passado de fortalecer o argentino Javier Milei -- um aliado ideológico -- com um apoio financeiro de até US$40 bilhões deu resultado. O partido de Milei obteve um bom desempenho nas eleições cruciais de meio de mandato.
Em outra época, as intervenções de Trump poderiam ter provocado uma reação mais forte contra a interferência estrangeira. E embora nem todos na América Latina tenham recebido bem suas ações, a reação tem sido relativamente discreta em um momento de ampla guinada política à direita -- que, segundo investidores, impulsionará os ativos financeiros da região, à medida que os agentes antecipam mudanças favoráveis ao mercado.
"O que observamos historicamente na América Latina é que as coisas tendem a acontecer em ondas e a seguir tendências", disse Robert Koenigsberger, diretor de investimentos e sócio-gerente da Gramercy. "Claramente, a tendência atual na América Latina parece ser da esquerda para a direita."
Essa percepção, segundo ele, fez com que os investidores se sentissem mais à vontade para aumentar sua exposição, à medida que se concentram na esperada consolidação fiscal e nas reformas regulatórias em toda a região.
MUDANÇA REGIONAL
A disposição em aumentar a exposição à América Latina reflete a visão de que a região se moveu como um bloco em ciclos regionais, com mudanças políticas frequentemente se reforçando mutuamente, em vez de se desenrolarem país por país.
As recentes vitórias eleitorais no Equador, na Argentina e no Chile resultaram em uma mudança em direção a partidos de direita, sustentando valorizações nas ações, nas moedas e nos títulos regionais ao longo do último ano.
Os mercados também foram impulsionados por uma tendência geral em direção a políticas monetárias ortodoxas e disciplina fiscal, mesmo em países liderados por líderes de esquerda, como o Brasil e o México.
O real brasileiro e o peso mexicano estiveram entre as moedas de mercados emergentes com melhor desempenho em 2025, enquanto as ações da Colômbia, do Peru e do Chile dominaram a lista de ganhos no setor acionário.
A destituição de Maduro foi recebida positivamente pelos mercados, afirmou Graham Stock, estrategista de mercados emergentes da RBC BlueBay.
"Na verdade, isso reforça nossa expectativa de que veremos uma mudança para governos mais favoráveis ao mercado na América Latina", disse.
ELEIÇÕES À VISTA
Após a América Latina ter superado muitos mercados emergentes no ano passado, os investidores estão de olho em um calendário eleitoral repleto de eleições em 2026, que incluirá disputas na Colômbia, no Peru e no Brasil.
Eileen Gavin, chefe de análise soberana da Verisk Maplecroft, afirmou que a Colômbia está particularmente exposta às possíveis repercussões dos acontecimentos na vizinha Venezuela. A Colômbia se prepara para eleições legislativas em março e para a disputa presidencial em maio.
O presidente colombiano de esquerda, Gustavo Petro, que entrou em conflito com Trump e foi alvo de sanções dos EUA em outubro, não pode concorrer à reeleição.
"A pressão sobre as eleições será para inclinar-se para a direita e, para os detentores de títulos, isso representa um risco positivo", disse Gavin, acrescentando que a turbulência na Venezuela também pode afetar o Peru, o Panamá e Cuba por meio de mudanças na migração e no comércio.
A eleição presidencial peruana de 12 de abril parece estar em aberto, com pelo menos 34 candidatos inscritos e quase metade dos eleitores sem um candidato preferido, segundo pesquisa realizada no fim do ano passado.
Enquanto isso, no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a maioria das pesquisas de intenção de voto para um quarto mandato, em eleições marcadas para outubro.
Quem quer que vença, terá que lidar com Trump, que permanecerá no cargo até janeiro de 2029.
"Quanto mais os EUA pressionarem esses países, maior a probabilidade de eles cederem à vontade americana, o que, no caso da América Latina, significa mais políticas pró-mercado", disse Marko Papic, estrategista-chefe da BCA Research.
Investidores do Citi observaram que a reação negativa à operação de Trump na Venezuela foi limitada.
"No curto prazo, a ação não gerou uma mobilização em torno da 'bandeira latino-americana', com muitas vozes saudando a medida", disse em nota Donato Guarino, do Citi, acrescentando que o banco mantém uma posição comprada em crédito venezuelano.
EMPRESAS DE EXTRAÇÃO DE RECURSOS PODEM SE BENEFICIAR
De fato, até mesmo alguns presidentes de esquerda buscaram fechar acordos ou apaziguar Trump. O governo da Colômbia enfatizou nos últimos dias que vai cooperar com Washington no combate ao narcotráfico.
"Os líderes de esquerda provavelmente estão constantemente olhando por cima do ombro", disse Brian Jacobsen, estrategista econômico-chefe da Annex Wealth Management.
Segundo ele, à medida que os governos regionais buscam investimentos que se alinhem às prioridades estratégicas dos EUA, as multinacionais envolvidas no desenvolvimento de infraestrutura e na extração de recursos provavelmente estarão entre as principais beneficiárias.
Papic, da BCA, também previu que os ativos ligados a recursos naturais, assim como os bancos, devem ter um desempenho superior.
"O setor privado latino-americano reduziu seu endividamento, e há potencial para que as instituições financeiras também se beneficiem", acrescentou.
Em linhas gerais, ele mostrou-se otimista em relação aos ativos latino-americanos, mas alertou que o entusiasmo dos investidores depende de Washington evitar uma postura excessivamente agressiva.
"Seria um erro os EUA confiarem exclusivamente na abordagem autoritária", disse ele, argumentando que isso ainda poderia desencadear uma reação negativa, enraizada em preocupações com a soberania. "Espero que o governo (Trump) consiga encontrar um meio-termo."