Após 6 semanas de bombardeios, população do Irã teme deterioração ainda maior do quadro econômico. Fábricas destruídas paralisam a produção em vários setores, impactando gravemente centenas de milhares de trabalhadores.No Irã, mais de 93 milhões de pessoas vivem sob a sombra de uma guerra que pode voltar a explodir a qualquer momento. Após o colapso temporário das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã no Paquistão, Washington passou a bloquear o Estreito de Ormuz. O objetivo é cortar as receitas iranianas com as exportações de petróleo e impedir que Teerã cobre pedágios pela passagem pelo estreito.
Muitos no país temem que dias ainda mais difíceis estejam por vir.
A situação humanitária em meio à guerra
"A continuação da guerra, seja no nível militar ou na forma de bloqueios e tensões regionais, é o maior fator de pressão sobre as pessoas comuns, especialmente trabalhadores, professores e outros assalariados", escreveu o sindicalista iraniano Ismail Abdi à DW.
O professor e ativista de direitos humanos era membro do conselho da Associação de Professores do Irã quando, há onze anos, seu ativismo em defesa dos direitos dos professores o colocou sob a vigilância das autoridades iranianas. Ele passou vários anos na prisão sob a acusação de promover "propaganda contra o sistema político".
Após pressão internacional, em particular de sindicatos em todo o mundo, Abdi foi finalmente libertado. Desde março de 2025, ele vive exilado na Alemanha, onde continua seu trabalho pelos direitos educacionais e pela liberdade de expressão.
"Nas últimas semanas, recebemos relatos angustiantes sobre o sofrimento da classe trabalhadora em condições de guerra no Irã", acrescentou. "Quando fábricas, oficinas ou projetos de serviços fecham ou são reduzidos, os trabalhadores terceirizados, diaristas e aqueles do setor informal são os primeiros a sofrer. Esse processo enfraquece o poder de negociação dos trabalhadores e leva os salários a um verdadeiro colapso."
A guerra vem tendo um impacto devastador na economia iraniana, que há muito sofre com má gestão, corrupção e sanções.
Teerã já estima os danos da guerra em cerca de 229 bilhões de euros (R$ 1,7 trilhão). Trata-se de uma estimativa preliminar, afirmou a porta-voz do governo iraniano Fatemeh Mohajerani em entrevista à agência de notícias estatal russa RIA Novosti, em 14 de abril.
No entanto, a verdadeira extensão dos danos às maiores fábricas, que funcionam como o motor da economia, ainda não é totalmente conhecida.
Dezenas de milhares de diaristas sem trabalho
A siderúrgica Mobarakeh, em Isfahan, a maior produtora de aço do país, foi forçada a fechar completamente após um segundo ataque conjunto dos EUA e de Israel.
Os Estados Unidos e Israel declararam que os ataques ao setor siderúrgico enfraqueceram as capacidades militares do Irã. O aço é uma matéria-prima essencial para a produção de bens militares, como mísseis, drones e navios; mas também desempenha papel crucial em indústrias civis, incluindo o fornecimento para a indústria automotiva, a produção de eletrodomésticos e a fabricação de embalagens e produtos enlatados. O aço também é indispensável na construção civil, por exemplo, em telhados.
A indústria siderúrgica é considerada um dos principais motores da economia iraniana. De acordo com a Associação Mundial do Aço, em 2025 o Irã figurava entre os dez maiores produtores do mundo - ao lado de países como China, Estados Unidos e Alemanha - e exportava anualmente em torno de 31,8 milhões de toneladas. Entre março de 2025 e janeiro de 2026, as receitas de exportação atingiram 860 milhões de dólares (aproximadamente R$ 4,2 bilhões).
Com a paralisação da produção, milhares de trabalhadores foram mandados para casa - por quanto tempo, ainda é incerto. Pelo menos 10 mil funcionários da indústria siderúrgica são diaristas.
A paralisação da produção também pode desencadear uma reação em cadeia, forçando dezenas de outras empresas dependentes dessas fábricas a interromperem suas operações.
O bombardeio de fábricas petroquímicas também terá um impacto enorme no mercado de trabalho, analisou Umud Shokri, estrategista de energia e pesquisador da Universidade George Mason, nos Estados Unidos.
Os ataques a importantes centros petroquímicos em Asaluyeh, Mahshahr e Shiraz causaram danos significativos e paralisaram diversas fábricas.
Em centros industriais como Mahshahr, que emprega mais de 30 mil pessoas, muitos trabalhadores enfrentam demissões repentinas e cortes salariais, afirmou Shokri. "Os danos vão muito além das próprias fábricas e também afetam as cadeias de suprimentos, a arrecadação do governo e o sustento da população", explicou.
"Mesmo em condições ideais, avaliações de complexos industriais comparáveis indicam que a reconstrução de um grande centro como Mahshahr poderia levar cerca de dois anos", disse o especialista. Para isso, o país precisa de melhor acesso a tecnologia estrangeira, capital, peças de reposição e conhecimento técnico - pré-requisitos difíceis de atender sob as sanções atuais.
Aumento da pobreza
A perda de empregos na indústria já levou a uma sensação generalizada de insegurança. Em 14 de abril, a Agência de Notícias do Trabalho Iraniana (Ilna) demitiu todos os seus jornalistas e os reclassificou como funcionários autônomos.
Muitas outras empresas já iniciaram demissões em massa. Um exemplo é o setor de serviços digitais, com plataformas como o Snapp, frequentemente chamado de "Uber iraniano". Esses serviços continuam operando no país apesar do bloqueio da internet imposto pelas autoridades desde o início da guerra para evitar possíveis protestos. No entanto, menos pessoas os utilizam devido à guerra e muitas não dispõem dos recursos necessários para tal.
"Somente por causa das restrições à internet, milhares de autônomos, programadores e produtores de conteúdo perderam oportunidades de trabalho. Agora, estão sendo forçados a retornar ao mercado de trabalho tradicional, já fragilizado", observou o representante sindical Abdi. "A curto prazo, essa situação leva à queda da renda real e ao aumento da pobreza entre os trabalhadores. A longo prazo, ameaça criar uma sociedade explorada, menos qualificada e mais dependente."
Ele advertiu que a guerra levará principalmente ao aumento da pobreza e da insegurança para os grupos populacionais mais vulneráveis. "Essa guerra precisa terminar antes que seus custos humanos e sociais se tornem irreversíveis." Mesmo em meio ao conflito, Abdi não desistiu do sonho de mudança política no Irã.
No entanto, quase ninguém parece estar pensando no povo iraniano - tampouco a liderança da República Islâmica, que quer se manter no poder, ou o presidente dos EUA, Donald Trump, que prometeu apoio irrestrito.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, até 8 de abril, quando um frágil cessar-fogo foi acordado, 3.636 pessoas foram mortas no Irã, segundo a organização de direitos humanos Hrana, com sede nos EUA. Desses, 1.701 eram civis, incluindo pelo menos 254 crianças.