A Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Estadão, realiza na quarta-feira, 27, em São Paulo, o evento de lançamento do FGV Money Lab, hub dedicado ao estudo do comportamento financeiro, educação econômica e endividamento das famílias brasileiras.
O encontro reunirá economistas, executivos do setor financeiro e especialistas para discutir os riscos econômicos de 2026, o avanço estrutural da dívida das famílias e os impactos das apostas online sobre o comportamento financeiro da população.
Endividamento histórico
O evento ocorre num momento em que o desconforto financeiro das famílias brasileiras atingiu o pior nível já registrado pela própria FGV, que desde 2014 consolida dados sobre endividamento para o Índice de Desconforto de Crédito (IDC).
Na edição divulgada em maio, o levantamento, construído a partir de estatísticas do Banco Central, registrou o pior cenário da série histórica.
O índice considera dados até fevereiro de 2026, última competência disponível para um dos principais componentes da pesquisa, o comprometimento da renda das famílias com pagamento de dívidas.
"Em janeiro, o indicador estava em 0,966. Um mês depois, atingiu 1,0, o teto da metodologia, após a piora simultânea dos três componentes que formam o índice: comprometimento de renda, inadimplência e qualidade do crédito utilizado pelas famílias", afirma o professor Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanc¸as e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif).
Segundo ele, o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 29,7% em fevereiro. Isso significa que, a cada R$ 100 recebidos pelas famílias brasileiras, R$ 29,70 já estavam comprometidos com parcelas, juros e amortizações.
Já a inadimplência acima de 90 dias atingiu 7,2%, também recorde da série histórica do indicador.
"Ao mesmo tempo, 25,1% do crédito livre para pessoas físicas passou a se concentrar em modalidades consideradas mais caras, como cheque especial, rotativo do cartão e crédito pessoal não consignado", conta Gonzalez. "Em outras palavras, um em cada quatro reais tomados pelas famílias brasileiras já está em linhas de crédito de alto custo", destaca o professor da FGV.
Renda comprometida
Segundo o levantamento, o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 29,7% em fevereiro. Isso significa que, a cada R$ 100 recebidos pelas famílias brasileiras, R$ 29,70 já estavam comprometidos com parcelas, juros e amortizações.
Já a inadimplência acima de 90 dias atingiu 7,2%, também recorde da série histórica do indicador.
Ao mesmo tempo, 25,1% do crédito livre para pessoas físicas passou a se concentrar em modalidades consideradas mais caras, como cheque especial, rotativo do cartão e crédito pessoal não consignado. Em outras palavras, um em cada quatro reais tomados pelas famílias brasileiras já está em linhas de crédito de alto custo.
Maturidade financeira
Para os pesquisadores da FGV, o movimento ajuda a explicar uma contradição que tem chamado atenção de economistas e formuladores de políticas públicas nos últimos anos. Mesmo com desemprego relativamente baixo e atividade econômica resiliente, a percepção de sufoco financeiro continua elevada entre as famílias.
A avaliação é de que os indicadores tradicionais da economia nem sempre conseguem capturar o cotidiano financeiro da população. Uma pessoa pode estar empregada e ainda assim viver permanentemente pressionada por juros, parcelas, refinanciamentos e renegociações sucessivas de dívida.
Qualidade da dívida
O estudo também aponta que o problema brasileiro deixou de ser apenas o tamanho do endividamento e passou a envolver a qualidade do crédito utilizado pelas famílias.
Nos últimos anos, o crédito para pessoa física continuou crescendo no País, mas parte relevante dessa expansão ocorreu em linhas usadas para sustentar consumo corrente e antecipar renda futura, e não necessariamente para formação de patrimônio.
Segundo os pesquisadores, programas de renegociação de dívida, como o Desenrola, ajudaram temporariamente a aliviar o desconforto financeiro. O IDC chegou a recuar após o lançamento da iniciativa, mas voltou a subir nos meses seguintes até atingir o recorde atual.
Para o professor de finanças da FGV, Fábio Gallo, coordenador da FGV Money Lab e colunista do Estadão, as razões para o alto endividamento vão além de fatores como renda e custo de crédito.
"O brasileiro sofre de algo mais complexo, que é a baixa maturidade financeira estrutural. Nossa população vive baixo nível de bem-estar financeiro. E isso traz consequências como o grande endividamento das famílias, estresse e impactos negativos na produtividade e desempenho no trabalho."
Como é o evento
A discussão sobre o avanço do endividamento estrutural será um dos eixos centrais do lançamento do FGV Money Lab.
O projeto nasce com a proposta de aproximar pesquisa aplicada, comportamento econômico e educação financeira, reunindo produção de conteúdo, eventos e iniciativas corporativas voltadas à tomada de decisão financeira.
O primeiro painel do encontro discutirá os riscos econômicos de 2026 e contará com a participação de Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do Santander Brasil, e Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco.
O segundo painel abordará o endividamento estrutural no Brasil e reunirá Marcelo Toressi, CEO do Banco Paulista; Felipe Sales, economista-chefe do C6 Bank; e Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital.
Já o terceiro bloco discutirá os impactos das apostas online e a chegada dos chamados prediction markets. Participam do debate Ana Leoni, CEO da Planejar; Amanda Dias, criadora do canal Grana Preta; e Fernando Schmitt, CEO do Me Poupe!.
O evento será realizado no Auditório FGV 9 de Julho, na Rua Itapeva, 432, na Bela Vista, em São Paulo, das 8h30 às 12h30.
Serviço
O quê: evento da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Estadão, para o lançamento do FGV Money Lab, hub dedicado ao estudo do comportamento financeiro, educação econômica e endividamento das famílias brasileiras
Quando: quarta-feira, 27, das 8h30 às 12h30
Onde: Auditório FGV 9 de Julho, na Rua Itapeva, 432, na Bela Vista, em São Paulo
Quem:
1º painel (sobre os riscos econômicos de 2026) — Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do Santander Brasil, e Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco
2º painel (sobre o endividamento estrutural no Brasil) — Marcelo Toressi, CEO do Banco Paulista; Felipe Sales, economista-chefe do C6 Bank; e Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital
3º painel (sobre os impactos das apostas online e a chegada dos chamados prediction markets) — Ana Leoni, CEO da Planejar; Amanda Dias, criadora do canal Grana Preta; e Fernando Schmitt, CEO do Me Poupe!