O maior desafio para o Brasil, nos próximos dois anos, será lidar com o rápido avanço da inteligência artificial nos países ricos e com as incertezas no cenário econômico internacional. A avaliação é do ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, hoje diretor de estratégia econômica e relações com mercados do Banco Safra.
"Estamos a apenas dois anos de distância de um salto muito importante no avanço da IA", afirmou o ex-ministro, que participou remotamente do painel "FGV: Dinâmica econômica mundial e os desafios socioeconômicos brasileiros", no segundo dia da Rio Innovation Week, conferência sobre inovação realizada esta semana no Píer Mauá, no Rio.
"Ou seja, um horizonte relativamente curto; isso significa, para os países emergentes, um aumento da distância entre quem tem IA e quem não tem. Como navegar essa onda sem os mesmos recursos é o principal desafio das economias emergentes."
O cenário econômico internacional continuará marcado por incertezas nos próximos meses em razão de três processos simultâneos: além do avanço da IA, o ex-ministro citou a desinflação ainda incompleta no período pós-pandemia, os desafios fiscais dos Estados Unidos.
Segundo Levy, a palavra que melhor resume o momento da economia global é "incerteza". Ele ponderou que, embora a inflação tenha recuado nas principais economias, o processo de desinflação ainda não está concluído e segue sujeito a surpresas, em um ambiente de reorganização do comércio internacional.
Par o sócio e economista-chefe da JGP Fernando Rocha, que também participou do painel, o maior desafio para o País a curto prazo é fazer um ajuste forte e rápido nas contas públicas. Rocha classificou como "explosiva" a trajetória atual da dívida pública e apontou para a possibilidade de um estresse no mercado financeiro se o ajuste fiscal não for realizado nos próximos quatro anos.
Segundo ele, o mercado está "tranquilo" porque o cenário internacional é favorável ao Brasil. "As pessoas não acham que a gente vai quebrar, mas eu já vi muita mudança rápida no mercado", ponderou.
Ajuste fiscal 'precisa ser muito rápido e muito forte'
A diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, que também participou do painel, concorda com o colega. Segundo ela, a desaceleração da economia brasileira "já está contratada". A economista disse que a intensidade desse movimento dependerá da condução da política fiscal nos próximos anos e do cenário internacional.
Segundo Srour, o ajuste fiscal necessário para estabilizar a dívida pública "precisa ser muito rápido e muito forte". Na avaliação dela, o atual patamar dos juros reflete a percepção de risco em relação às contas públicas e dificulta uma trajetória de crescimento sustentado da economia.
A economista afirmou que o elevado endividamento das famílias, aliado à manutenção de juros altos por um período prolongado, pode levar o país a uma crise mais severa. "Não tem como a economia crescer com esse desequilíbrio fiscal enorme", disse.
Na análise do pesquisador Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a política econômica conduzida pelo governo nos últimos anos é insustentável. Segundo o economista, os indicadores atuais da economia brasileira ainda são favoráveis, com mercado de trabalho aquecido e crescimento da atividade, mas esse quadro não deve se sustentar.
"A foto do País é muito boa porque o desemprego está nas mínimas históricas, o crescimento foi bom, mas até no desemprego há insustentabilidade", afirmou Pessoa.