A norueguesa Equinor iniciou nesta terça-feira a campanha de perfuração de poços produtores e injetores do projeto Raia, no pré-sal da Bacia de Campos, em um passo crucial para viabilizar o início da produção em 2028, quando o ativo deverá suprir 15% da demanda brasileira de gás natural.
O marco se dá enquanto a petroleira intensifica estudos exploratórios no chamado Sul da Bacia de Santos, onde já planeja um poço para 2027 e está otimista com a abertura de uma nova fronteira mais ao sul da importante bacia petrolífera, disse a presidente da companhia no Brasil, Veronica Coelho, em entrevista à Reuters.
O início da campanha em Raia, que ainda não havia sido publicado, contará com o navio-sonda Valaris DS‑17 e inclui a perfuração de seis poços, em duas etapas -- quatro conectados inicialmente, seguidos de dois adicionais, disse Coelho. Ao todo, serão quatro poços produtores, um injetor e um flexível, que poderá atuar como produtor ou injetor.
Será o segundo empreendimento de grande porte a ser desenvolvido por uma empresa estrangeira como operadora no pré-sal brasileiro, segmento amplamente liderado pela Petrobras, que geralmente conta as pares como parceiras coadjuvantes.
O primeiro também foi da Equinor, com o início da produção do campo de Bacalhau, no pré-sal da Bacia de Santos, no ano passado, cuja produção ainda está restrita a dois poços e seguirá em crescimento.
"Somos muito orgulhosos de ser a primeira empresa IOC (sigla em inglês para petroleira internacional) que desenvolve um projeto de pré-sal; e agora dois", disse Coelho, ao receber a Reuters no escritório da empresa no Rio de Janeiro, acrescentando que "o Brasil é hoje o país, depois da Noruega, onde mais investimos".
Coelho evitou comentar impactos da escalada de conflitos no Oriente Médio ou das medidas do governo brasileiro para conter alta de combustíveis, incluindo uma nova taxa de exportação de petróleo. Ela afirmou que o Brasil é um "verdadeiro microcosmo" da estratégia global da companhia em um único país, com reservas de óleo e gás de classe mundial e abundantes recursos climáticos para energias renováveis.
Ainda assim, ressaltou que o Brasil compete com outros países dentro do portfólio internacional da Equinor. "Investimentos de grande porte, como os nossos, exigem previsibilidade, estabilidade e pleno respeito aos contratos. Estamos avaliando os impactos da recente medida (do governo) e mantendo diálogo com a indústria, o Congresso e representantes do governo", afirmou.
Com cerca de US$9 bilhões de investimentos, Raia terá capacidade de produzir diariamente de 16 milhões de metros cúbicos de gás e cerca de 126 mil barris de líquidos, entre óleo e condensado.
A Equinor é a operadora de Raia, com 35% de participação, e tem como parceiras no projeto a Repsol Sinopec (35%) e a Petrobras (30%). O projeto possui reservas recuperáveis de gás natural e óleo/condensado superiores a 1 bilhão de barris de óleo equivalente.
O empreendimento inclui um navio-plataforma de produção de óleo e gás em construção pela Modec, que deve deixar o estaleiro Cosco, na China, no início de 2027. A embarcação do tipo FPSO utilizará ciclo combinado para geração de energia e contará com processamento offshore de gás, permitindo emissões estimadas abaixo de 6 kg de CO₂ por barril, frente a uma média global de cerca de 17 kg, segundo Coelho.
Raia contará ainda com um gasoduto de 200 km até Macaé (RJ). "É a primeira vez que um gasoduto desse tamanho é fabricado praticamente só com aço brasileiro", afirmou. A parte terrestre da infraestrutura será conectada à rede de transporte de gás da NTS, próxima ao terminal de Cabiúnas.
EXPLORAÇÃO NO SUL DE SANTOS
Além de Raia, a Equinor intensifica sua atuação no Sul da Bacia de Santos, considerada uma nova fronteira promissora. A empresa se prepara para perfurar um poço exploratório no bloco S-M-1378 em 2027 e avalia a perfuração no bloco S-M-1617, a cerca de 60 km de distância.
"Em nenhum dos dois (blocos) a gente tem compromisso de poço, compromisso de programa exploratório mínimo, mas a gente está, de qualquer maneira, trabalhando com interpretação de dados sísmicos e preparando para perfurar o primeiro no 1378, ano que vem... é um sinal concreto do nosso otimismo", afirmou.
O interesse é reforçado por uma descoberta recente da BP no bloco Bumerangue. "Temos um vizinho inglês ali, que está celebrando muito a descoberta deles, vizinho da nossa licença, e a gente está feliz com a descoberta deles também", afirmou Coelho, destacando que o avanço pode consolidar uma nova área do pré-sal mais ao sul de Santos.
A executiva ressaltou ainda que a estratégia da Equinor tem sido maximizar valor em regiões onde já atua.
A empresa também adquiriu blocos próximos de Raia, sendo Itaimbezinho (100% Equinor) e Jaspe (operado pela Petrobras). "Se Jaspe for um novo desenvolvimento 'greenfield', com uma nova planta de produção, a gente já consegue otimizações ali também, mesmo sendo operado pela Petrobras. E se não for volume suficiente para ser um novo FPSO... a gente consegue otimização através de 'tiebacks' e conexão com a planta já instalada", afirmou.