O Banco Central afirmou que depende da incorporação de novos dados às suas análises para determinar qual será o tamanho e a duração do ciclo de "calibração" da taxa Selic iniciado na semana passada, mostrou nesta terça-feira a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
"O Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises", disse o BC no documento.
Segundo a autarquia, essa decisão mantém "o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária".
Na semana passada, a autarquia deu início a um aguardado ciclo de corte de juros ao reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,75% ao ano, e não apresentou sinalização futura clara ao defender cautela para os próximos passos da calibração da taxa básica ao destacar "forte aumento da incerteza" em meio ao acirramento dos conflitos no Oriente Médio.
Na ata, o BC afirmou que a estratégia de permanecer dependente de dados para as próximas reuniões do Copom é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio e os sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica no Brasil dificultam a identificação de tendências claras.
Apesar do conflito no Irã, alvo de ataques dos Estados Unidos e Israel, a autarquia afirmou que "os eventos recentes" não impediram a materialização do cenário traçado em janeiro, quando sinalizou o início de um ciclo de redução da taxa de juros a partir de março citando evidências dos impactos da política monetária sobre atividade e inflação, e defendeu a manutenção da Selic em nível restritivo.
"O Comitê analisou as opções para o ritmo de início do ciclo de calibração da taxa básica de juros, concluindo que nesse momento a redução de 0,25% é a mais adequada", disse.
Para Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord), a ata manteve a lógica de calibração gradual da política monetária, o que preserva o viés de queda dos juros.
"O Banco Central reforçou a incerteza do cenário, mas não elevou a barra para novos cortes... (A ata) pode ser interpretada como ligeiramente 'dovish'(suave) na margem", disse.
BALANÇO DE RISCOS
A ata apontou que o Copom chegou a debater alterações em seu balanço de riscos para a inflação à frente, mas decidiu não fazer mudanças no momento.
"Após debater alterações no balanço de riscos, o Comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos", disse.
O balanço mantém visão de que os riscos de alta e de baixa para a inflação estão mais elevados do que o usual, com o documento destacando que os riscos se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio.
Segundo o BC, antes do início do conflito, leituras indicavam melhora em dados de inflação, com indicadores benignos em bens industriais e alimentos, além de arrefecimento em preços de serviços, ainda que mais resilientes.
A guerra, no entanto, foi seguida de uma elevação nas expectativas de mercado para os preços à frente, destacou a autoridade monetária. O próprio BC também elevou suas projeções de inflação na reunião da semana passada.
Ao elaborar suas projeções, o BC disse ter mantido sua governança usual para estimar o preço do petróleo -- que subiu e tem tido elevada volatilidade diante do conflito no Oriente Médio. De acordo com o documento, a análise, baseada na curva dos preços futuros do petróleo, prevê uma forte alta na cotação do petróleo tipo Brent no curto prazo, seguida de uma trajetória decrescente ao longo da segunda metade do ano.
"A incerteza com relação ao cenário externo se elevou consideravelmente", apontou o documento, citando a guerra, mas também novas dúvidas em relação à política econômica dos Estados Unidos.
A autarquia disse manter a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda -- e que requer juros contracionistas -- e a avaliação de que a política monetária "tem contribuído de forma determinante para a desinflação observada".
Na ata, o BC afirmou que o ano de 2025 evidenciou a desaceleração econômica esperada, movimento mais acentuado em componentes cíclicos que respondem aos efeitos da política monetária. Para o início deste ano, a autarquia vê uma retomada em relação ao fim do ano passado, mas com dados evoluindo de forma a gerar um crescimento em 2026 menor do que em 2025.
Em relação ao aumento da isenção do Imposto de Renda, em vigor desde janeiro, o Copom afirmou que continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos da medida.