Empresas no Brasil registram recorde de denúncias internas; mulheres recorrem mais aos canais

Pesquisa da Be.Alliant aponta assédio e discriminação entre os maiores casos e mostra quais são os setores com mais ocorrências

10 mar 2026 - 10h11

As empresas no Brasil vêm registrando um aumento anual no uso de canais para denúncias internas desde 2017, chegando a um volume recorde de registros no ano passado. Em 2025, as denúncias corporativas chegaram à média de 9,8 relatos mensais a cada 1 mil profissionais. Há cerca de 10 anos, essa proporção era de 3,5.

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As informações são da nova edição da "Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias", elaborada pela consultoria especializada em compliance e regulatório Be.Aliant e divulgada nesta terça-feira, 10. O mapeamento leva em conta informações anonimizadas de uma base de denúncias de mais de 650 empresas clientes.

Canais de denúncias têm sido usados de forma crescente no Brasil, indica estudo
Canais de denúncias têm sido usados de forma crescente no Brasil, indica estudo
Foto: Alice Labate/Estadão / Estadão

Segundo o levantamento, a maior parte das queixas (71,4%) é por meio de sites especializados. Além disso, houve aumento nos casos classificados como de impacto alto e crítico, que passaram de 9,7% em 2024 para 11,9% em 2025, impulsionado por denúncias envolvendo assédio moral e sexual, agressão física, discriminação, fraude e violações às legislações nacionais e internacionais.

A elevação constante das denúncias se dá, primordialmente, por uma mudança de cultura no ambiente corporativo, com a queda da naturalização de práticas abusivas, explica o cofundador da Be.Aliant, Mauricio Fiss. Para ele, nos últimos anos, a equipe tem tido mais consciência de seus direitos e do que pode ou não ser tolerado em um ambiente de trabalho.

"Está muito claro que essa é uma cultura que está se impondo e é realidade no Brasil. Os colaboradores estão buscando os seus direitos e não aceitando mais as coisas passivamente", explica o porta-voz da pesquisa.

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Ele acrescenta a esse fator que o aumento gradual não se trata necessariamente de maior ocorrência de desvios comportamentais, mas de maior favorecimento de que eles sejam denunciados. Isso ocorre devido às empresas estarem em maior risco reputacional quando casos de assédio, por exemplo, são colocados a público e indicam que houve conivência da empresa.

"Hoje, as empresas entendem que assédio e discriminação geram um impacto significativo. Quando (esses casos) saem na mídia, geram uma comoção muito grande e acabam afetando a reputação. Dinheiro pode ser recuperado; reputação, quando se perde, pode fechar a empresa. Então, as empresas estão muito preocupadas com isso."

Mulheres denunciam mais

De acordo com o estudo houve mudanças no perfil dos denunciantes. Considerando a série histórica, mulheres passaram a ser maioria entre os usuários dos canais de denúncias desde 2023. Em 2025, elas foram autoras de 53,6% das denúncias corporativas. Líderes e gestores são os perfis mais denunciados em todas as edições da pesquisa.

O estudo também indicou o número de denúncias por setor. Entre os destaques que estão acima da média nacional de 9,8, estão os segmentos de serviços médicos (16,5), mineração (16,1), comércio varejista (15,2) e serviços financeiros (14,7).

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O volume superior das denúncias, segundo Fiss, dialoga com a predominância das mulheres como denunciantes, visto que se trata de nichos de mercado ainda mais opressores para as profissionais femininas.

"Saúde e comércio são setores com muita interação com o público, e os colaboradores ficam muito expostos, gerando mais atrito e pressão entre líder e liderado. Na mineração, além da hierarquia, entra o fator machista. Há mais mulheres entrando, mas é um 'mundo dos homens' ali, por assim dizer, muito menos flexível. Assim como o setor financeiro, que é mais agressivo (no formato de trabalho). Em ambientes mais machistas, as mulheres sentem, sem dúvida."

A maior parte das queixas corporativas procedentes, 62,4%, resultou em medidas educativas ou preventivas, como feedbacks, melhorias de processos e treinamentos. Em segundo lugar, 18,9%, ficaram as ocorrências de medidas graves impostas aos denunciados. Nesses casos, as sanções envolveram demissão com e sem justa causa e rescisão contratual dos denunciados.

Ambiente favorável à denúncia

Fiss explica que, para que todo o processo de uso dos canais de denúncia concorra para a segurança do denunciante, a apuração justa e a punição do denunciado, é necessário que haja um ambiente favorável para os profissionais, que evite o perigo de retaliações. Uma das boas práticas recomendadas é a de ter uma área independente de apuração e a garantia do anonimato do denunciante.

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Cofundador da Be.Aliant, Mauricio Fiss avalia que ambiente para denúncias está mais favorável nas empresas
Foto: Be.Aliant/Divulgação / Estadão

Uma das empresas que informam publicamente adotar o formato recomendado, no Brasil, é o Grupo MRV. No mês passado, a construtora publicou a segunda edição do "Relatório Anual de Governança, Riscos, Compliance e Privacidade", referente a 2025, indicando avanço na estrutura de apuração de casos de denúncia com a segregação formal entre as áreas de investigação corporativa e auditoria Interna, para garantir maior independência e imparcialidade nos processos.

De acordo com a empresa, é mantido um canal confidencial para denúncias internas desde 2012 e, à medida que áreas e programas de ética e segurança corporativa internas foram criadas, os relatos recebidos no sistema saíram de 127 no ano de criação para 1.805 em 2025 — o que, na leitura da companhia, demonstrou que os colaboradores vêm tendo maior confiança no mecanismo.

"Vivenciamos uma evolução expressiva nas frentes de aculturamento ético e percebemos uma tolerância cada vez menor à convivência com desvios. A integridade e a conduta são elementos centrais na reputação da companhia", indica o diretor de Governança, Riscos, Compliance e Privacidade do Grupo MRV, Alex Medeiros.

Assim como o MRV, o Grupo Petrópolis mantém um canal de denúncias com opção de uso confidencial. Em atividade desde 2018, o sistema é operado por uma equipe terceirizada e disponibilizado para receber denúncias relacionadas a assédio moral, assédio sexual, discriminação, desvios de conduta, violações de políticas internas, fraudes e outros comportamentos considerados inadequados.

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Para as mulheres, há ainda um diferencial. Segundo dados da cervejaria, casos de assédio contam com um trabalho preventivo junto a todos os colaboradores, por meio de um programa iniciado há dois anos chamado "Não Se Cale". A iniciativa mantém treinamentos e capacitações sobre o tema, com orientações sobre prevenção, condutas inadequadas e canais de denúncia. A formação mais recente foi realizada na segunda-feira, dia 9, com especialistas e lideranças da empresa, em virtude do Dia Internacional da Mulher.

"Entendemos que devemos utilizar nosso alcance para promover informação, reforçar comportamentos responsáveis e contribuir para um ambiente mais seguro e respeitoso para as mulheres", afirma a co-CEO do Grupo Petrópolis, Giulia Faria.

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