Diretor do BNDES defende investimento na Cosan e diz que empresa não tem só Raízen

Alexandre Abreu destaca que a Cosan tem ativos valiosos além da Raízen e que a crise está precificada na holding

17 mar 2026 - 11h04

RIO - O diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Alexandre Abreu, defendeu a compra de uma participação na Cosan, mesmo com a crise financeira da Raízen (joint venture controlada em conjunto pela Cosan e pela Shell), que entrou em recuperação extrajudicial na semana passada. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o executivo ressaltou que a companhia "não tem apenas Raízen" e citou Compass, Rumo e Moove.

"E a Raízen é um belo ativo, está passando por uma dificuldade, mas de certa forma tudo isso está precificado quando se investe na holding", diz. A participação de 2% do banco foi adquirida por R$ 409 milhões em ofertas públicas em novembro de 2025.

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O executivo explica que após um hiato em 2023 e 2024, período em que o BNDES refez processos internos, o banco voltou a comprar participações com novas regras. Segundo ele, as novas diretrizes para investimentos em participações acionárias, especialmente via BNDESPar, foram divulgadas em 2025 e que as normas afetam como o banco pode investir em empresas e qual papel terá na governança.

Alexandre Abreu, diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do BNDES: carteira de participações do banco rendeu R$ 54,8 bi nos últimos três anos
Alexandre Abreu, diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do BNDES: carteira de participações do banco rendeu R$ 54,8 bi nos últimos três anos
Foto: Divulgação/BNDES / Estadão

Abreu disse ainda que, além da Cosan, o BNDES investiu recentemente no Grupo Santa Clara, de fertilizantes, na Bioo, de biometano, e na Eve Air Mobility, de mobilidade aérea, e que, no campo dos fundos, lançou um voltado a minerais críticos, em parceria com a Vale, e outro para energia sustentável, em parceria com a Petrobras. "Em 2026, seguiremos as nossas teses de investimento", afirmou, citando descarbonização e inovação, entre outros temas.

Inadimplência

Em outra operação, o BNDES deixou de ser credor da Novonor (antiga Odebrecht) e passou a ser cotista de um fundo que assumiu o controle da Braskem ao lado da Petrobras, em uma operação feita também com Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander. Uma fonte do mercado explicou que a mudança ocorreu porque a Novonor havia dado ações da Braskem em garantia de empréstimo, e os papéis acabaram vendidos para um fundo, o IG4, que levou os bancos à condição de cotistas. O processo ainda não está concluído.

Ao comentar o custo do crédito no País, o diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do BNDES, Alexandre Abreu, afirmou que as taxas elevadas cobradas das empresas brasileiras têm mais relação com o risco de inadimplência do que com o patamar da Selic. "Boa parte dessas empresas tem problema de inadimplência. A Selic é só mais um problema. E vem um ciclo vicioso: não pagam porque a taxa é alta e a taxa é alta por causa da inadimplência."

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Abreu explica que o problema é endereçado pelo Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), administrado pelo BNDES, criado para facilitar o acesso ao crédito principalmente por micro, pequenas e médias empresas. "É um avalista. Isso não quer dizer emprestar para quem é ruim."

Ele acrescentou que uma eventual queda da Selic deve ajudar as companhias a diminuir a alavancagem, abrindo espaço no Ebitda para investimentos, lucro e capex, o que, segundo ele, tende a elevar o valor das empresas. "Isso vai ser muito bom para a economia."

Carteira de participações

A carteira de participações do BNDES rendeu R$ 54,8 bilhões nos últimos três anos, puxada pelo recebimento de proventos (R$ 25,7 bilhões), pela valorização das ações no portfólio (R$ 23,7 bilhões) e pela venda de papéis (R$ 5,4 bilhões). Alexandre Abreu destacou que o desempenho superou os principais referenciais do mercado: "De 2023 a janeiro de 2026, a carteira do BNDES avançou 28,95%".

Desde janeiro de 2023, a carteira de participações do banco cresceu 38% e fechou em R$ 86,4 bilhões no quarto trimestre de 2025. A cifra supera a marca de R$ 82 bilhões registrada no mesmo período do ano anterior, mas não alcança o pico de R$ 87,6 bilhões apurado no primeiro trimestre de 2025.

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No período, o banco vendeu R$ 5,4 bilhões em ações e, segundo Alexandre Abreu, retomou a estratégia de se desfazer de participações maduras em operações "com alguma vantagem", citando como exemplo a saída da Copel, que injetou R$ 400 milhões no caixa do BNDES.

Outro exemplo foi o acordo com a JBS na listagem do frigorífico no exterior, que prevê pagamento de R$ 500 milhões ao banco caso as ações não se valorizem. "Vendemos participações maduras e com vantagem, como Copel e JBS."

No período, o banco também reduziu a participação no capital da Energisa e anunciou na segunda-feira, 16, a aprovação de R$ 1 bilhão para a empresa investir e melhorar a distribuição de energia no Acre, Tocantins e Mato Grosso.

No fim de 2025, a carteira do BNDES era formada por R$ 81,5 bilhões em ações e R$ 4,9 bilhões em cotas de fundos de investimento, segmento que atingiu nível histórico. Segundo o diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do BNDES, Alexandre Abreu, a instituição pretende ampliar essa fatia: "Pretendemos aumentar o volume dos fundos".

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Para isso, o banco lançou um edital público, a chamada de Clima, para selecionar fundos privados que receberão recursos do BNDES e investirão em projetos climáticos, inclusive por meio da compra de participações. Nesse modelo, os aportes nas empresas serão feitos pelos fundos, e não diretamente pelo banco de fomento.

Segundo as estimativas mencionadas, o braço de participações BNDESPar tem orçamento de até R$ 4,9 bilhões. A Chamada de Clima foi de R$ 4,3 bilhões, com potencial de mobilização de cerca de R$ 15 bilhões quando somado capital privado.

Papel do banco

Abreu defendeu a atuação do banco no desenvolvimento econômico e argumentou que a presença do Estado em empresas estratégicas é uma prática adotada em outros países. "Não me parece correto dizer que o Estado não deve investir em empresas estratégicas", afirmou.

Para sustentar o ponto, citou exemplos internacionais e disse que "A China é um modelo de gestão onde o Estado está presente na economia e está dando supercerto de qualquer ponto de vista", mencionando ainda Japão e Coreia, onde, segundo ele, há presença forte do Estado na economia, além da Europa. Abreu também afirmou que, "Os EUA, berço do capitalismo, tem anunciado investimentos do Tesouro americano em empresas."

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