Crise energética ronda a Europa e já dá seus primeiros sinais em meio à guerra no Irã

7 abr 2026 - 12h20

Restrições no abastecimento de aviões na Itália, subsídios na Grécia e caminhões-tanque na França: com a alta dos combustíveis decorrente da guerra no Irã, é hora de a UE incentivar energia limpa, alertam especialistas.A guerra de Estados Unidos e Israel no Irã já gera impactos diretos no cotidiano dos europeus. Com combustíveis mais caros, escassez de energia e riscos de abastecimento, a União Europeia (UE) e governos nacionais estão adotando medidas de emergência que vão de restrições para abastecimento a apelos para economizar energia.

Os sinais de pressão já começam a aparecer em vários países do bloco. Na Grécia, o governo anunciou um subsídio temporário para combustíveis, direcionado a famílias de baixa e média renda. Na Itália, ao menos quatro aeroportos do Norte do país, incluindo o de Milão, impuseram limites ao fornecimento de querosene de aviação.

Publicidade

Já o governo francês enviou centenas de caminhões-tanque para normalizar o estoque nos postos de combustíveis, que registraram problemas na distribuição após a corrida da população para abastecer os automóveis no país na véspera do feriado de Páscoa.

Diante dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, que já entrou no segundo mês com bloqueios no Estreito de Ormuz e ataques à infraestrutura energética por parte dos envolvidos, a Comissão Europeia fez, na semana passada, um apelo para que os mais de 400 milhões de cidadãos voem e dirijam menos, trabalhem mais em home office e se esforcem para economizar energia.

Mas, segundo os especialistas consultados pela DW, a UE, como um todo, precisa fazer mais para se preparar para a crise que, segundo o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, deverá ter um impacto tão grande quanto a pandemia da Covid-19 ou o início da Guerra na Ucrânia.

"Ainda não nos demos conta da magnitude dessa crise", diz à DW Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista-chefe de energia para a Europa do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira de Londres.

Publicidade

Segundo ela, a Europa deve começar a sentir a diferença até o final do mês. "Algumas cargas [de gás natural liquefeito] já estavam sendo redirecionadas para a Ásia", acrescentou ela, referindo-se à competição entre a Europa e a Ásia pelos estoques cada vez mais escassos do insumo.

Corrida pelo gás natural

Preços de petróleo e gás dispararam em cerca de 70% desde que os EUA e Israel lançaram os primeiros ataques aéreos contra o Irã, no final de fevereiro. Em retaliação, o Irã lançou uma enxurrada de mísseis e drones contra os países do Golfo, ricos em recursos energéticos, e bloqueou o Estreito de Ormuz, hidrovia por onde passam 20% do petróleo do mundo.

Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, só os primeiros dez dias do conflito custaram aos contribuintes europeus cerca de 3 bilhões de euros (R$ 17,9 bilhões) adicionais em importações de combustíveis fósseis.

De acordo com um relatório recente do think tank Bruegel, se o preço do gás dobrar, isso acrescentará cerca de 100 bilhões de euros aos custos de importação do insumo pela Europa nos próximos 12 meses.

Publicidade

Mas o aumento dos preços não é a única preocupação. Com o prolongamento da guerra, começam a surgir receios de uma escassez de abastecimento em toda a Europa.

Inicialmente, as autoridades europeias ficaram relativamente tranquilas, já que o continente era menos dependente das importações de energia que passam pelo Estreito de Ormuz - apenas 8% do gás natural liquefeito (GNL) do bloco vinha do Catar antes da guerra. Os países asiáticos, por outro lado, dependiam da rota marítima para quase um terço do consumo total.

No entanto, à medida que o conflito se prolonga e o volume de suprimentos se reduz, crescem as preocupações de que até mesmo a menor oscilação possa provocar escassez, especialmente se países asiáticos superarem os europeus na disputa por esses suprimentos energéticos.

Nos últimos anos, a UE diversificou o seu abastecimento energético com o objetivo de reduzir a dependência da energia russa, substituindo por mais importações dos Estados Unidos e da Noruega. Atualmente, os EUA são o maior exportador de gás para o bloco europeu. No entanto, à medida que essa competição por recursos limitados se intensifica, as nações asiáticas também entram na fila para adquirir parte do GNL americano.

Publicidade

No relatório, o Bruegel afirma que, desde o início da guerra no Irã, vários carregamentos de gás natural já foram redirecionados da Europa para a Ásia. "O abastecimento de gás da UE é ainda mais limitado pela eliminação gradual do GNL russo, prevista para 2027", acrescentou o think thank.

União Europeia deve reatar laços com a Rússia?

Durante a cúpula de líderes da UE realizada em março, o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, afirmou ao jornal diário belga L'Echo que o bloco europeu deve se rearmar, e, ao mesmo tempo, "normalizar as relações com a Rússia e recuperar o acesso à energia barata".

"É senso comum. Em particular, os líderes europeus me dizem que estou certo, mas ninguém ousa dizer isso em voz alta", afirmou.

Essa possibilidade, no entanto, foi descartada pelo chefe de energia do bloco, Dan Jorgensen. Segundo ele, a UE não importará "nem uma molécula" de energia russa.

Para os especialistas, em vez disso, a Comissão Europeia poderia implementar um eventual teto de preço para gás, além de subsídios para a indústria.

Publicidade

"As indústrias que mais consomem energia, como siderurgia, cimento e fertilizantes, podem ser afetadas pelo aumento dos preços", diz Alexander Roth, um dos autores do relatório do Bruegel, à DW.

Segundo o grupo de lobby Fertilizers Europe, a guerra pode ter "implicações para as cadeias de fornecimento de fertilizantes". De acordo com a entidade, a UE deve apoiar agricultores para proteger a segurança alimentar e, ao mesmo tempo, reforçar a resiliência da indústria europeia de fertilizantes se a crise no Irã persistir.

Também há o temor de um efeito cascata nas cadeias de abastecimento da indústria de diversos setores, incluindo produtos químicos, plásticos, alumínio e vidro. No setor de aviação, relatos sugerem que a Lufthansa planeja suspender dezenas de voos caso a demanda caia enquanto o custo do combustível aumenta.

No entanto, o relatório do think thank Bruegel alertou contra a imposição de um teto para os preços do gás e do petróleo. "Diante de um choque de preços, a tentação é conter os aumentos", afirma o texto. "Isso seria um erro", acrescenta o documento, indicando que esse tipo de medida "enfraquece os sinais de preço que estimulam a eficiência, a redução da demanda e os investimentos em energia limpa".

Publicidade

Segundo Roth, um teto é uma solução de curto prazo para oferecer alívio aos consumidores, mas, a médio e longo prazo, leva ao aumento no consumo, o que "atrasaria a transição para fontes de energia mais limpas".

Oportunidade para energias renováveis

Em vez de impor um teto de preços, a analista de energia Jaller‑Makarewicz defende que a União Europeia adote medidas concretas, como a redução do aquecimento em restaurantes e em prédios públicos. Ela acrescenta que os governos também deveriam limitar as viagens de autoridades dentro do bloco europeu e ampliar os "investimentos em indústrias verdes locais, como bombas de calor".

Roth, do Bruegel, afirma que a UE deveria coordenar sua estratégia com os países do bloco e, em lugar de subsídios ao gás, apostar em uma redução de impostos sobre a eletricidade. "Isso reduziria a conta paga pelos consumidores, mas também os incentivaria a investir em opções de eletrificação, como bombas de calor e carros elétricos", diz.

O relatório do think thank aponta que a guerra no Irã expôs mais uma vez a vulnerabilidade europeia no setor energético. O documento recomenda que "os formuladores de políticas devem aproveitar a oportunidade para implantar energias renováveis e tecnologias de eletrificação ainda mais rapidamente".

Publicidade

O texto cita os exemplos da Espanha - que nos últimos anos investiu fortemente em energia eólica e solar e conseguiu estabilizar os preços da energia - e da Itália, a economia europeia mais dependente do gás. A Itália importava a maior parte do gás do Catar através do Estreito de Ormuz e registrou um aumento significativo nos preços da energia este ano.

Mesmo que a guerra termine amanhã, o fornecimento de GNL da região não será retomado da noite para o dia. O complexo energético de Ras Laffan, no Catar - uma fonte essencial de gás natural para os mercados mundiais -, foi atingido por mísseis iranianos em 18 de março. Os danos extensos podem levar meses ou anos para serem reparados antes que o complexo volte a funcionar, informou a estatal QatarEnergy.

"Ninguém sabe quanto tempo durará a crise, mas acho muito importante ressaltar que não será curta", disse Jorgensen, da UE, após a reunião de emergência. "A infraestrutura energética da região foi e continua sendo destruída pela guerra."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações