A escalada das tensões no Oriente Médio, que levou o preço do petróleo a beirar os US$ 120 o barril na segunda-feira, 9, reacendeu temores de inflação importada e pode colocar em xeque os planos do Banco Central (BC) de iniciar a redução da taxa de juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para a próxima semana.
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Embora os efeitos ainda não tenham sido plenamente sentidos no Brasil, analistas avaliam que a alta da commodity no mercado internacional tende a pressionar os preços domésticos nos próximos meses, seja por meio de eventuais reajustes de combustíveis pela Petrobras, seja pelo aumento de custos em setores como transporte, indústria e alimentos.
“Os preços internacionais não são repassados automaticamente. A Petrobras tem um algoritmo um pouco mal definido, que considera também o custo de produção nas áreas produtivas do próprio país. Mas, para não se descapitalizar à frente as suas concorrentes internacionais, a Petrobras tem que repassar aumentos mais expressivos e mais persistentes do petróleo para o mercado interno”, afirma Robson Gonçalves, economista e professor da FGV.
Isabela Garcia, analista de inteligência de mercado da Stonex, reforça que “quanto maior o repasse, a fim de alinhar com os preços externos, maior o impacto sobre a inflação. No entanto, a atual política de precificação da Petrobras não permite concluir simplesmente que os preços internacionais serão integralmente repassados”.
Isabela reforça também que o aumento do petróleo também têm efeitos econômicos mais amplos. Ela explica que os derivados do petróleo estão presentes, por exemplo, em diversos setores produtivos, de maneira direta, como insumo para a produção, mas também indiretos, com impactos de frete.
“Os custos de diversos insumos e produtos importados também tendem a aumentar por conta do petróleo, contribuindo para a inflação doméstica, ainda que de forma menos direta do que um reajuste de preços da Petrobras”, enfatiza Isabela.
Quando o preço do petróleo sobe, vários custos na economia aumentam porque o petróleo está presente em muitos produtos e serviços. Além dos combustíveis (gasolina, diesel, querosene), a alta do petróleo impacta:
- 🚚 Frete e transporte
- 🏭 Indústria e produção
- 🌽 Alimentos
Impacto da guerra sobre a decisão do Copom
Com risco de inflação importada, o cenário externo mais adverso pode afetar as decisões do BC sobre a Selic. Na reunião de janeiro, o Copom decidiu manter a taxa básica de juros da economia estável em 15% ao ano, no entanto, sinalizou início de cortes a partir da reunião da próxima semana. Na data do comunicado, existia uma expectativa de que a inflação estivesse mais controlada.
“Havia aí uma perspectiva de início de redução da taxa Selic, por conta de uma convergência lenta, mas segura da inflação em relação à meta, e o cenário atual me parece que afasta completamente a possibilidade de que na próxima reunião do Copom haja uma queda da Selic”, afirma Robson Gonçalves.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, mesmo que, por ora, o efeito da alta do petróleo não esteja se refletindo em revisões significativas de inflação pelo mercado doméstico, a perspectiva de choque externo mantém os agentes mais cautelosos na forma de projetar cortes de juros.
“Em outras palavras, a guerra no Oriente Médio adiciona um prêmio de risco que dificulta a consolidação de um ciclo de cortes mais rápido na Selic, porque qualquer aceleração do conflito poderia, em teoria, levar a maior pressão de custos e afetar o balanço macroeconômico”, enfatiza Sidney Lima.