'Como pode um banco pequeno criar uma bomba de R$ 50 bi no FGC?', questiona Esteves, do BTG

Em referência ao Banco Master, André Esteves criticou um 'Brasil não institucional' que apareceu 'por aí'; segundo ele, País segue ganhando na batalha da institucionalidade

31 mar 2026 - 12h51

O sócio e chairman do BTG Pactual, André Esteves, reforçou a importância da institucionalidade para atingir o desenvolvimento econômico. Esteves discorreu sobre o que é o Brasil institucional — com um conjunto de normas e estruturas legais — e o que é o Brasil "não institucional". Sem citar nominalmente, o chairman do BTG fez uma referência ao caso Master.

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"Nós aqui somos o Brasil institucional, mas apareceu um Brasil não institucional por aí", disse Esteves, que citou as estratégias do crime organizado para operar nos mercados formais. "Como é que pode um banco pequeno criar uma bomba de R$ 50 bilhões no FGC e fazer um desfalque de R$ 12 bilhões no banco público (BRB), como é que pode?", completou, em referência ao Banco Master.

O chairman do BTG reiterou, porém, que o País segue ganhando na batalha da institucionalidade.

"Obedecer à lei deve ser igual para todos; seja uma regra e não um momento. Sem excessos, sem estrelismo, sem fascismo, como talvez a gente tenha errado a mão em um certo momento lá atrás na Lava-Jato. Acho que, com moderação, tem coisa muito legal para a gente fazer", disse.

Esteves participou da Global Managers Conference 2026, da BTG Pactual Asset Management.

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Eleições

Para o chairman do BTG Pactual, o processo eleitoral no Brasil, por enquanto, tem influenciado pouco o preço dos ativos do País. Apesar de reconhecer que, quando há divulgação de pesquisas de intenção de voto, pode haver mudanças "de 1% para lá ou para cá", a tendência maior dos ativos se dá a partir do que acontece no cenário internacional, segundo ele.

"A eleição não está fazendo preço e é mais ou menos natural, porque esse gringo que quer trazer dinheiro para o Brasil, ele vê uma eleição '50 a 50', em que o presidente Lula, o incumbente, é mais ou menos o que está aí, não tem muita novidade: tem aspectos que podem frustrar na economia, por outro lado, é alguém que tem juízo, bom senso, não deixa o circo pegar fogo e tal. Por outro lado, se entrar um candidato de direita, provavelmente vai melhorar o mix de políticas econômicas, talvez outras coisas tenham dúvida", exemplificou. "O investidor estrangeiro não está muito preocupado com a eleição, na verdade, não está dando a menor bola para a eleição; esse é um registro pragmático do que está acontecendo", reforçou.

Em relação ao pleito em si, Esteves disse considerar que o atual presidente Lula tem o maior recall entre o eleitorado por ter sido um dos protagonistas das últimas dez eleições que ocorreram no País. Justamente por isso, porém, pode haver algum cansaço da sociedade com relação à figura de Lula.

Esteves também pontuou que a sociedade parece ter caminhado mais à direita, passando a se identificar com pautas como o empreendedorismo. "Há 40 anos, quando o PT nasceu, a maior classe trabalhadora no Brasil eram bancários e metalúrgicos, por definição sindicalizados. Hoje, a maior classe trabalhadora são motoristas de aplicativo, motoboys, por definição pequenos empresários, donos do seu próprio nariz econômico, cuja demanda social, econômica e política é muito parecida com a de todos nós que estamos aqui: o cara quer segurança, pouco imposto e flexibilidade."

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Apesar disso, o chairman do BTG pontuou que ainda não apareceu, na direita ou no centro, uma alternativa que seja "matadora" contra o presidente Lula. "O Flávio (Bolsonaro) carrega de um lado o peso e a vantagem do sobrenome Bolsonaro: ele carrega a resistência e a lembrança de alguns erros crassos cometidos pelo Bolsonaro, de vacinação, da maneira de lidar com o meio ambiente, que é cara a vários segmentos da sociedade, as próprias ameaças institucionais", disse.

Nesse cenário, ainda sem muitas novidades, Esteves avalia que a confirmação da candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) tende a beneficiar Lula. "Caiado vai ficar ali no mesmo 'turf' do Flávio, não muda muito na ameaça ao Lula. Na margem, eu achei melhor para o Lula a indicação do Caiado."

Reforma fiscal

Esteves disse que discorda da ideia de que é difícil realizar reformas fiscais no Brasil por serem, em tese, medidas impopulares. Ele lembrou que medidas anteriores, igualmente impopulares, também foram aprovadas em momentos adversos.

"Nós fizemos a reforma trabalhista com um presidente com 9% de popularidade, nós fizemos a reforma da Previdência com um presidente contrário, nós fizemos a independência do Banco Central com o Supremo na dúvida, dominado por um ministro que tinha viés mais à esquerda; fizemos a reforma tributária com um governo sem base nenhuma no Congresso", exemplificou o chairman do BTG.

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Para ele, está claro que o País precisa avançar numa agenda de controle de gastos. Entre as questões urgentes, Esteves mencionou a necessidade de revisão na fórmula de reajuste de benefícios previdenciários. "O Brasil é o único país do mundo em que o sujeito é aposentado e ganha um reajuste de 2,5% todo ano. Não tem esse negócio na França, na Noruega, nas sociais democracias, não tem o menor sentido isso daqui", disse.

Na avaliação do chairman do BTG, a aprovação de reformas de revisão de gastos, idealmente, deveria ser proposta em um momento em que o governo federal tem mais força, mas não necessariamente é preciso aguardar o início do ano que vem. "Pode aprovar no quarto trimestre deste ano. Sempre tem aquele mandato tampão, aquela transição; cabe tranquilamente fazer isso."

Na visão de Esteves, a aprovação de reformas em anos anteriores é, inclusive, o que explica o crescimento acima do esperado da economia brasileira recentemente. "A gente cresceu mais porque estávamos subestimando o efeito dessa sequência de reformas, como a trabalhista, a da previdência e a tributária, que entrou agora."

Emergentes

O sócio-sênior do BTG destacou que a tendência de dólar relativamente enfraquecido e fluxo de investimentos para países emergentes, que imperava no mundo antes da eclosão do atual conflito no Irã, deve permanecer no futuro, após um desfecho dessa guerra. Segundo ele, mesmo quando o conflito acabar, o "mal-estar" do mundo para com os EUA vai continuar existindo.

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Esteves pontuou, porém, que esse mal-estar e a sensação de que os EUA não são tão confiáveis como antes são um movimento marginal: "Não tem capitais saindo dos Estados Unidos, eles não estão entrando na mesma magnitude", destacou ele, frisando que, por isso, esse fluxo positivo para países emergentes deve seguir.

Somado a esse contexto turbulento, o chairman do BTG destacou que o desenvolvimento da Inteligência Artificial, e principalmente sobre qual modelo de IA será considerado o vencedor, também é outro vetor de incerteza para o mercado de capitais dos EUA.

"Então não interessa se você é um fundo de pensão canadense ou europeu, ou um banco central de mercado emergente, ou um fundo soberano da Ásia, ou simplesmente um family office global, todos esses atores estão, na margem, mexendo um pouquinho na sua locação americana", pontuou Esteves. Para ele, por mais que esse movimento seja residual, em virtude do tamanho da economia dos EUA, trata-se de um volume significativo de recursos em outros países, como os mercados emergentes.

"É um pouquinho de nada de dinheiro que vem e faz essa diferença enorme, e foi isso que aconteceu nos mercados (emergentes) ao longo dos últimos meses", disse Esteves, citando movimentos em países como Brasil, México e Chile, antes da guerra no Oriente Médio. "A sensação que eu tenho é que a guerra não vai reverter a tendência anterior; pelo contrário, o que parece é que, quando as coisas acalmarem ou a poeira baixar, e alguma hora isso vai acontecer, o trend anterior será retomado", reforçou o chairman do BTG.

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