RIO - A alta do combustível deve reduzir o ritmo de crescimento da oferta da Latam no Brasil no segundo trimestre, embora a companhia aérea siga expandindo sua operação, afirmou o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier. "Continuaremos crescendo, mas uns três pontos porcentuais abaixo do que imaginávamos inicialmente", disse o executivo.
Em entrevista ao Estadão/Broadcast durante a reunião anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), realizada no Rio de Janeiro, Cadier afirmou que a companhia previa expandir sua oferta em cerca de 11% em relação a 2025. Com a alta de cerca de 100% no preço do combustível nos últimos meses, porém, o crescimento projetado para o segundo trimestre caiu para cerca de 8%, movimento que deve se repetir na segunda metade do ano. O executivo ponderou que não houve corte de destinos, mas apenas "ajustes pontuais em frequências com excesso de oferta".
Cadier destacou também que o impacto da alta do combustível será mais visível nos próximos resultados da companhia, uma vez que a guerra no Oriente Médio começou apenas no fim de fevereiro. A Latam estima um aumento de cerca de US$ 700 milhões nos custos do grupo no período em razão dos preços mais elevados do querosene de aviação (QAV). Mesmo com o eventual fim do conflito, acrescentou, os preços do combustível devem permanecer elevados nos próximos seis a 12 meses.
Apesar do cenário, o executivo avaliou que a demanda corporativa continua resiliente e que a companhia mantém seus planos de expansão. Ele ressalvou que o passageiro de lazer está mais cauteloso diante do aumento das tarifas. Cadier apontou ainda a reforma tributária como a principal preocupação da Latam para o crescimento da aviação brasileira no longo prazo.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Até que ponto o atual cenário geopolítico está impactando os planos de crescimento da Latam?
Quando olhamos para o Brasil, programamos um crescimento da oferta em torno de 11% para 2026, em relação a 2025. Com o aumento de 100% no preço do combustível nos últimos meses, decidimos ajustar parte desse crescimento. Não estamos mais projetando 11%. No segundo trimestre, devemos crescer cerca de 8% em relação ao ano passado. Continuamos crescendo, mas cerca de três pontos porcentuais abaixo do que imaginávamos. A mesma coisa deve se repetir no terceiro e no quarto trimestres. Será um ano de crescimento em relação ao ano passado, mas menor do que gostaríamos.
A Latam já precisou cortar rotas ou destinos por causa desse cenário?
Não cortamos nenhum destino. Pelo contrário, lançamos alguns recentemente. O que fizemos foram ajustes pontuais de frequências e rotas com excesso de oferta. Parte disso aconteceu na Ponte Aérea (Rio-São Paulo). São ajustes para retirar voos que não estavam se rentabilizando. Mas não houve eliminação de destinos e seguimos com os planos de expansão. No fim de julho vamos anunciar novos destinos que serão atendidos pelos [aviões] E2 da Embraer.
Como absorver um custo tão alto e ainda manter crescimento?
O que vimos nesses primeiros meses foi uma demanda bastante resiliente. Os preços estão subindo e a demanda continua vindo, principalmente do passageiro que viaja com menos antecedência, provavelmente por motivo de negócios. Esse cliente entendeu o momento da indústria e continua mantendo seus planos de viagem. Já nas viagens programadas com seis ou oito meses de antecedência, sentimos alguma retração. Esse passageiro está esperando um pouco para ver o que acontece. Ainda não podemos dizer que perdemos a demanda mais sensível a preço, mas o passageiro de longo prazo está mais cauteloso.
Quais são as perspectivas para o preço do QAV?
Mesmo que qualquer conflito acabasse hoje, a cadeia foi toda desorganizada. É preciso realocar navios, recuperar instalações de refino e restabelecer fluxos de abastecimento. Isso leva meses, se não anos. Imaginamos que entre seis e 12 meses ainda vamos conviver com um preço de combustível bastante alto, muito acima dos níveis do ano passado.
Entrar nessa crise com um balanço mais robusto ajuda a atravessar esse período?
Acho que é fundamental. O balanço indica a capacidade de absorver choques. Esse é um choque muito grande porque o custo sobe imediatamente, enquanto a receita demora para ser ajustada. Quem tem mais caixa e menos dívida consegue atravessar melhor esse período. A Latam saiu do Chapter 11 (recuperação judicial nos Estados Unidos) muito mais forte do ponto de vista de balanço do que outros concorrentes que também passaram por processos de reestruturação. Temos uma dívida menor, um caixa maior e um custo de dívida mais baixo. Isso quer dizer que é tranquilo? Não. É uma crise forte e um desafio grande, mas estamos em uma posição melhor para enfrentá-la.
Qual deve ser o impacto da alta do combustível nos resultados da companhia?
O impacto mesmo vem no segundo trimestre. Os primeiros três meses praticamente não sentiram os efeitos porque a guerra começou no fim de fevereiro. A Latam divulgou para o grupo um impacto de cerca de US$ 700 milhões em aumento de custos no segundo trimestre. É muita coisa. Vamos buscar compensar parte disso, mas dificilmente conseguiremos compensar integralmente. Por isso, o segundo trimestre deve ser o período de maior impacto nos resultados.
A discussão sobre o preço do QAV pode avançar depois desta crise?
Eu adoraria dizer que sim, mas minha expectativa é baixa. O Brasil é praticamente autossuficiente em combustível de aviação e ainda assim paga um dos combustíveis mais caros do mundo. Esse problema é conhecido há anos e vejo pouca disposição para rever a forma como o combustível é precificado ou para ampliar a concorrência no setor.
Qual é a principal agenda da Latam neste momento?
Primeiro, fazer com que o passageiro tenha a melhor experiência voando Latam. Ao mesmo tempo, precisamos manter um custo operacional muito disciplinado. A combinação de um produto melhor com custos controlados é o que nos permite continuar crescendo.
Os planos de expansão da frota seguem mantidos?
Sem dúvida. Além dos 12 Embraer E2 que vamos receber neste ano, teremos mais 15 aeronaves Airbus operando no Brasil. Entre o fim do ano passado e o fim deste ano serão 27 aeronaves adicionais no País. Continuamos acreditando no crescimento de longo prazo da aviação brasileira, e os E2 vão permitir chegar a mais cidades e fortalecer ainda mais nossa rede.
O que mais preocupa a Latam olhando para o longo prazo?
Sem dúvida, a reforma tributária. Independentemente da crise do combustível, esse é o principal tema de longo prazo para a companhia. Se queremos cada vez mais voos no Brasil, a reforma tributária, do jeito que está desenhada hoje, não vem ao encontro desse objetivo. Pelo contrário. A reforma tributária teria um impacto significativo tanto no doméstico quanto no internacional. Basicamente, ela mais do que triplica a quantidade de impostos da aviação. A gente passaria, por exemplo, de não ter imposto nas viagens internacionais — porque é assim que funciona no mundo inteiro — para ter 13%, metade da alíquota. Se for 26% ou 26,5%, seriam 13% de imposto sobre o internacional. Isso é um aumento direto que não vai ser compensado pelo passageiro de turismo. Ele vai pagar mais, mesmo. No doméstico, também há um aumento significativo. Hoje a gente paga entre 9% e 10%; passaríamos para 26% ou, dependendo de o voo ser regional ou não, para algo como 18%. Mas o fato é que, se a gente acha que se voa pouco no Brasil e que a passagem ainda é cara, estamos agravando ainda mais esse efeito com a aplicação da reforma tributária. Eu acho que ainda estamos otimistas porque existem discussões a serem feitas com o governo sobre para aonde queremos que a aviação vá. Uma coisa é buscar mais arrecadação. Outra é entender que a arrecadação pode não vir da passagem, mas do turismo, do desenvolvimento da hotelaria e do consumo que esse turista gera dentro do Brasil. Na hora em que você encarece a passagem, reduz todo o resto da cadeia. Acho que isso, no fundo, ainda não foi bem entendido. E estamos otimistas de que será possível repensar os efeitos dessa reforma.
O governo está aberto a discutir um modelo que faça mais sentido?
Eu acho que é uma reforma muito grande, que impacta todos os setores. Então, é muito difícil ter conversas bastante profundas sobre cada um deles. E nisso a gente entende que chega um momento em que é preciso avançar para depois fazer os ajustes. Entendo que estamos justamente no momento dos ajustes. Nessas conversas, por exemplo, a gente não pode romper todos os acordos bilaterais no tráfego internacional. Não pode sair totalmente do alinhamento com todos os países no tratamento tributário dos voos internacionais. Isso eu acho que ainda não foi refletido. E sinto, sim, que existe abertura para entender quais ajustes são necessários. Definitivamente, no internacional, é óbvio que precisamos ajustar. E tomara que a gente consiga discutir o doméstico também.
A repórter viajou a convite da Iata