BRASÍLIA - O Brasil está bem posicionado na corrida global por materiais críticos, na avaliação do diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), Tulio Cariello. "O Brasil acaba aparecendo como um destino de investimento muito evidente tanto para a China quanto para os Estados Unidos neste momento", disse, em entrevista ao Estadão/Broadcast, ao comentar sobre a busca pelas potências mundiais de um fornecedor alternativo de terras raras, essenciais para a indústria da transição energética, alta tecnologia e desenvolvimento militar.
O professor disse que gostaria de ver, no entanto, um aproveitamento maior desse material internamente. Em vez de apenas montar carros elétricos trazidos pela China, por exemplo, o Brasil poderia começar a extrair os minerais, processá-los e até confeccionar baterias para esses automóveis em território nacional.
A conversa com Cariello se deu em função do lançamento do relatório "Investimentos Chineses no Brasil 2025", coordenado por ele e que foi lançado na quarta-feira, 6.
O diretor também falou sobre o motivo pelo qual o Brasil se consolidou como um destino de Investimento Direto no País (IDP) para a China, os setores de maior destaque, assim como a abrangência dos recursos em solo doméstico.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Houve uma queda dos investimentos da China no Brasil pós-pandemia, mas depois uma recuperação, que chegou ao ápice de sete anos no ano passado. Podemos pensar que o Brasil está consolidado para a China como um destino consistente?
Sim, com certeza. E não é de hoje. A gente tem visto isso acontecendo há alguns anos. O Brasil tem ficado numa posição de destaque nos últimos anos porque, de fato, a gente tem uma série de atrativos, de questões que são ligadas a características da própria economia brasileira: mercado consumidor, uma indústria relativamente desenvolvida — pelo menos em termos regionais — e também uma matriz elétrica limpa, o que é muito importante. A China está passando por um processo de descarbonização, então, se vão investir no exterior, vão claramente preferir países que têm uma matriz elétrica limpa. E o Brasil se destaca nisso, pois é a matriz mais limpa do G20 (grupo das 20 maiores economias do globo), por exemplo.
E a energia é o principal foco dos investimentos, certo?
Continua sendo, absolutamente. E a gente tem recursos naturais também. Por exemplo: a China já vem investindo no petróleo aqui há muito tempo, e na mineração também. Embora a gente tenha visto uma retomada agora muito forte. O investimento em mineração em 2025 foi três vezes maior do que em 2024.
Mineração é o assunto do momento no mundo por causa das terras raras. A China é o país que tem a maior quantidade desses minérios, seguida do Brasil. Como o senhor vê a corrida por esse produto no globo?
De fato, hoje tem essa corrida pelos minerais críticos, e o Brasil está bem posicionado. A China já domina esse mercado amplamente e não depende do mundo, mas o Brasil tem reservas importantes de terras raras, que ainda não são economicamente exploradas. A China tem buscado investir em outros países para poder diversificar também seu fornecimento, e o Brasil entra nessa equação claramente. A gente viu que recentemente teve um interesse muito claro dos Estados Unidos e países europeus. A questão de ter um fornecedor alternativo de terras raras é um ponto central, porque esses materiais são essenciais não só para a indústria da transição energética, mas de alta tecnologia, em termos militares... Então, o Brasil acaba aparecendo como um destino de investimento muito evidente tanto para a China quanto para os Estados Unidos neste momento.
Também é um material relevante para carros elétricos, que também contam com muitos investimentos chineses aqui...
Nesse caso, acho que é interessante a gente pensar no melhor cenário, que seria uma integração maior dessas etapas da cadeia produtiva. Seria interessante a gente avançar nessa cadeia: na área de processamento, de fabricação de baterias, por exemplo.
A questão é que a regulação brasileira ainda não foi aprovada.
Precisa de uma regulação, com certeza. O melhor dos mundos seria buscar uma integração maior entre as etapas da cadeia produtiva. Seria muito legal se a gente conseguisse extrair, processar e depois fazer o material industrial. A bateria, o carro elétrico, tudo aqui no Brasil. Hoje, a indústria chinesa do carro elétrico aqui é pautada pela montagem, com a GWM e a BYD — embora tenha projetos de desenvolvimento de tecnologias para o Brasil.
O senhor citou os EUA. Quando o presidente Donald Trump anunciou o Dia da Liberação, o senhor avaliou que isso faria com que o Brasil se aproximasse mais da China e dos Brics. Foi o que ocorreu desde então?
Tem uma variável geopolítica também que eu acho que não dá para a gente negligenciar, que é o fato de que a China tem encontrado dificuldade em investir em outros países — principalmente os desenvolvidos. Os Estados Unidos são o principal, obviamente. O país investe lá, mas, se a gente pega o histórico, é uma sombra do que já foi um dia, porque começou a haver uma preocupação de a China estar comprando ativos estratégicos. Hoje, efetivamente, o governo americano bloqueia os investimentos chineses em algumas áreas. Isso acontece também em outros países, na Europa, na Austrália... Os chineses precisam, então, buscar outros mercados. E aí aparece o Brasil, que se destaca muito porque tem todos esses atrativos que eu comentei. Talvez o único país que tenha algo comparável ao Brasil em termos de atratividade seja a Indonésia.
O que o senhor destacaria do estudo fora os pontos sobre os quais já falamos?
A dispersão geográfica. O Sudeste continua na liderança regional, São Paulo continua na liderança estadual, mas a gente teve 20 Estados que receberam investimentos chineses no ano passado. É o maior número que a gente já registrou. É um ponto considerável para mostrar que os investimentos não estão concentrados nas regiões economicamente mais desenvolvidas. Isso é positivo, porque também leva desenvolvimento para outras regiões.