BC corta Selic a 14,50%, prega cautela e diz depender de informações para calibrar juros

29 abr 2026 - 18h43
(atualizado às 20h21)

O Banco Central decidiu nesta quarta-feira cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,50% ‌ao ano, e argumentou que precisará incorporar novas informações para definir a política monetária à frente, mencionando possibilidade de ajuste do ritmo e da extensão do ciclo de "calibração" da taxa e ressaltando o distanciamento da inflação corrente da meta.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC defendeu em comunicado serenidade e cautela na condução dos juros para que os passos futuros da calibração da Selic "possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos".

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A autarquia afirmou que julgou apropriado dar sequência à calibração da Selic porque os juros contracionistas evidenciaram transmissão da ⁠política monetária, "criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis" para assegurar o "nível compatível" dos juros com a ‌convergência da inflação à meta.

Em março, a autarquia mencionava nesse trecho apenas a condição para ajuste no "ritmo", não na "extensão", o que foi incluído agora, sinalizando que não só a velocidade, mas também o tamanho total do ciclo pode ser ajustado, na opinião de Leonardo Costa, economista do ASA.

Na avaliação do economista-chefe da ‌XP, Caio Megale, o BC indicou que possivelmente terá que ajustar o "plano de voo" que vinha ‌desenhando internamente e passar a mirar uma taxa Selic mais alta que o previsto inicialmente.

"Ele agora está em dúvida também do tamanho (do ciclo). ⁠Falou 'talvez não dê para cortar tanto quanto eu imaginava no início'", disse, destacando que a projeção de inflação do BC piorou em ritmo mais forte que o esperado pelo mercado.

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Para Megale, a autarquia ainda tem gordura para queimar na Selic, como seus diretores têm afirmado, mas agora apresenta dúvidas sobre a velocidade e o destino final.

Este foi o segundo corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros após o BC iniciar em março o chamado ciclo de "calibragem" da Selic, que agora vai ao nível mais baixo desde maio do ano passado, quando estava em 14,25%.

Em pesquisa da Reuters, 31 dos 35 economistas entrevistados ‌entre 20 e 24 de abril projetaram que o BC cortaria a Selic em 0,25 ponto neste mês, enquanto dois previram redução de 0,50 ponto e outros ‌dois apostaram na manutenção da taxa.

Em seu balanço de ⁠riscos para a inflação à frente, o ⁠BC manteve no comunicado a equivalência de riscos para cima e para baixo, mas fez ajustes pontuais.

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No risco de alta por uma desancoragem das expectativas de mercado para ⁠a inflação por período prolongado, a autarquia incorporou a chance de horizontes mais longos incorporarem impactos "de ‌restrições de oferta de petróleo e seus derivados" ‌diante da guerra no Irã.

Já no risco de baixa por uma eventual desaceleração da atividade global, o Copom passou a dizer que esse risco poderia se materializar não apenas por um choque de comércio, mas também de petróleo.

INFLAÇÃO

A diretoria do BC vinha demonstrando preocupação com uma piora nas expectativas de inflação para prazos mais longos sob impacto de efeitos da guerra no Irã. As previsões de mercado para o IPCA em 2027 subiram ⁠de 3,80% antes da reunião do Copom em fevereiro para 4,00% nesta semana. Para 2028, a expectativa subiu de 3,50% para 3,61%.

Nesta quarta, a autarquia piorou sua própria projeção de inflação para 2026 em relação a março, de 3,9% para 4,6%, acima do teto da meta, considerando o cenário de referência, que segue projeções de mercado para os juros. Em relação ao quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, a expectativa ficou em 3,5%.

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Para fazer as projeções do cenário de referência, o Copom considerou uma taxa de câmbio que ‌parte de R$5,00, ante patamar de R$5,20 usado na última reunião.

A meta contínua de inflação é de 3% no acumulado em 12 meses, com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

Em relação ao comportamento dos preços correntes, a autarquia deixou de apontar arrefecimento como na reunião ⁠de março e passou a dizer que as medidas de inflação aceleraram e se distanciaram adicionalmente da meta.

Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, o comunicado tem tom mais duro que o esperado, com piora nas projeções do BC para os preços e na visão sobre a inflação corrente, além de mencionar a possibilidade de ajuste do ritmo e da extensão do ciclo de cortes.

"O BC está potencialmente falando em não conseguir cortar tanto a Selic quanto estava imaginando", disse, prevendo novos cortes "com cautela", de 0,25 ponto em reuniões à frente.

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Em relação à atividade econômica no Brasil, o BC disse que indicadores mostraram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mas "mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026".

A decisão do Copom foi tomada de forma unânime pelo colegiado, em reunião realizada com apenas seis dos nove membros do Copom. Além das duas cadeiras vagas desde o início do ano após o término de mandatos de diretores, o encontro não teve a participação do diretor de Administração, Rodrigo Teixeira, que se ausentou por conta do falecimento de um familiar.

Mais cedo nesta quarta, o Federal Reserve manteve as taxas de juros estáveis na faixa atual de 3,50% a 3,75% e, em uma decisão dividida sobre sua comunicação, observou o aumento das preocupações com a inflação.

No documento, o BC afirmou que o cenário externo permanece incerto em função da indefinição a respeito da duração, extensão e desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

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