O Banco Central do Paraguai informou ter ressarcido 1,2 milhão de clientes do Ueno Bank, liquidado após suspeitas de fraude contábil, totalizando cerca de R$ 850 milhões pagos em fases. Contudo, correntistas contestam os dados nas redes e relatam atrasos. A crise provocou forte instabilidade política, culminando na renúncia e impeachment do presidente Santiago Peña, ex-acionista da instituição, além da saída do chefe do BCP, impactando também milhares de imigrantes brasileiros que vivem no país.
O Banco Central do Paraguai (BCP) informou neste sábado, 7, que 1,2 milhão de contas de clientes do Ueno Bank já foram ressarcidas. O valor pago até o momento foi de aproximadamente 995 bilhões de guaranis, o equivalente a mais de R$ 850 milhões.
Os números foram apresentados em uma coletiva de imprensa liderada por Pedro Acosta, presidente do BCP, e José Maciel, presidente do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), órgão similar ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro, responsável pelos ressarcimentos.
Segundo o BPC, na verdade, 1,87 milhão de contas tinham algum saldo depositado na instituição financeira, não 3 milhões, como estimado antes. Isso significa que, até o momento, pelo menos 60% dos depositantes já teriam sido reembolsados.
O pagamento está sendo feito por fases e com condições. Na primeira etapa, anunciada na quinta-feira, 5, o pagamento começaria a ser feito para aqueles que tinham depósitos de até 10 milhões de guaranis (R$ 8,8 mil), sem dívidas com o banco e conta ativa em outros bancos. Já na segunda etapa, anunciada na sexta-feira, 6, serão atendidos os depositantes que possuam saldos entre 10 milhões e 121,7 milhões de guaranis (R$ 107 mil), também sem dívida pendente com o Ueno e com conta ativo em outra instituição financeira do país.
As informações prestadas pelo Banco Central do Paraguai, entretanto, estão sendo contestadas por paraguaios nas redes sociais. No X, usuários relatam dificuldades de solicitar o reembolso, convocam manifestações e denunciam que pessoas do primeiro grupo anunciado ainda não conseguiram ter os valores devolvidos.
"Não pode ser que se avance para uma segunda fase quando ainda há pessoas da primeira fase que não receberam seu pagamento. Precisamos de respostas concretas e de certeza diante de tanta incerteza", postou uma cliente.
Acusações de fraude
O Ueno Bank foi liquidado na última quarta-feira, 4, em meio a suspeitas de fraude contábil. A medida deixou milhões de paraguaios sem acesso ao próprio dinheiro, já que o banco atendia boa parte da população, e provocou uma onda de protestos.
As informações são de que foram detectados empréstimos feitos entre empresas ligadas ao banco, sem garantias reais, além de um aumento de 4.600% em depósitos feitos pelo governo paraguaio na instituição.
Especialistas apontam que a falta de fiscalização e uma suposta cumplicidade do BCP ao Ueno Bank criaram o ambiente em que as irregularidades se desenvolveram.
O então presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi acionista do grupo controlador do banco até meados de 2025. Carlos Carvallo, que comandava o Banco Central do Paraguai, também tinha sido sócio do Ueno Bank. Ambos renunciaram aos cargos após o escândalo financeiro. Peña teve, ainda, o processo de impeachment aprovado.
A crise no Ueno Bank também afetou brasileiros que se mudaram para o Paraguai. Segundo dados do Itamaraty, a população brasileira no país chega a 263 mil.
Nos últimos meses, pipocaram nas redes relatos de brasileiros imigrando para o Paraguai em busca de impostos mais baixos e identificação política. Peña, um líder de direita, atraía apoiadores de candidatos ligados ao bolsonarismo.