Após UE, Mercosul busca acordos com Emirados Árabes e Canadá: 'está encaminhado', diz Alckmin

A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia (UE) nesta sexta-feira (9) deve dar novo impulso ao bloco econômico do Cone Sul e acelerar as negociações de tratados semelhantes com outras regiões do mundo. Ao comentar o fim do processo que levou um quarto de século para ser concluído, o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, deu a entender que os próximos acordos devem ser fechados com os Emirados Árabes Unidos, com quem os trâmites já estão em fase mais avançada, e com o Canadá.

10 jan 2026 - 13h21
(atualizado às 13h27)

Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

Geraldo Alckmin, fala durante reunião de assinatura do Acordo Mercosul-EFTA, no Palácio do Itamaraty, em outubro de 2025. (Imagem ilustrativa)
Geraldo Alckmin, fala durante reunião de assinatura do Acordo Mercosul-EFTA, no Palácio do Itamaraty, em outubro de 2025. (Imagem ilustrativa)
Foto: © Tânia Rêgo/Agência Brasil / RFI

"Depois da UE, está encaminhado o trabalho com os Emirados Árabes Unidos e o Canadá", disse Alckmin. O vice-presidente destacou também que, no atual momento geopolítico, de conflitos e instabilidade, um acordo como este é fundamental para o mundo, pois mostra que é possível construir o caminho de comércio com regras.

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Na quinta-feira (8), o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, confirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por telefone que iria ao Brasil em abril.

No topo da agenda está a possibilidade de se fechar um acordo com o Mercosul, o que, segundo fontes do governo, pode sair mais rápido do que se imagina, pois o tratado pode se inspirar neste que os europeus acabam de aprovar com o bloco econômico do Cone Sul.

Acordo mais moderno e abrangente

Este é o terceiro acordo formado nesta gestão Lula: o primeiro foi com Cingapura, em 2023; e o segundo, em 2025, com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA, na sigla em inglês), formada por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.

Dentro do governo brasileiro, a visão é a de que a parceria com a UE aumenta a atratividade do Mercosul em tempos de geopolítica especialmente difícil. Não por acaso, o Reino Unido, que, ao deixar a UE após o Brexit, perdeu os benefícios do que ajudou a negociar com os países do Cone Sul, quer um tratado econômico para chamar de seu. Assim como o Japão.

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Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que também comemorou o resultado, este é o acordo mais moderno e abrangente já negociado pelos países do Mercosul. Segundo a entidade, ele deve promover impactos mais significativos sobre os investimentos bilaterais, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e fortalecer disciplinas relacionadas à facilitação de comércio e investimentos.

"O acordo é um marco na estratégia de inserção internacional do Brasil com impacto no redesenho dos fluxos de comércio e investimentos mundiais", avalia o presidente da entidade, Ricardo Alban.

Para Geraldo Alckmin, se passar pelo Congresso Nacional neste primeiro semestre, o tratado histórico pode entrar em vigor ainda este ano, criando o maior mercado de livre comércio do planeta, com mais de 700 milhões de consumidores.

Isso porque, conforme as regras acertadas entre os dois lados, basta que um país ratifique o acordo para que ele passe a valer. Ou seja, o Brasil não vai precisar esperar que os outros parceiros do Mercosul o façam - bastando apenas que seja ratificado pelo Congresso Nacional e pelo Parlamento Europeu.

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Intensificação de relações com o Leste Europeu

Além de ampliar o acesso ao mercado da Europa, a CNI destaca o potencial de intensificação das relações comerciais e produtivas com países do Leste Europeu, como República Tcheca, Polônia e Romênia, que possuem fluxos comerciais modestos com o Brasil. Para a entidade, essas transações podem ser ampliados de forma consistente, com destaque para indústria, tecnologia e consumo interno.

O acordo também prevê o reconhecimento recíproco de indicações geográficas, protegendo produtos regionais brasileiros com selo de origem e ampliando oportunidades para marcas nacionais no mercado europeu, como café e queijos.

"Houve um empenho do presidente Lula, inclusive na condição de presidente do Mercosul, em defesa do multilateralismo. O Brasil mudou sua postura em relação à sustentabilidade, com compromisso claro de combate ao desmatamento, preservação das florestas e redução das emissões de carbono. Esse compromisso com a sustentabilidade foi fundamental. É um conjunto de fatores que permitiu avançar", disse Alckmin.

A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. É também um dos primeiros destinos das exportações de 22 dos 27 estados brasileiros, de acordo com dados oficiais. Em 2024, a corrente de comércio bilateral alcançou US$ 100,1 bilhões, recorde histórico, e crescimento de 4,8% em relação ao ano anterior.

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No mesmo ano, cerca de 30% dos exportadores brasileiros (8,7 mil empresas) venderam para o mercado europeu. Essas empresas, conforme enumerou Alckmin na coletiva, empregam mais de três milhões de pessoas. É o segundo maior destino da indústria de transformação do Brasil, que representou US$ 23,6 bilhões em exportações.

Assinatura do tratado

Existe previsão de que a assinatura do acordo com a UE aconteça em Assunção, no Paraguai, no dia 17 de janeiro, o que, em princípio, seria feito em nível ministerial. Não há expectativa de participação do presidente Lula na cerimônia.

O sinal verde da Europa foi dado a despeito das negativas da França, Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda. A Bélgica se absteve. No entanto, todos esses países serão beneficiados pelo tratado. Para Alckmin, é normal que não haja unanimidade. Foi assim, segundo ele, até mesmo na construção do Mercosul.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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