RIBEIRÃO PRETO E SÃO PAULO - O secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Geraldo Melo Filho, afirmou nesta segunda-feira, 27, que o produtor rural brasileiro enfrenta juros que "beiram a extorsão" e que o País caminha para uma "reforma agrária" imposta pelo endividamento, com produtores perdendo terras para bancos e credores. Em discurso na 31ª edição da Agrishow, Melo Filho criticou a política agrícola do governo federal.
"O setor trabalha com margem mínima, quando não negativa, e os maus resultados são turbinas por juros que beiram a extorsão do nosso produtor. (...) O nosso campo vai caminhando no rumo de uma verdadeira reforma agrária, só que ela vai ser imposta pelo endividamento, com os produtores endividados caminhando para perder terra para banco e para credor", afirmou o secretário.
Melo Filho atacou o anúncio de crédito feito pelo governo federal na véspera, durante a abertura oficial da feira. "Ontem (domingo, 26), o governo anunciou uma espécie de crédito fantasma aqui, foi anunciado como se existisse, quase ninguém acredita que existe e mesmo os que acreditam não conseguem ver ou tocar esse dinheiro. Mais uma decepção dos produtores com mais uma promessa sem juros definidos, sem prazo para começar a valer, sem direcionamento nenhum que esteja focado nas dores de quem está na ponta precisando produzir", disse.
O secretário afirmou que o Plano Safra "perdeu a sua relevância e o produtor foi entregue à própria sorte". Segundo ele, o recurso do seguro rural, já insuficiente, "some do orçamento" no primeiro contingenciamento, e o crédito, quando vem, cobra mais de 20% de taxa de juros.
"A gente vive um momento muito particular no agro brasileiro. Por um lado, a gente tem recorde de produção, as colheitas fartas, grande volume de exportação, geração de emprego e a certeza de que esse setor aqui continua sustentando a economia desse país. Mas, diferente de alguns anos atrás, quando nós tínhamos uma liderança nacional que se importava de fato com o nosso setor, com a nossa gente, o que a gente tem agora é uma realidade cheia de promessa vazia e que na prática essa falta de ação inviabiliza uma grande parte das atividades com juros que são impagáveis para quem precisa buscar crédito para produzir e sustentar a família", afirmou Melo Filho.
O secretário disse que o campo continua produzindo "porque o que sustenta o agro brasileiro é a competência do produtor rural, mesmo com o sistema que pesa sobre ele". "Quanto mais aperta, o produtor vai lá, planta de novo e bate recorde de safra, mas isso aí tem limite", afirmou.
Melo Filho destacou recordes de inadimplência e de recuperação judicial no campo. "Além dos recordes de safra, nós temos agora os novos recordes, que é o recorde de inadimplência e de recuperação judicial no campo", disse.
Segundo o secretário, o governo federal "não quer reformar o campo, quer confiscar o esforço de quem produz". "Estão trocando reforma agrária ideológica pela expulsão financeira do produtor da própria terra. O produtor passou a conviver com o Estado que na prática virou sócio oculto dele, só que é um sócio que não divide o risco, mas exige resultado, que aparece no sucesso e desaparece na crise", afirmou.