RIBEIRÃO PRETO (SP) - O agricultor André Nogueira, pequeno produtor de café em Franca (SP), com 20 hectares, percorria, na terça-feira, 28, os corredores da Agrishow, feira internacional de tecnologia agrícola em Ribeirão Preto (SP), em busca de novidades que possibilitem aprimorar a gestão da lavoura.
Hás oito anos, ele comprou uma adubadora da Marispan, com controle manual das operações. No estande da mesma empresa, soube do lançamento de um novo modelo, que permite controlar todos os movimentos do equipamento pela tela do celular. O telefone se transforma em uma espécie de controle remoto, pelo qual se define o tipo de adubo, a quantidade a ser aplicada na lavoura e percurso a ser cumprido.
Com simples toques no aparelho, é possível calibrar a adubadora, simular o trabalho, dar o pontapé inicial para a execução e acompanhar um histórico das últimas aplicações. Nogueira considerou investir no novo modelo pela facilidade proporcionada pela tecnologia e, também, porque não é necessário ter conexão com a internet o tempo todo. Apenas na partida da operação.
Depois, o celular pode ser colocado no bolso, desligado ou entrar em área sem rede que o equipamento, que é acoplado a um trator, continua trabalhando. O piloto do trator se preocupa apenas em conduzir o veículo.
"Com a máquina que tenho, mesmo com operação ainda manual, já consegui otimizar os cuidados com o café. Imagino que, com todas essas adaptações, eu teria um grande avanço na modernização da lavoura", conta o produtor.
Um sério gargalo no campo
Tecnologias que permitam contornar as dificuldades provocadas pela falta de conectividade ou instabilidades de sinal, encontradas em diversos estandes na Agrishow, têm contribuído para reduzir um sério gargalo no campo. Apesar de avançar de forma significativa, a conectividade ainda é um desafio.
De acordo com o Indicador de Conectividade Rural (ICR), o levantamento mais recente feito pela ConectarAgro em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a cobertura de redes móveis em áreas rurais saltou de 18,7% para 33,9% entre 2024 e 2025. O crescimento é puxado, principalmente, pelas regiões Sul e Sudeste, onde há maior concentração de investimentos e melhor estrutura logística.
Apesar dessa guinada, dois terços das propriedades ainda não têm acesso, o que limita a adoção de tecnologias como agricultura de precisão, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial.
De acordo com a presidente do ConectarAgro, Paola Campiello, a ampliação da conectividade, o maior objetivo da associação, não é apenas uma questão tecnológica, mas um fator determinante para aumentar a produtividade, reduzir custos e promover a inclusão digital no campo, de forma a consolidar o avanço da Agricultura 4.0 no Brasil.
Nesse sentido, o técnico da Marispan Matheus Tardivo afirma que o controle digital da adubadora, projeto que vem sendo desenvolvido e aprimorado há três anos pela empresa, possibilita, inclusive, programar várias máquinas para trabalhar ao mesmo tempo, em diferentes pontos da propriedade, otimizando tempo. "O objetivo é facilitar, cada vez mais, a vida do agricultor, para que ele possa atuar em outras questões da propriedade enquanto o equipamento trabalha."
Controle de diesel
No processo de redução de custos, a Excel apresenta, na Agrishow, uma solução para controle do uso de diesel na frota agrícola. O sistema permite fazer todo o rastreio do combustível, desde o momento em que ele chega da distribuidora à propriedade, passando pela distribuição para os veículos agrícolas — inclusive os que estão no campo e não podem se deslocar aos pontos de abastecimento — até o consumo.
O diretor de Receita da empresa, Carlos Eduardo da Silva, explica que a adoção da tecnologia não exige que a propriedade tenha conectividade. A Excel leva internet até o produtor, por meio de uma parceria com a Starlink, serviço da SpaceX que busca fornecer conexão de alta velocidade em qualquer lugar do mundo, especialmente em áreas onde as redes tradicionais, por fibra ou cabo, não chegam bem.
Diferentemente dos satélites tradicionais, que ficam muito longe da Terra, a Starlink utiliza milhares de satélites em órbita baixa, o que reduz bastante o tempo de resposta, para que chamadas de vídeo, streaming e até jogos online tenham desempenho próximo ao de banda larga convencional.
Já o sistema da Excel, denominado GTFrota, é composto por um conjunto de sensores, consoles e um aplicativo. Inicialmente, o conjunto era importado da Alemanha, mas a produção, aos poucos, foi sendo nacionalizada. "É um sistema que ajuda a prever, inclusive, problemas no processo, para que faça uma manutenção preventiva e não corretiva, e, com isso, o agricultor possa gerir a frota com mais eficiência. Sabemos que, hoje, o diesel virou moeda, ainda mais com as pressões sobre o petróleo no mercado internacional", afirma Silva.