Acordo entre UE e Mercosul aumenta de 8% para 36% acesso brasileiro ao comércio mundial, diz CNI

Fiesp e Fiemg veem acordo firmado neste sábado, 17, como um avanço nas relações comerciais

17 jan 2026 - 17h43

O acordo entre Mercosul e União Europeia assinado neste sábado, 17, aumenta de 8% para 36% o acesso brasileiro ao comércio mundial, aponta levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na avaliação da entidade, trata-se de uma virada estratégica para a indústria do País.

Como mostrou o Estadão, a assinatura cria a maior área de livre-comércio do mundo, com 720 milhões de habitantes e PIB de € 21,7 trilhões (R$ 136 trilhões). A assinatura se deu em Assunção, no Paraguai, país que está na presidência temporária do Mercosul.

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A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) avaliou o acordo como um "marco para a integração externa brasileira". A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também elogiou a parceria, mas afirmou ser necessário "avaliar com atenção os impactos sobre a competitividade da indústria".

A análise da CNI mostra que os acordos preferenciais e de livre-comércio do Brasil cobrem apenas 8% das importações mundiais de bens. Porém, com a entrada em vigor do acordo, esse percentual salta para 36%, considerando que a União Europeia respondeu por 28% do comércio global em 2024.

O levantamento indica também que 54,3% dos produtos negociados - mais de cinco mil itens - terão imposto zerado na União Europeia assim que o acordo Mercosul-UE entrar em vigor. Já do lado do Mercosul, o Brasil terá prazos mais longos, entre 10 e 15 anos, para reduzir tarifas de 44,1% dos produtos (4,4 mil itens), assegurando uma transição gradual e previsível, na visão da CNI.

Ainda de acordo com a análise, o Brasil terá, em média, oito anos adicionais para se adaptar à redução tarifária, se comparado ao prazo do bloco europeu e considerando o comércio bilateral e o cronograma previsto no Acordo Mercosul-UE.

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'Decisão mais importante para indústria brasileira em décadas'

Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a formalização da parceria entre Mercosul e UE ocorre em um momento estratégico para o Brasil. "O acordo é a decisão comercial mais importante para a indústria brasileira em décadas. Ele garante acesso imediato ao mercado europeu, assegura tempo de adaptação para a indústria nacional e reposiciona o Brasil em um contexto de diversificação de parceiros, criando também um incentivo para avançar na agenda de competitividade estrutural", afirma.

Com base nos dados de 2024, 82,7% das exportações do Brasil para a UE passarão a ingressar no bloco sem tarifa de importação desde o início da vigência. Por outro lado, o Brasil se comprometeu a zerar imediatamente tarifas de 15,1% das importações com origem na União Europeia. O estudo mostra que 0,9% das exportações brasileiras ao bloco europeu terão que aguardar 10 anos para alcançar tarifa zero, enquanto 56,7% das importações brasileiras originárias do bloco europeu só terão suas tarifas eliminadas após 10 ou 15 anos.

Em 2024, segundo a CNI, a cada R$ 1 bilhão exportado do Brasil à UE foram criados 21,8 mil empregos e movimentados R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção.

A instituição avalia que, em relação ao setor agroindustrial, o acordo também traz resultados positivos. No caso da carne bovina, são mais do que o dobro das concedidas pela União Europeia a parceiros como o Canadá e mais de quatro vezes superiores às destinadas ao México. As cotas de arroz superam o volume atualmente exportado pelo Brasil ao bloco, ampliando o potencial de acesso ao mercado europeu, destaca a CNI.

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Acordo cria oportunidades de cooperação tecnológica, diz entidade

A entidade diz ainda que a assinatura do tratado cria um ambiente favorável para ampliar projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento voltados à sustentabilidade e à inovação tecnológica. "As novas exigências regulatórias e de mercado impulsionam oportunidades em tecnologias de descarbonização industrial - como captura, uso e armazenamento de carbono, uso e mineralização de CO², eletrificação com hidrogênio de baixa emissão, motores híbrido-flex e reciclagem de baterias e minerais críticos -, e no desenvolvimento de bioinsumos para uma agricultura mais resiliente", diz a nota.

A CNI atuou em prol do acordo ao longo da negociação Durante o período de negociação do acordo, a CNI atuou na construção de um posicionamento convergente do setor produtivo, especialmente por meio da Coalizão Empresarial Brasileira (CEB).

Em 2024, a União Europeia foi destino de US$ 48,2 bilhões das exportações brasileiras, o equivalente a 14,3% do total exportado pelo País, e permanece como o segundo principal mercado externo do Brasil. No mesmo período, o bloco respondeu por US$ 47,2 bilhões das importações brasileiras, 17,9% do total

Ainda em 2024, 98,4% das importações brasileiras provenientes do bloco corresponderam a produtos da indústria de transformação, enquanto 46,3% das exportações brasileiras à UE foram de bens industriais. Considerando os insumos industriais, a participação no comércio em 2024 foi de 56,6% das importações originárias do bloco e de 34,2% das exportações do Brasil para a União Europeia.

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Fiesp avalia acordo como 'marco para a integração externa'

A Fiesp afirmou, por meio de nota, que o acordo comercial é um marco para a integração externa brasileira. "Além de liberalizar o comércio de bens, facilita o comércio de serviços e dá mais segurança jurídica aos investimentos bilaterais, cujo estoque originário da UE no Brasil atingiu US$ 290 bilhões em 2024, consolidando-se como o maior investidor no País", afirma a federação.

A instituição cita que a UE é o segundo maior parceiro comercial do Brasil e que as trocas bilaterais alcançaram US$ 100 bilhões em 2025. No entanto, para que esse legado se transforme em ganhos reais, na visão da Fiesp, o Brasil precisa interpretar o momento como uma nova fase de pragmatismo comercial.

"O processo de 25 anos com a União Europeia não pode ser a regra. O evento de hoje deve servir de aprendizado para que os entendimentos bilaterais futuros do Brasil acompanhem a velocidade das transformações globais e, também, institucionalize uma diplomacia empresarial ativa e constante, colocando o setor produtivo no centro das decisões de política externa", diz o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Segundo a instituição, a análise dos cronogramas de redução tarifária revela oportunidades concretas. Setores como café (US$ 7,3 bilhões) e ferro e aço (US$ 1,7 bilhão) terão tarifas zeradas em até sete anos. Calçados e têxteis, outro exemplo, serão desgravados em até dez anos. "O acesso a 450 milhões de consumidores europeus que o acordo tem a oferecer é uma oportunidade histórica, mas não está isenta de riscos", afirma a entidade.

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A Fiesp afirma que vai atuar pela rápida ratificação do acordo no Congresso Nacional, mas alerta que é necessário o País fazer o "dever de casa" focado na competitividade. "Sem a superação de entraves do Custo Brasil e uma postura ativa do governo contra eventuais barreiras de caráter não tarifário pelo parceiro comercial, as vantagens teóricas do tratado correm o risco de não se traduzirem em benefícios para o nosso País", diz a nota.

A Fiemg também avaliou de forma positiva a assinatura do acordo de parceria entre a União Europeia e o Mercosul. A entidade reconhece o avanço representado pela conclusão do acordo, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de uma avaliação cuidadosa de seus impactos sobre a indústria brasileira e mineira.

A instituição lista que entre 2021 e 2025, as exportações brasileiras para o bloco somaram aproximadamente US$ 231,81 bilhões, enquanto as importações alcançaram cerca de US$ 225,50 bilhões, o que resultou em saldo positivo de US$ 6,31 bilhões. "A pauta exportadora é composta principalmente por combustíveis e óleos minerais (22%), café (10%), minérios (10%), farelo de soja (9%) e soja (7%). Já as importações concentram-se em combustíveis e óleos minerais refinados (31%), máquinas e equipamentos (22%), além de produtos plásticos, farmacêuticos e químicos orgânicos", diz a nota da entidade.

Para o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, a assinatura do acordo representa um avanço nas relações comerciais, mas exige cautela na análise de seus efeitos. "A assinatura amplia o acesso a um mercado relevante para o Brasil e para Minas Gerais. No entanto, é fundamental avaliar com atenção os impactos sobre a competitividade da indústria, especialmente nos setores mais sensíveis, considerando exigências regulatórias, sanitárias e ambientais, bem como os prazos de adaptação", afirma.

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A Fiemg afirma que os resultados do acordo dependerão de sua implementação e da adoção de medidas que assegurem condições adequadas de concorrência. "A entidade reforça a importância de instrumentos de apoio à competitividade e de mecanismos de transição, para que a abertura comercial contribua para o fortalecimento da indústria, a manutenção de empregos e a ampliação da capacidade produtiva e exportadora do país e de Minas Gerais."

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