Um mega acordo comercial firmado entre a União Europeia e as maiores economias da América do Sul após um quarto de século de negociações pode sinalizar os limites das táticas de pressão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na região, disseram autoridades e analistas.
A aliança comercial entre a UE e o Mercosul, composto por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, impulsionará substancialmente os laços comerciais em uma região que viu o comércio com a China disparar nas últimas décadas, enquanto a influência dos EUA despencava.
Porém, mesmo que o governo Trump busque uma lealdade regional mais ampla, é improvável que os governos sul-americanos, do Brasil ao Peru, abram mão de fortalecer os laços com a China ou com a Europa em um momento em que eles ofuscaram os EUA no comércio na maior parte da região.
Vários analistas afirmaram que os esforços de Trump para mostrar o poder dos EUA na região podem ter ajudado a ultrapassar a linha de chegada de um acordo comercial que sofreu vários atrasos ao longo de duas décadas de negociações.
"Se o crédito por esse acordo for para alguém, será para o contexto internacional", disse Ignacio Bartesaghi, consultor de política externa que trabalhou com vários governos uruguaios ao longo dos anos. "Isso se deve à guerra tarifária de Trump, ao conflito na Ucrânia e ao que aconteceu na Venezuela recentemente."
O ataque comandado por Trump para capturar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que preparou o terreno para um governo sucessor mais favorável, foi a mais recente de várias ações do presidente dos EUA para influenciar os governos da região.
No ano passado, Trump ameaçou cortar o apoio financeiro dos EUA a Honduras se um candidato conservador não ganhasse a eleição presidencial e condicionou bilhões de dólares em empréstimos à Argentina à vitória dos conservadores nas eleições legislativas de meio de mandato do país.
Ele também usou tarifas comerciais elevadas sobre produtos brasileiros para tentar forçar o país a interromper o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, um fiel aliado de Trump, sem sucesso.
Os eleitores apoiaram a escolha de Trump nas eleições de Honduras e da Argentina. Mas Bolsonaro foi condenado mais tarde, e o governo dos EUA retirou a maior parte das novas tarifas contra produtos brasileiros logo depois.
"O retorno da preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, liderado pelo presidente Trump, é indiscutível", disse Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, em um comunicado. "Todas as ações de política externa do presidente restauraram a força norte-americana após quatro anos de fraqueza sob o comando de Joe Biden."
MAIS ACORDOS ESTÃO POR VIR
Trump tem repetidamente criticado o multilateralismo e se recusado a obedecer às regras internacionais, retirando os EUA de vários pactos globais e até mesmo dizendo ao The New York Times na semana passada que ele não precisava da "lei internacional".
Poucos países da América Latina parecem concordar.
Embora o presidente argentino Javier Milei, um dos aliados mais próximos de Trump na região, tenha elogiado a captura de Maduro apoiada pelos EUA, seu ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, também comemorou o acordo do Mercosul com a UE como uma vitória de "regras claras e liberdade".
A Venezuela era um membro pleno do Mercosul até sua suspensão em 2016 por não cumprir compromissos comerciais e de direitos humanos.
Uma autoridade brasileira próxima à Presidência, que pediu para não ser identificada para discutir deliberações privadas, chamou o acordo com a UE de um "sopro de ar fresco" na "semana mais vergonhosa e negativamente crítica para o multilateralismo em décadas".
O acordo também pode levar o Mercosul a concluir outros tratados comerciais com o Canadá e os Emirados Árabes Unidos, disse Welber Barral, ex-secretário de comércio brasileiro.
"Os países estão buscando criar regras regionais que possam ser obedecidas, para que não dependam da Organização Mundial do Comércio, que está sendo desacreditada por Trump", disse Barral.
O acordo entre a UE e o Mercosul é apenas mais um exemplo dos vários que estão sendo negociados e assinados por países que foram atingidos por tarifas elevadas pelo governo Trump, como o acordo comercial da Indonésia com o bloco europeu e uma promessa entre o Japão, a Coreia do Sul e a China de aumentar o comércio regional.
O acordo entre a Europa e a América do Sul mostra que muitos países querem reforçar as normas globais, disse Margaret Myers, diretora do Programa Ásia e América Latina do Inter-American Dialogue.
"Em um momento em que os EUA estão rompendo com o status quo, partes da América Latina parecem estar defendendo-o", disse ela. "É um sinal de alerta para os EUA."