"Sempre fui tratado bem aqui, me encanta a Argentina, sempre fui muito feliz, muito bem-recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado desses não influencia em nada do que penso deste país tão lindo."
O técnico do Flamengo, Filipe Luís, tem sido criticado por comentaristas esportivos na TV e na internet por sua postura excessivamente diplomática ao comentar a acusação de racismo feita por Vini Jr., do Real Madrid, contra o argentino Gianluca Prestianni, do Benfica.
Na avaliação dos jornalistas, Filipe Luís é mais um homem branco sem letramento racial que minimiza o sofrimento permanente de negros expostos ao racismo sistêmico, dentro e fora dos estádios.
A postura controversa do técnico se assemelha à de analistas de futebol portugueses. Circulam nas redes sociais trechos de manifestações em diferentes canais.
Na CNN Portugal, um comentarista disse que as denúncias de xingamento racista em campo são “paranoia” e que “só acontecem” com Vini Jr., ignorando as ocorrências com outros atletas. “Começa a perder a credibilidade que ele possa ter”, disse.
Nenhum jornalista esportivo tem a obrigação de defender o jogador brasileiro, mas deveria, por questão ética, criticar o racismo nos campos e cobrar mais responsabilidade dos times, federações e ligas.
Nota-se a perigosa tendência de classificar as queixas das vítimas de racismo no futebol como “mimimi”. Não é por acontecer com frequência cada vez maior que deixam de ter gravidade, pelo contrário. É justamente a falta de punição exemplar que estimula a noção de impunidade dos racistas.
Quando um apresentador ou comentarista coloca em dúvida, diante das câmeras, a palavra do ofendido, desloca o foco do agressor para a vítima e reforça uma engrenagem histórica de silenciamento.
Ao relativizar o relato de Vini Jr., o debate deixa de ser sobre o racismo para se transformar numa suposta análise de “temperamento”, “postura” ou “exagero”. É uma inversão perversa: exige-se autocontrole de quem sofre a violência, mas tolera-se a reincidência de quem a pratica.
A crítica ao racismo não é um gesto de militância partidária. Jornalistas esportivos não precisam ser advogados dos jogadores. Mas espera-se que usem seu poder de influência para deixar claro a quem os assiste que discriminação racial não é mera “polêmica” ou “interpretação”, e sim um crime.