Mais um ator brasileiro começa a se destacar na televisão portuguesa.
Pablo Oliveira estará em ‘Máximo Risco’, série de comédia do canal SIC, parceiro da Globo. A estreia está prevista para o segundo semestre.
Em entrevista à coluna, o artista relata sua trajetória, a rotina de testes e o projeto de uma carreira que rompa fronteiras.
Como entrou para o elenco do programa?
A minha escalação aconteceu de uma forma bem curiosa. Eu estava com uma viagem marcada para o Brasil quando a produtora me pediu para enviar um teste. Era um desafio interessante, porque eu precisava interpretar dois personagens. Acabei entrando num modo bem criativo ali. Gravei cada personagem de um jeito diferente, inclusive com mudanças físicas, e depois editei o vídeo como se os dois estivessem dialogando entre si. Fui meio ‘blogueiro’ (risos), mas funcionou muito bem.
Fazer humor é fácil para você?
A comédia sempre fez parte da minha trajetória. Venho do teatro infantil, que exige muito ‘timing’ e entrega, e tive a oportunidade de trabalhar no extinto ‘Zorra Total’, da Globo, além de outras experiências na TV e no palco. Cresci assistindo a referências como Chico Anysio, Fabiana Karla e Rodrigo Sant’Anna, então, essa linguagem sempre esteve presente na minha formação. Isso me deu certa naturalidade com a comédia, o que contribuiu bastante para o teste.
Vai falar com qual sotaque?
O personagem mantém o meu sotaque brasileiro, e isso faz parte da construção dele. Existe uma musicalidade na fala, um leve ‘canto’, que até ajuda no humor de sua personalidade. Apesar de eu ser carioca, trouxe sutilmente uma cadência mais marcada, que lembra um pouco o sotaque nordestino, algo bem dosado, que criou um diferencial em cena. E não sou o único brasileiro no elenco. Se não me engano, somos três. Inclusive, foi uma surpresa porque encontrei um amigo meu no set. A gente não sabia que o outro estava fazendo teste. Aquela coisa de ator de não comentar antes de acontecer. Quando nos encontramos, foi uma alegria enorme e ainda estamos no mesmo núcleo, contracenando juntos.
Como aconteceu sua imigração à Europa?
Estou radicado em Portugal desde 2019, mas minha ligação com o país vem de muito antes. Eu sou o único brasileiro da minha família paterna. Meu pai é português, assim como meus avós. Portugal faz parte da minha história. Sempre tive o desejo de viver aqui. Com o tempo, isso virou também uma decisão profissional, principalmente diante de questões como a violência no Rio de Janeiro e a busca por novas oportunidades. Senti a necessidade de me reposicionar, estudar mais e buscar outros caminhos. Existe também uma percepção pessoal de que, muitas vezes, o reconhecimento no Brasil vem depois que você conquista espaço fora, e isso me motivou ainda mais.
Há muita diferença entre fazer TV no Brasil e em Portugal?
Participei de trabalhos tanto na Globo quanto na Record, e existem diferenças, sim. Entre Brasil e Portugal, a principal delas está na dimensão do mercado. O Brasil tem uma indústria muito maior, com mais produções e oportunidades. Portugal tem um mercado mais compacto, com produções menores, mas aqui se testa muito mais. Eu, por exemplo, já fiz mais testes em Portugal do que fazia no Brasil.
Já presenciou ou viveu algum caso de xenofobia no audiovisual português?
Acredito que exista, sim, uma certa resistência, principalmente no mercado publicitário. Não gosto de usar a palavra preconceito, mas ainda há uma preferência pelo sotaque português e não o “brasileiro”, como eles dizem. Ao mesmo tempo, o Brasil é muito consumido aqui, seja em música, internet ou televisão, então, isso também gera uma reflexão sobre o espaço do ator brasileiro. Curiosamente, vemos o movimento inverso, com atores portugueses como Ricardo Pereira, Pedro Carvalho e Bruno Cabrerizo, que atuam com sotaque brasileiro com naturalidade e são bem aceitos. No meu caso, nunca encarei isso como um bloqueio, mas como um desafio. Tenho trabalhado também o sotaque português para ampliar minhas possibilidades e mostrar versatilidade como ator.
Antes, as novelas brasileiras dominavam a TV portuguesa. Hoje, a teledramaturgia local está cada vez mais forte. É telespectador?
Gosto, sim, das novelas portuguesas. Elas têm uma identidade muito própria. Quando comparamos com o Brasil, é como colocar produções da Globo e da Record lado a lado, existe diferença de linguagem, ritmo e identidade visual. As novelas portuguesas são mais focadas na cultura local, enquanto as brasileiras têm uma narrativa mais expansiva e dramática. As brasileiras também têm um diferencial muito forte de imagem e ambientação, principalmente cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, que ajudam muito na força visual das histórias. No fim, não vejo como competição. São estilos diferentes. Eu gosto de ambos, mas tenho um carinho especial pelas brasileiras, que são uma referência mundial.
Trabalhar na indústria norte-americana é um sonho?
Penso, sim, em expandir minha carreira internacionalmente. Estar em Portugal me coloca numa posição estratégica na Europa. Sobre os Estados Unidos, eu tenho uma visão realista. Sempre ouvi que é um mercado extremamente competitivo e fechado. Mas também é inspirador ver brasileiros como Wagner Moura, Alice Braga, Rodrigo Santoro e Gabriel Leone conseguindo espaço por lá. Hoje, meu foco está mais na Europa, especialmente na Espanha, que possui uma produção muito ativa e cheia de oportunidades. Mais do que atuar em um país específico, meu objetivo é crescer como artista e construir uma carreira internacional sólida, com consistência e verdade.