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Quando a morte não encerra a história: Ana Paula Maia entrelaça memória, solidão e finitude em livro

Premiada escritora brasileira, autora de obras como 'Carvão Animal' e 'Enterre Seus Ossos', ela lança, agora, 'O Tenebroso Brilho do Sol', um livro duro, silencioso e brutal

2 nov 2026 - 05h42
Resumo
Em "O Tenebroso Brilho do Sol", Ana Paula Maia narra a rotina de Eliote, único sobrevivente de sua família após o rompimento de uma represa no Rio Grande do Sul. Preso a um vale devastado, ele monitora as águas e escava a lama em busca dos corpos dos filhos, convivendo com manequins para aplacar a solidão extrema. A obra combina crueza realista com elementos de folk horror e sobrenatural, construindo um drama potente sobre a finitude, o peso da memória e a dor de continuar vivo após a tragédia.

Em O Tenebroso Brilho do Sol, Ana Paula Maia mergulha o leitor em um mundo devastado, onde a destruição não é apenas o cenário, mas também uma condição humana. A novela começa com o pé na garganta do leitor. Não há preparação, promessa de alívio ou possibilidade imediata de retorno. Tudo já aconteceu. Já foi destruído. O que resta é a lama, a memória, os mortos e um homem tentando encontrar, entre os escombros, aquilo que ainda pode lhe devolver algum sentido à existência.

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Eliote, o personagem central, vive em um pequeno município do interior do Rio Grande do Sul, em um vale devastado pelo rompimento da represa Jinkins. A tragédia levou tudo: a mãe, a esposa e os filhos. Restou apenas ele, brutalizado pelas circunstâncias e preso àquele lugar. Contratado pela prefeitura, passa a monitorar a água represada por meio de drones e câmeras de vigilância, numa tentativa de evitar que outra tragédia aconteça. Foi o único que quis fazer esse serviço. Mas seu verdadeiro trabalho é outro. Todos os dias, Eliote escava a lama em busca dos corpos dos filhos. Os únicos de sua família que não foram encontrados.

É uma existência em suspensão. Na primeira metade da narrativa, ele parece caminhar dentro de um torpor, cumprindo tarefas, observando o vale e convivendo com uma solidão que se torna quase uma personagem. Não há grandes expectativas para o futuro. O que o mantém ali é a possibilidade de encontrar os filhos. "Do vale não há nada que se possa salvar, mas para ele ainda resta recuperar aqueles que são carne de sua carne." A frase sintetiza não apenas a obstinação do protagonista, mas a própria natureza de sua permanência. Quando tudo foi levado, procurar os mortos passou a ser uma forma de continuar vivo.

A escritora carioca Ana Paula Maia está lançando 'O Tenebroso Brilho do Sol'
A escritora carioca Ana Paula Maia está lançando 'O Tenebroso Brilho do Sol'
Foto: Pablo Contreras/Divulgação / Estadão

Ana Paula Maia constrói esse personagem dentro de uma linhagem de figuras brutalizadas que atravessam sua obra. Eliote é seco, soturno e silencioso. Não é exatamente um homem em busca de recomeço; é alguém que permanece porque ainda existe uma tarefa a cumprir. Sua dor não é transformada em sentimentalismo. Pelo contrário, a autora trabalha com uma escrita crua, econômica e de frases muito bem construídas, fazendo com que a devastação se revele aos poucos, de fora para dentro.

A solidão, aliás, é um dos elementos mais fortes da novela. Para suportá-la, Eliote transforma manequins de lojas em companheiros "reais". Eles representam pessoas, simulam uma presença humana em um lugar onde quase ninguém mais está. É uma solução estranha e, ao mesmo tempo, profundamente melancólica. Os manequins, obviamente, não falam, não respondem, não oferecem consolo. Ainda assim, ocupam o espaço deixado pelos vivos.

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Em determinado momento, a própria percepção de Eliote começa a se confundir com aquilo que o cerca. "É como se houvesse mais alguém ali com ele, trafegando pelos mesmos espaços, dividindo a casa, o portão e o vale destruído." A solidão passa a produzir uma presença. E, nesse território em que vivos e mortos parecem cada vez menos separados, a pergunta sobre o que é real ganha importância.

Entre o real e o sobrenatural

É justamente aí que Ana Paula Maia amplia o universo da narrativa e introduz o horror. O sobrenatural surge sem abandonar a crueza inicial, incorporado ao cotidiano daquele vale. Bolas de luz saem das águas, objetos voadores luminosos aparecem constantemente e figuras estranhas surgem durante a noite, interrompendo o pouco sossego que ainda resta ao protagonista. Há algo naquele lugar que parece resistir à explicação.

A autora aproxima a novela do folk horror ao recuperar antigas superstições e rituais religiosos mantidos pelos habitantes da região. Entre eles está a chamada "coberta da alma", uma tradição fúnebre em que, uma vez por ano, durante sete dias, alguém assume as características de uma pessoa morta, reproduzindo seus modos de falar e de se comportar. O morto, de certa maneira, retorna ao mundo dos vivos através daquele que o representa.

O ritual estabelece uma das ideias mais interessantes do livro: a dualidade entre aqueles que permanecem e aqueles que partiram. A representação dos mortos deixa de ser apenas uma tradição estranha e passa a dialogar diretamente com a condição de Eliote. Ele está vivo, mas sua existência parece ocupada pelos mortos. A família desapareceu, o vilarejo foi destruído e, mesmo assim, tudo continua presente através da memória.

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O vale, nesse sentido, adquire uma dimensão quase sobrenatural. É um lugar incrivelmente bonito, mas desgraçadamente sombrio. Para seus habitantes, representa perpetuação. Um espaço que continua enterrando os mortos, consumindo quem chega de fora e preservando aquilo que deveria ter desaparecido. A natureza não aparece como cenário neutro, mas como uma força que participa da narrativa. Círculos luminosos no meio da floresta, vultos, vozes e barulhos fazem parte do texto.

O sol também ganha uma dimensão particular. Tradicionalmente associado à vida, à alegria e à luz, ele surge aqui carregado de ameaça. O próprio título estabelece esse paradoxo: o brilho do sol pode ser tenebroso. Há uma espécie de inversão simbólica em que a luz também produz medo. "Dizia que algo se escondia na sombra projetada pelo brilho tenebroso do sol." Eliote, porém, teme igualmente a noite, os espaços escuros e aquilo que pode permanecer escondido nas trevas.

Esse jogo entre luz e escuridão acompanha a narrativa inteira. O sol se impõe sobre o vale, enquanto o frio também permanece. A beleza do lugar não elimina sua violência. Pelo contrário, parece torná-la ainda mais inquietante. A paisagem destruída pela água e pela lama se transforma em um território de memória, morte e esperança.

Para o personagem, a vida é um horror. Mas se esquecer de tudo seria pior

O horror de Ana Paula Maia, entretanto, não depende exclusivamente de aparições ou acontecimentos sobrenaturais. Ele nasce principalmente da condição de Eliote. O verdadeiro assombro está em continuar vivendo depois de perder tudo. Em determinado momento, a narrativa revela: "Todos os dias pensa em se jogar dali. Todos os dias desiste e volta para o porão." A razão para continuar é dolorosa. Ele não sabe se, depois da morte, ainda se lembrará dos filhos e da esposa. Se a morte for apenas vazio, prefere prolongar a dor e preservar as memórias, reflete o protagonista.

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É uma das questões existenciais mais potentes da novela. O que resta de uma pessoa quando tudo aquilo que dava significado à sua vida desaparece? A memória é uma forma de sobrevivência ou uma condenação? Eliote parece preso justamente entre essas duas possibilidades. Lembrar é sofrer, mas esquecer seria perder novamente, para sempre, aqueles que já morreram.

A relação do protagonista com Deus também participa dessa angústia. O "Deus" aparece grafado de acordo com a experiência atormentada de Eliote, atravessado por perguntas para as quais não existem respostas fáceis. "Mas qual seria a força maior pra que um deus desejasse matar a sua esposa, as suas meninas e te deixar vivo todo remendado, carregado de lembranças e completamente impotente?" A pergunta não procura uma solução teológica. Ela revela a revolta de alguém tentando encontrar uma lógica para a tragédia.

A autora sabe criar suspense a partir dos detalhes. Pequenas ocorrências vão deslocando a narrativa para um território cada vez mais inquietante. Um par de olhos entre as árvores. Uma presença percebida às costas. Uma figura que pode estar ali ou ser apenas fruto da solidão. "Ao fundo, entre as árvores, ele vê um par de olhos mirando-o." Em outra passagem, Eliote sente alguém passar rente e se vira com a espingarda em riste, mas não encontra ninguém.

São cenas quase cinematográficas, construídas para provocar susto sem recorrer ao excesso. O terror é incorporado à atmosfera. Quanto mais o vale se torna inóspito, mais a sanidade de Eliote parece desaparecer. Ele permanece lá, observando a partir das várias câmeras e drones espalhados pelo vale. Enquanto isso, sua sanidade vai sendo colocada à prova. Eliote se esvaziou de quem ele era antes da tragédia. Então, o leitor acompanha em primeiro plano a existência perturbada desse homem.

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Criar uma história em que praticamente não acontece muita coisa não é fácil. É difícil prender o leitor com uma história centrada apenas num único indivíduo. A economia das palavras é calculada. Mas o mérito está em mostrar a mente perturbada do personagem. Reflete justamente o estado de espírito desse homem, que para não morrer de tédio, convive com manequins de lojas como se fossem pessoas e dá o nome de antigos moradores. Esses seres, no entanto, lhe conferem um caráter ainda mais solitário.

Esse homem sozinho no mundo, buscando os corpos dos filhos mortos, é algo melancólico ao extremo. A autora mostra, sobretudo, os destroços da alma humana depois que uma tragédia acontece. A narrativa prende ainda mais justamente porque algo está em suspenso, para acontecer, não apenas a busca pelos corpos dos meninos. Tudo isso misturado com elementos do folk horror, que a autora vai soltando ao longo da história.

História acompanha a deterioração de um homem

A novela é tecnicamente concentrada. Há poucos personagens secundários e praticamente tudo converge para Eliote. Essa escolha funciona porque a narrativa não pretende construir uma grande história, mas acompanhar de perto a deterioração do homem. O leitor é conduzido quase como um espectador ao lado dele, observando seus movimentos, suas escavações, seus medos e suas lembranças. O livro tem ecos com casos recentes no Brasil, como os desastres de Mariana e Brumadinho. No livro de Ana Paula, o vale parece morto, mas não está totalmente.

Brumadinho logo após o rompimento da barragem da Vale
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

A satisfação que Eliote encontra nas coisas simples também ajuda a dimensionar o tamanho de sua perda. Ele nunca saiu do vale e construiu sua vida dentro daquele espaço. Antes da tragédia, talvez não percebesse plenamente o valor do cotidiano. Depois dela, qualquer pequeno vestígio do que existia ganha outra dimensão.

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Ana Paula Maia, assim, transforma um cenário de destruição em uma investigação sobre a permanência. Permanecer vivo, permanecer no vale, permanecer ligado aos mortos, permanecer lembrando. Até mesmo o ritual da coberta da alma aponta para essa impossibilidade de romper completamente o vínculo entre os que foram e os que ficaram.

O que começa como a história de um homem cavando a lama em busca dos filhos lentamente se transforma em algo maior. O sobrenatural amplia a narrativa, mas não rouba seu centro. O horror está a serviço da história de Eliote, e não o contrário. Por isso, mesmo quando surgem as bolas luminosas, as presenças estranhas e os mistérios do vale, a questão fundamental continua sendo a mesma: o que fazer quando a vida já não oferece quase nada além das lembranças?

"Se essas trevas são produzidas pela sombra do sol, ou pela ausência de sua luz, o que ambos os irmãos temiam era o que o vale significava: perpetuação." A frase talvez resuma a força simbólica do romance. O vale não é apenas o lugar onde Eliote perdeu a família. É o lugar onde tudo continua acontecendo depois do fim.

O resultado é uma novela sobre morte, memória, solidão e permanência. Uma história de um homem que cava a lama procurando os filhos, mas que, no fundo, parece escavar também a própria existência, tentando descobrir se ainda há alguma coisa que possa ser recuperada depois que o mundo inteiro desmorona.

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Em O Tenebroso Brilho do Sol, Ana Paula Maia reafirma seu interesse por personagens submetidos aos limites da existência. A escrita da autora neste novo trabalho é dura, silenciosa e brutal. Enquanto o sobrenatural se infiltra pelas frestas da realidade, o protagonista compreende que o horror mesmo é continuar vivo.

'O Tenebroso Brilho do Sol' é o mais recente lançamento de Ana Paula Maia após o encerramento de sua 'Trilogia do Fim'
Foto: Reprodução de capa/Companhia das Letras / Estadão

O Tenebroso Brilho do Sol

  • Autora: Ana Paula Maia
  • Editora: Companhia das Letras (112 págs.; R$ 69,90; R$ R$ 34,90 0 e-book; R$ 35 o audiolivro)
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