O rapper baiano VANDAL lançou "VANGUARDAH", seu primeiro álbum de estúdio, que une grime, rap e ritmos baianos à música clássica da Orquestra Afrosinfônica. Com direção musical de Russo Passapusso e maestro Ubiratan Marques, o projeto de dez faixas aborda fé, ancestralidade, violência e a vida em Salvador. O disco conta com participações de nomes como DJ KL Jay e Josyara, equilibrando rimas afiadas, crítica social e arranjos orquestrais grandiosos em uma obra coesa e ambiciosa.
Faz mais de uma década que VANDAL ajudou a abrir caminho para o grime e o drill no hip-hop brasileiro, a partir da mixtape Tipolazvegazh (2015). Onze anos depois, o artista de Salvador lança o primeiro álbum de estúdio, VANGUARDAH, e decide que chegou a hora de olhar para dentro: cruza as referências externas que sempre carregou com a musicalidade que o formou desde criança — do pagodão baiano ao axé das antigas e até ao samba-reggae.
O disco chegou em 13 de agosto, dia de Santa Dulce dos Pobres no calendário religioso baiano, uma data escolhida a dedo por quem fez da fé um dos eixos centrais do projeto. Ao longo de dez faixas, VANDAL constrói um retrato contemporâneo da própria cidade a partir da vivência pessoal, sem medo de expor as contradições que sempre atravessaram sua obra: a Salvador que o formou e a Salvador que ele denuncia; o crime ao redor e a fé que sustenta.
A produção fica por conta de Tiago Simões e Russo Passapusso, do BaianaSystem, que assumiu a direção musical do álbum e aproximou VANDAL do maestro Ubiratan Marques e da Orquestra Afrosinfônica. É a primeira vez que arranjos orquestrais, coro e instrumentação ao vivo aparecem com tanto peso na discografia do artista. E o resultado impressiona: raramente se ouve um disco brasileiro que consiga costurar orquestra e rap com essa naturalidade, sem que um elemento roube demais a cena em relação ao outro.
Dentre as faixas de destaque, "Ah Verdadeh Dah Cidadeh" funciona como manifesto, com VANDAL, logo na abertura, reivindicando pertencimento simultâneo a diferentes símbolos da cultura baiana e tratando a própria identidade como síntese do que a cidade produziu culturalmente. "Avemariah", com Liz Reis, e "Anjoh Bomh Dah Bahiah", com produção assinada pelo próprio maestro Ubiratan Marques, aprofundam o lado espiritual do disco, usando a fé como base para quem — como o artista afirma — perdeu muita gente pelo caminho e sente urgência em colocar ideias no mundo enquanto ainda há tempo.
Além delas, "Pontoh Deh Revoltah" traz DJ KL Jay, unindo a tradição do hip-hop nacional já consolidado ao universo sonoro que VANDAL vem construindo desde o início da carreira. Por fim, "Requiémh Parah Umh Sonhoh", ao lado de Josyara, e "Supereh", com Hiran, já no terço final do disco, reforçam o caráter coletivo do projeto.
Tematicamente, VANGUARDAH caminha por ancestralidade, memória, afeto, perda e urgência, sempre ancorado na ideia de que a vida, em si, é o grande mote do disco. É um álbum que trata sobrevivência e espiritualidade como faces da mesma moeda, sem esconder a crítica social que sempre esteve presente na obra do artista, mesmo quando o alvo agora se torna menos explícito do que em trabalhos anteriores.
Sonoramente, o projeto impressiona pela ambição de reunir rap, grime, drill, samba-reggae, pagodão e música afro-sinfônica no mesmo corpo, sem que a costura pareça forçada. É um álbum denso e que exige atenção, e talvez não entregue tudo de uma vez. (A mistura de referências tão distintas pode soar nebulosa na primeira escuta, especialmente para quem chega esperando reencontrar, de forma direta, a pegada mais crua de Tipolazvegazh.)
O que mais impressiona, ouvindo com calma, é como VANDAL nunca perde a própria rima no meio de tanta orquestração. É fácil um projeto desse tamanho, com maestro, coro e orquestra inteira por trás, acabar engolindo o rapper que deveria estar no centro de tudo. Aqui, o oposto acontece: cada arranjo parece existir só para dar mais peso ao que ele já diria de qualquer jeito, e a técnica de VANDAL, mesmo cercada de tanto instrumento, segue afiada como sempre foi. É um disco grande, ambicioso, que se sustenta na escuta repetida.
Nota: ★★★★½