Em entrevista, o produtor Stuart Price detalhou os bastidores de "Confessions II", novo álbum de Madonna. A obra une a sonoridade house a temas íntimos, abordando o luto familiar e trazendo parcerias com a filha Lola e Sabrina Carpenter. Price destacou a conexão criativa imediata da dupla, que transformou a vulnerabilidade em força. O sucesso do projeto rendeu à cantora o prêmio de Artista do Ano no VMA, impulsionado por uma ambiciosa apresentação de abertura após 23 anos afastada do palco do evento.
Madonna segue tão ambiciosa quanto sempre foi durante as sessões de gravação de Confessions II, que chegou no dia 3 de julho — e isso diz muito. Para a sequência de Confessions on a Dance Floor, de 2005, a cantora se reuniu novamente com o produtor daquele álbum, Stuart Price, e criou um disco que funciona como um set de DJ ininterrupto, mas que também inclui algumas de suas canções mais vulneráveis: um dueto com a filha, Lola (The Test), e músicas comoventes sobre a madrasta falecida (Betrayal) e o irmão Christopher Ciccone (Fragile), também já falecido.
Madonna também apresenta toda a sua potência pop em faixas que vão desde o dueto com Sabrina Carpenter, Bring Your Love, até a nostalgia dos anos 80 de Danceteria. O trabalho contribuiu para que a cantora fosse eleita Artista do Ano no VMA desse ano, em que abriu a cerimônia com uma apresentação repleta de participações especiais — sua primeira no evento em 23 anos.
No novo episódio do podcast Rolling Stone Music Now, Price contou os bastidores da criação de Confessions II e aprofundou as histórias por trás das faixas The Test, Fragile e I Feel So Free, além de falar sobre sua parceria criativa de décadas com Madonna e muito mais. Para ouvir o episódio completo, acesse o Apple Podcasts ou o Spotify. Confira alguns dos destaques da conversa:
Madonna e Price escreveram "Good for the Soul" no primeiro dia de volta ao estúdio, e a faixa definiu o tom do que viria a seguir
"Fomos para Londres, para o meu estúdio, e simplesmente dissemos: 'Vamos trabalhar por uma semana e ver o que acontece'", conta Price. "E, logo no primeiro dia, já tínhamos uma música nova. Acho que era 'Good for the Soul'. E não acho que nenhum de nós tenha realmente reconhecido o quanto aquilo era incrível. Apenas agimos de acordo com o momento e fizemos a música que parecia certa."
Segundo ele, a faixa "realmente surgiu como uma música simples sobre como o toque faz bem, como a conexão faz bem, como se soltar faz bem. E isso abriu um novo capítulo na composição, que, acredito, seria muito mais baseado na psique de Madonna neste momento da vida dela. […] Na verdade, sinto que sua arte mais poderosa surge quando ela demonstra essa franqueza direta sobre a vida".
O título Confessions II surgiu naturalmente com a retomada da parceria entre os dois
"Acho que o mais notável foi como a continuação aconteceu de maneira natural", afirma. "Senti que a passagem do tempo simplesmente não teve importância alguma. Adorei a maneira como ela estava compondo, como sua voz soava, como as músicas estavam tomando forma e como era divertido trabalhar nelas. Ficou bastante claro desde o início, talvez na segunda semana de trabalho, que o som de Confessions, entre outras coisas, é realmente o som da nossa colaboração. Grande parte do processo de fazer música acontece sem palavras. […] Você não discute o que vai fazer antes de fazer. Simplesmente faz. E ter esse tipo de entendimento não verbal entre nós permite avançar rapidamente pelas ideias."
Madonna estava determinada a não olhar para o passado
"Confessions I é de 2005, e acho que olhar para trás só leva você até certo ponto", diz Price. "Então, é preciso encontrar uma nova abordagem para aquilo que já foi feito, e acredito que este é um disco que olha desafiadoramente para a frente. Se o primeiro Confessions trata realmente da dança como liberdade, Confessions II fala muito mais sobre confronto e aceitação. […] Ele propõe a ideia da vulnerabilidade como força. […] Confissão é algo associado à vergonha. Mas, para nós, Confessions II reformula essa ideia, transformando-a em poder, força e coragem para… bem, ousar compartilhar também."
A essência house do álbum veio das mixtapes que Price preparava para Madonna durante as turnês — e uma seleção com French Kiss, de Lil Louis, inspirou I Feel So Free
Durante a Celebration Tour, Price conta que "simplesmente preparava mixtapes para ela ouvir em festas ou enquanto se exercitava. E foi nessas seleções que encontramos algumas das referências que começamos a usar. Muitas delas eram baseadas em discos e artistas de house que eu amo. […] Kevin Saunderson, DJ Pierre, Frankie Knuckles, Mr. Fingers…".
"Fomos para Nova York… Madonna tinha chegado de casa e estava ouvindo uma mixtape que incluía French Kiss. […] Então, ela trouxe aquilo para o estúdio e disse: 'Gosto muito desse vocal'", conta Price.
A ideia foi combinada com uma faixa "que tinha uma sensação meio hipnótica e havia sido criada em Londres, antes de irmos para Nova York", explica. "Então, em Nova York, juntamos essas duas peças musicais, algo muito típico da maneira como Madonna desenvolve suas ideias: combinando coisas, misturando elementos de que gosta e criando sensações no estúdio. Depois, ela disse: 'É só ligar o microfone. Deixa eu começar a gravar'."
"E então ela entrou nesse estado de espírito de pensar em como a música dance a faz se sentir, nessa sensação de segurança que existe quando estamos entre muitas pessoas e na ideia de que a pista de dança funciona como uma espécie de refúgio. Foi aí que essas ideias começaram a surgir."
Betrayal nasceu de uma composição de Erik Satie que quase foi usada em um momento de piano da filha de Madonna, Mercy, na Celebration Tour
Antes de Bad Girl,durante a Celebration Tour, a filha de Madonna, Mercy, tocava piano em um momento que Price descreve como extraordinário. Uma composição de Erik Satie chegou a ser considerada para a apresentação, mas "não tinha a atmosfera certa para aquele momento", explica o produtor. "Mas o carinho por aquela peça permaneceu. […] Ela acabou se tornando o ponto de partida para uma música. Então, bastou recortá-la um pouco, reorganizá-la e, seguindo também o estilo de Hung Up, pensar que não basta simplesmente se apoiar em um sample. Como podemos expandi-lo? […]"
Ao longo da produção do álbum, Madonna enfrentou momentos difíceis. "Ela dizia que essa música fazia bem à alma, certo? Sentia que era um processo de cura fazer música em um ambiente em que não precisava ficar questionando a si mesma. Mas também havia coisas acontecendo na vida dela que envolviam perdas, e foi o que aconteceu com Betrayal. Ela perdeu um familiar e transformou isso na semente de uma ideia para a letra. […] Um dos grandes talentos de Madonna é conseguir ser muito específica e, ao mesmo tempo, universal."
Madonna e Price escreveram Fragile na semana em que o estado de saúde de Christopher Ciccone piorou
"Acho que a ideia de Fragile também surgiu durante uma semana em que ela enfrentou outra perda", conta Price. "E, novamente, existe algo que considero importante para escritores e artistas: o trabalho, o compromisso de aparecer e estar presente, é uma verdadeira dedicação a si mesmo. Independentemente do que esteja acontecendo, vou entrar naquele estúdio. Existem dias em que simplesmente não temos vontade, e é muito importante comparecer, porque o motivo pelo qual você não queria ir pode ser justamente a principal razão pela qual deveria estar lá naquele dia."
"Naquela semana em que estávamos trabalhando, o irmão dela estava muito doente, e seu estado piorou. Estávamos compondo uma música naquele momento. […] Originalmente, acho que a letra de Fragile falava um pouco sobre a própria pessoa, sobre si mesma. […] Mas, pela maneira como as coisas se alinharam, o que estava acontecendo naquela semana acabou se tornando um tema muito mais imediato e apropriado."
O dueto de Madonna com a filha Lola, The Test, ainda emociona Price
"Lola havia dito à mãe algo como: 'Gostaria de fazer uma música com você'", conta Price. "Lola e Madonna encararam aquilo de uma maneira completamente diferente: viram a oportunidade como um momento de cura, uma chance de estarem juntas e serem muito honestas sobre as coisas. […] Lola preparou algumas letras para levar ao estúdio, e Madonna também preparou as dela. Mas foi somente quando o microfone estava ligado e gravamos que aquelas letras realmente foram ouvidas. E isso… de tudo o que está no disco, provavelmente é algo que me emociona só de pensar, porque foi uma das coisas mais bonitas que já vi."
"Também tenho meus próprios filhos e, ao pensar no poder desses laços e dessas conexões […] e observar tudo aquilo de fora, foi uma experiência muito emocionante."
Price acrescenta que Lola "é uma artista completamente excepcional por mérito próprio".
Preparação para o VMA exigiu dedicação semelhante à de uma turnê
Para o show gratuito em comemoração ao mês do Orgulho LGBTQIA+ na Times Square, em junho, Price descreve o cenário como "uma pequena caixa de joias posicionada no alto da praça, com portas de aço muito espessas, parecidas com as de um cofre de banco, e telas de LED na parte da frente".
A ideia era explorar "a metáfora dessas portas de cofre se abrindo e da nova música subitamente transbordando para as ruas da Times Square, um lugar tão importante para Madonna e para sua relação com aquela cidade".
Sobre o VMA, ele explica: "Foi uma apresentação para a qual dedicamos, ambiciosamente, uma preparação quase no nível de uma turnê, comprimindo tudo isso em um cronograma de duas semanas". Segundo Price, a MTV foi "muito colaborativa e flexível, permitindo que ela realmente criasse e não impondo restrições".
Madonna gravou cerca de oito músicas que ficaram de fora de Confessions II. Elas serão lançadas?
"Bem, nunca se sabe, não é?", responde Price. "O melhor das boas músicas é que elas nunca morrem. Elas simplesmente encontram uma maneira de aparecer no momento certo. E sim, estou sendo enigmático, mas é porque acho que ainda gostamos muito dessa ideia de continuidade: Confessions é, na verdade, um momento prolongado no tempo, com diferentes elementos que compõem sua apresentação."