A trajetória do Kiss remete a clássicos do rock, shows intensos e um legado que vai além da música. No entanto, "a banda mais quente do mundo" também teve seus dias de dor e sofrimento, especialmente pela morte de um integrante no início da década de 1990.
Para o vocalista e guitarrista do Paul Stanley, o período mais sombrio da história do grupo não envolveu declínio comercial ou conflitos de ego, mas a batalha contra o câncer e a subsequente perda do baterista Eric Carr, em 1991.
Em entrevista de 2019 à revista Outlaw (via Music Radar), Paul admitiu arrependimento sobre a forma como lidou com a grave doença do companheiro de banda.
No início de 1991, Eric Carr foi diagnosticado com um câncer raro no coração. Paul Stanley revelou que, na época, sua própria limitação diante de uma tragédia pessoal o impediu de absorver a gravidade da situação.
Quando o baterista compartilhou a suspeita da doença, Stanley tentou tranquilizá-lo, acreditando ser apenas um susto. O diagnóstico definitivo, porém, o deixou em estado de choque.
Paul relembra:
"No dia em que Eric me disse que poderia estar com câncer, eu lhe disse: 'Todo mundo imagina o pior quando não se sente bem, mas você vai descobrir que está tudo certo'. Mas depois ele voltou a falar comigo, após mais alguns exames, e disse: 'Estou com câncer no coração'. Acho que fiquei em choque depois disso. De alguma forma maluca, eu pensava que, em algum momento, Eric poderia melhorar e voltar para a banda. Provavelmente era uma maneira de lidar com o meu próprio medo. Até o fim, foi algo difícil demais de compreender."
À Outlaw, Paul Stanley contou que esse foi o período mais difícil da trajetória do Kiss e que se arrepende de não ter tido uma postura mais solidária em relação ao problema de saúde vivido pelo saudoso colega:
"Eu diria que, na minha vida toda, analisando o panorama geral, não tenho absolutamente nenhum arrependimento, pois tudo o que fiz me levou aonde estou agora. Mas preciso fazer uma ressalva e dizer que, em relação à doença de Eric Carr e ao período que antecedeu seu falecimento, gostaria de ter lidado com a situação de outra forma.
Eric Carr, cujo nome real era Paul Caravello, juntou-se ao Kiss em 1980 para substituir o membro original Peter Criss. Sob a identidade visual de The Fox, Carr deu nova vida e peso ao som do Kiss ao longo de 11 anos, brilhando especialmente no álbum Creatures of the Night (1982).
Eric faleceu aos 41 anos, no dia 24 de novembro de 1991 — curiosamente, a mesma data da morte do vocalista do Queen, Freddie Mercury. O falecimento do astro britânico acabou dominando o noticiário internacional da música.
A dor da perda foi intensificada pelo que os integrantes do Kiss consideraram um descaso imperdoável por parte da imprensa, em especial a Rolling Stone EUA. Enquanto outros veículos de comunicação, como a CNN e a MTV, prestaram homenagens a Carr, a revista optou por ignorar o falecimento do baterista em suas edições subsequentes.
Em resposta, no dia 3 de fevereiro de 1992, Paul Stanley, Gene Simmons e Bruce Kulick enviaram uma carta aberta à revista, repudiando a omissão. No texto, os músicos destacaram que ignorar a morte de Eric Carr era um ato equivocado e "imperdoável".
Leia um trecho da carta (via site Igor Miranda):
"Ficamos chocados e entristecidos com sua óbvia escolha de ignorar a morte do nosso baterista, Eric Carr, que travou uma batalha valente e incansável de um ano contra o câncer. (...) Omitir a morte de um músico da dimensão de ERIC CARR, independente de sua visão ou gosto, é imperdoável, considerando especialmente a cobertura feita pela CNN, MTV, Network Television e todas as publicações virtuais diárias e semanais."