Lançada oficialmente pela Legião Urbana em 1987, a canção "Que País É Este" — composta originalmente por Renato Russo no final dos anos 1970, na época do Aborto Elétrico — segue como um dos maiores hinos de protesto do rock brasileiro.
Criada no contexto final da ditadura militar, a letra que critica a corrupção, a violência e a desigualdade social no Brasil atravessou gerações e, frequentemente, é entoada em manifestações políticas contemporâneas, inclusive por grupos de direita.
Questionado sobre essa apropriação política, o baterista da Legião, Marcelo Bonfá, demonstrou desapego em relação ao uso da obra. Em entrevista a Valmir Moratelli para a Veja, o músico de 61 anos minimizou as disputas ideológicas em torno da faixa.
Inicialmente, Bonfá afirmou:
"Cara, essa música nunca foi partidária, nem de direita, nem de esquerda. A gente fala de um contexto que serve para os dois. E usam isso inevitavelmente, mas não estou nem aí (sobre ser usada pela direita). Estou nem aí. Pode fazer o que quiser. Quem tiver a sensibilidade de perceber — e muita gente tem —, percebe sobre o que ela fala. Para mim tanto faz.
Em seguida, o baterista acrescentou que enxerga a composição como um patrimônio do público geral, embora lamente o fato de ela não ter perdido a validade:
"Agora, acho que é uma música jovem, é das pessoas do Brasil, do brasileiro, de todo mundo. E quem está lá dentro canta e quem está fora canta, uma música que continua atual, infelizmente, e isso é assustador."
Outra postura
A postura de Marcelo Bonfá difere frontalmente da reação de Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e gestor dos direitos autorais da Legião Urbana. Manfredini adota uma linha de tolerância zero contra o uso da música por alas conservadoras.
O caso mais recente, em 2025, envolveu o partido Novo e o, à época, governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Durante um evento partidário em que Zema lançou sua pré-candidatura à Presidência da República, o político entrou no auditório ao som de "Que País É Este". Como a utilização não foi autorizada, o herdeiro de Renato Russo notificou extrajudicialmente o partido por violação de direitos autorais.
À Folha de S. Paulo, Giuliano Manfredini afirmou:
"Mais uma vez a extrema direita insulta a obra do meu pai, a memória dele, e faz uma afronta aos direitos autorais."
Ele acrescentou:
"É cansativo que candidatos da extrema direita se achem no direito de fazer isso, passar por cima do Estado de Direito, dos direitos autorais, não respeitar as leis. Há muitos anos isso. Está cansativo."