Em 2026, a banda Lagum celebra uma década do álbum de estreia, que profetizava o ano na faixa "2026". As comemorações incluem um show surpresa em Belo Horizonte, abertura para o Maroon 5, o relançamento do disco em vinil e a turnê nacional "Lagum em Todo Lugar". Além disso, o grupo produziu sessões musicais ao vivo em cenários inusitados: no Bondinho do Pão de Açúcar, de barco no Rio Negro e a bordo de um balão de ar quente, marcando a maturidade artística e o sucesso da sua trajetória.
Em 8 de maio de 2016, a Lagum lançou de forma independente Seja o Que Eu Quiser, gravado em um pequeno estúdio de Belo Horizonte. Pedro Calais assumia os vocais, Zani (Otavio Cardoso) e Jorge (Glauco Borges) tocavam guitarra, e Chicão (Francisco Jardim) estava no baixo. Na bateria estava Tio Wilson (Breno Braga), que morreu em 2020 e foi sucedido por Glauco Mendes. Não havia gravadora nem plano de lançamento: havia amigos, músicas autorais e a vontade de fazê-las circular. Uma delas, "2026", falava de um futuro que, àquela altura, parecia distante demais para ser levado a sério: "faço planos para agosto de 2026". Mais do que uma frase que rimava, o verso traduzia a ansiedade de quem sonhava em viver de música.
Dez anos depois, agosto chegou, e o baixista Chicão resume o que sente com a mesma simplicidade de então: "Tá sendo muito mágico, porque a gente lançou nosso primeiro álbum e ele entregava ali naquela época tudo que a gente queria fazer. A gente queria viver de música, a gente queria colocar nossas ideias no mundo". A faixa que parecia uma promessa se tornou, aos poucos, um retrato de quem a banda foi e do que se tornou.
Para entender a dimensão de 2026, é preciso voltar aos primeiros anos, quando o grupo ainda era pequeno. "Desde o início, a gente era uma banda muito pequena e o objetivo inicial era sair de Belo Horizonte, sair do estado", lembra Zani. A ambição de cruzar as fronteiras da cidade permanecia, mas o horizonte era outro. Jorge, guitarrista, descreve aquele começo com uma palavra que faz questão de não usar em sentido pejorativo: "A gente era ingênuo. Uma ingenuidade que você não bota amarras nos sonhos". Dez anos depois, essa ingenuidade se transformou em uma maneira de olhar para o próprio caminho com mais clareza — e com a mesma vontade.
A comemoração de 2026 foi acontecendo, tomando forma ao longo de um ano em que a banda decidiu transformar o aniversário em uma série de gestos. O primeiro aconteceu no centro de Belo Horizonte.
O verso de 2016 chega à Sapucaí
https://www.youtube.com/watch?v=C0KrIX_oKOE
O primeiro gesto foi um show surpresa na Rua Sapucaí, em Belo Horizonte. A banda tocou na varanda da pizzaria Panorama, com vista para um dos cartões-postais da cidade: o viaduto de Santa Teresa, com o metrô passando ao fundo. Tudo foi decidido na semana anterior. A notícia circulou por e-mail, não como anúncio de um show, mas como convite para comemorar a chegada de agosto de 2026. Muita (realmente muita) gente apareceu, e a banda não esperava um público tão grande. "A gente não sabia o que poderia acontecer", lembra o vocalista Pedro Calais.
Tocar de forma crua, com a varanda como palco, fez a banda sentir algo inesperado. As vozes do público se sobrepuseram aos instrumentos, e a noite ganhou um tom diferente de qualquer show anterior. "Foi muito legal porque isso, de certa forma, também conecta com o nosso início. Isso também é um resgate da nossa essência", diz Pedro. Foi ali que o ano começou a ganhar sentido: a celebração retomava o jeito como tudo começou.
Essa vontade de voltar ao básico não ficou restrita à Sapucaí. Para Pedro, ela também aparece na maneira de tocar e de se apresentar. "Eu tô com vontade de fazer mais coisas como essas, sabe? Ao vivo, na tora, no estilo faça você mesmo". Foi dessa vontade que surgiu a ideia de um novo tipo de projeto, capaz de levar a música para além dos palcos habituais.
Água, terra e ar
https://www.youtube.com/watch?v=61BvCevs1WI
As sessões ao vivo nasceram do desejo de sair do roteiro. A ideia surgiu durante um show em Porto Alegre, quando as luzes do palco se apagaram no meio da apresentação e a banda ficou alguns minutos no escuro. Foi naquele silêncio que veio a proposta de gravar em lugares inusitados e visualmente marcantes. A ideia ficou guardada até o planejamento das comemorações, quando a equipe começou a procurar cenários improváveis.
O primeiro foi o Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. A banda teve duas horas e meia para gravar, e o prazo curto exigiu preparo. "A gente entrou com tudo, ensaiou, pá. Entrou, gravou em duas horas e meia", contam. O repertório reúne "Ninguém Me Ensinou", "A Cidade", "Fifa" e "Bem Melhor", além de "Seu e Só", faixa inédita lançada com a sessão.
Depois veio o Rio Negro, na Amazônia. A banda seguiu de barco com uma equipe de 22 pessoas e passou quatro dias embarcada, longe de qualquer estrutura de estúdio. "Não tem energia direito", resume Jorge, ao descrever um trabalho em que todo mundo colocou a mão na massa. A gravação rendeu duas músicas inéditas, entre elas "Na Calada da Tarde", e seis releituras de sucessos da banda. A experiência também mostrou que cada lugar pedia uma maneira própria de tocar.
A atenção ao cenário organiza as sessões. "A gente pensou nos lugares, porque são lugares que têm imagens muito fortes", explica Pedro. No Bondinho, a música precisava combinar com o movimento dos cabos sobre a cidade. Na Amazônia, o som tinha de dialogar com a floresta ao redor. A sequência, portanto, não é apenas geográfica: é um método que se aprimora a cada gravação e que, na terceira sessão, levou a banda a um lugar que ninguém havia imaginado.
Música feita num balão
A terceira sessão ao vivo, revelada com exclusividade à Rolling Stone Brasil, foi gravada em um balão. Pela primeira vez, a banda tocou a uma altura que nunca havia experimentado. Pedro e Jorge têm medo de altura, e foi justamente isso que tornou a gravação um desafio pessoal. "Foi um grande desafio para mim e para o Jorge, porque a gente morre de medo de altura", conta Pedro, rindo. Ainda assim, decidiram enfrentar o medo e fazer música lá em cima.
A decisão não foi simples. A banda não se limitou a gravar uma sessão diferente no chão: subiu em um balão para tocar no alto. Cada etapa exigiu atenção à segurança, ao som e à imagem. "Foi um grande desafio psicológico, técnico", resume Zani. A equipe precisou cuidar de cada detalhe para que a música funcionasse em um espaço muito diferente de um palco ou estúdio, e cada integrante teve de encontrar seu próprio ritmo para lidar com a sensação de estar suspenso.
O resultado agradou especialmente à banda. "Eu acho que foi, musicalmente falando, uma das que eu acho mais legais assim", diz Pedro, avaliando a sessão. Com o balão, a série se completa: água no Rio Negro, terra no Bondinho e ar em Praia Grande. São três sessões, em diferentes regiões do país, do Norte ao Sul — uma comemoração que também se tornou um mapa.
A sessão será lançada no dia 10 de novembro, e Pedro vê nela uma ligação direta com a turnê. "Eu acho que ele junta, sim, e dá mais força para essa turnê, que é o Lagum em Todo Lugar", diz. Para ele, o vídeo e o show contam a mesma história, a de chegar a lugares novos.
Lagum em Todo Lugar
Produzida pela Live Nation, a turnê Lagum em Todo Lugar é um desdobramento natural desse percurso. O roteiro começou em Belo Horizonte, em 17 de outubro, na Arena Hall. Depois, segue para o Rio de Janeiro, no sábado, 7 de novembro, na Qualistage; Brasília, no sábado, 28 de novembro, no Ulysses Guimarães; Ribeirão Preto, no sábado, 5 de dezembro, no Multiplan Hall; Porto Alegre, na sexta, 11 de dezembro, no Araújo Vianna; Florianópolis, no sábado, 12 de dezembro, no P12 Jurerê; e Curitiba, no domingo, 13 de dezembro, no Cine Lido. Os ingressos estão à venda pela Ticketmaster e nas bilheterias oficiais.
O anúncio prevê 10 cidades brasileiras, e as sete datas já confirmadas compõem um roteiro que atravessa três regiões. As demais cidades, incluindo praças do Nordeste, serão divulgadas em breve. Para a banda, a turnê significa mais do que cumprir uma agenda. "A gente quer romper as bolhas, né, do algoritmo, de tudo que a gente vem sendo colocado, para espalhar mais o nosso som", diz Chicão. Levar o show a lugares fora do circuito habitual é uma forma de fazer a música chegar a quem ainda não a conhece.
O desafio, porém, está no repertório. São cerca de 70 músicas lançadas, e cada escolha implica deixar outras de fora. "A gente fica tentando tocar as coisas mais especiais, né? Aquilo que mais comove o público", diz Pedro. Há também os pedidos por lados B, faixas menos óbvias reivindicadas por parte do público. A banda nem sempre consegue atender a todos, mas reconhece que essa diversidade faz parte da construção do show. "Tá sendo uma construção difícil assim de uma setlist", admite.
Por isso, a comemoração não se limita às músicas. "A gente tá trazendo essa comemoração não só no repertório, mas também nas falas, no visual, nos interlúdios", explica Pedro. Chicão vê na turnê algo mais duradouro do que as excursões habituais, que costumavam durar cerca de seis meses. "A gente tá construindo um show para ser o melhor da nossa carreira até hoje", afirma.
Um convite para o mesmo palco
Antes da turnê própria, a banda dividiu o palco com o Maroon 5 em três shows. O convite chegou em agosto e, até a confirmação, a espera foi marcada pela ansiedade. "Com muita ansiedade, ainda mais porque foi durante o mês de agosto", lembra a banda.
Para Pedro, o convite fecha um ciclo que começou com uma música de outra banda. No início, o grupo tocava "Sunday Morning", do Maroon 5, e foi essa canção que Pedro publicou como uma de suas primeiras versões na internet. "Para mim, tem uma realização pessoal", diz. Chicão também lembra que o Maroon 5 foi uma das bandas que o inspiraram a ser músico. Quando receberam a confirmação, a reação foi de alegria.
O encontro com os integrantes da banda norte-americana foi, segundo a banda, melhor do que eles imaginavam. "Os caras [foram] super-receptivos, recebendo [a gente] de igual para igual, trocando ideia, superengajados", conta. A conversa foi natural, com interesse genuíno pela trajetória da banda. "Assinaram vinil, trocaram ideia, tiraram foto. Foi infinitamente melhor do que a gente podia imaginar".
A experiência também serve de laboratório. A banda testa um novo repertório, uma maneira diferente de tocar as músicas e arranjos pensados para grandes públicos. "A gente se propôs a fazer uma configuração musical que fosse, de fato, para lugares muito grandes", explica Pedro. Os arranjos precisam ser claros o bastante para não embolar e fortes o suficiente para causar impacto. "A gente tá testando isso em estádios e tá sendo muito legal", diz. Para a Lagum, é um passo concreto em direção a um sonho que sempre esteve no horizonte: "A gente quer ter um estádio só pra gente. A gente quer ter essa carreira longeva".
Um ano que cabe em um disco
Se a história começou com um disco independente gravado em um pequeno estúdio, a celebração encontrou no vinil do primeiro álbum sua forma mais íntima. A edição numerada, limitada e assinada à mão pelos quatro integrantes esgotou-se em 10 minutos. "A gente sabe que tem uma base de fãs que apoia muito e que está sempre muito a fim de compartilhar fisicamente boas memórias e boas lembranças", diz a banda.
Pedro escreveu o encarte, com histórias sobre cada música, e a banda brinca que o trabalho também foi um exercício de caligrafia. "A gente brinca que treina a caligrafia", diz ele, rindo. Chicão, apreciador de vinil, destaca o que o formato tem de especial: "Quando você pega um vinil e abre ele assim, você vê que ele abre, sabe?" Para a banda, o objeto resume o sentido da comemoração: algo feito à mão e com cuidado.
Quem diria que um verso despretensioso, escrito em 2016 quase como um detalhe de rima, chegaria a 2026 como o fio que liga tudo isso? Entre o show surpresa na Sapucaí, as live sessions, o vinil que esgotou em 10 minutos e a abertura dos shows do Maroon 5, o ano foi se montando passo a passo, sem que a banda tivesse um roteiro fechado. Cada celebração abriu caminho para a seguinte, e a comemoração de uma década acabou sendo também a celebração do que ainda vem.
"Estamos juntos, logo em todo lugar, vamos que vamos", resumem.