O cantor baiano Netinho faleceu aos 60 anos, em Salvador, vítima de falência múltipla de órgãos decorrente de um linfoma não Hodgkin. Ícone do axé music, ele ganhou projeção nacional à frente da Banda Beijo antes de consolidar uma bem-sucedida carreira solo nos anos 1990, marcada pelo estrondoso sucesso internacional do hit "Milla". Sua trajetória artística e pessoal também foi marcada por problemas graves de saúde em 2013, empreendimentos musicais e incursões na política brasileira.
Netinho morreu na manhã desta terça, 13, aos 60 anos, no Hospital Aliança Star, em Salvador. Nascido em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, Ernesto de Souza Andrade Júnior enfrentava, desde março de 2025, um linfoma não Hodgkin — tipo raro de câncer que afeta o sistema linfático.
Em 2026, após um período de remissão, seu quadro voltou a se agravar, exigindo um novo ciclo de quimioterapia. Segundo comunicado da equipe do artista, a doença evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos. A nota que anunciou a morte informou também que o velório e a cremação serão reservados, conforme o desejo do cantor, e trouxe uma declaração de Netinho: "Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei".
De origem humilde, Netinho se mudou de Santo Antônio de Jesus para Salvador aos dez anos. Aos 14, ganhou da mãe seu primeiro violão. Aos 16, matriculou-se no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador e passou a conciliar os estudos com apresentações em escolas e, mais tarde, nos bares da capital baiana, onde cantava MPB e bossa nova. A virada na carreira veio em 1988, quando assumiu os vocais da Banda Beijo no Carnaval de Salvador e fez sucesso com "Beijo na Boca" em todo o país. O sucesso abriu caminho para outras canções do grupo, como "Estrela Primeira", "Barracos" e "A Vida É Festa", que fizeram de Netinho um dos nomes mais reconhecidos do axé antes mesmo de sua carreira individual.
Em 1993, o cantor deixou a Banda Beijo para seguir carreira individual. Três anos depois, gravou em Aracaju o disco Netinho ao Vivo! (1996), que trouxe o maior sucesso de sua trajetória: "Milla", regravação de uma canção da banda Jheremmias Não Bate Córner, grupo que mais tarde daria origem ao Jammil e Uma Noites. A faixa bateu recordes de execução no Brasil e ganhou versões em mais de oito idiomas, incluindo o russo, tornando-se um símbolo da geração que descobriu o axé nos anos 1990. Primeiro cantor baiano a lançar um CD ao vivo, Netinho aproveitou a visibilidade conquistada com "Milla" para levar o gênero além das fronteiras brasileiras. Apresentou-se em países como Itália e Chile, numa época em que o axé ainda era raro nas rádios europeias e sul-americanas. Em 2009, foi indicado ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras pelo DVD Netinho e a Caixa Mágica.
Como empresário, abriu um estúdio de gravação e mixagem no Rio de Janeiro, por onde passaram artistas como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Laura Pausini e Lenny Kravitz. Também criou um selo dedicado ao lançamento de novos artistas baianos. Sua trajetória, no entanto, foi marcada por revezes e polêmicas. Em 2013, sofreu três acidentes vasculares cerebrais que comprometeram seriamente sua voz e o afastaram do Carnaval de Salvador por quatro anos. Em 2010, havia assumido publicamente sua bissexualidade, tornando-se um dos primeiros artistas do axé a fazê-lo. Anos depois, porém, fez declarações consideradas pejorativas sobre a comunidade LGBTQ+ e o Carnaval de Salvador, o que motivou uma denúncia ao Ministério Público. Nas eleições de 2022, candidatou-se a deputado federal pelo PL, partido do então presidente Jair Bolsonaro, de quem era apoiador declarado. Recebeu 31 mil votos, mas não se elegeu.
Netinho foi casado com a jornalista Mariana Trindade entre 1997 e 2003. Os dois tiveram uma filha, Bruna Trindade. Diagnosticado com linfoma em março de 2025, após uma internação por fortes dores nas pernas, o cantor compartilhou nas redes sociais as etapas do tratamento. Em setembro de 2026, sua equipe informou que ele se afastaria do ambiente digital para se concentrar na recuperação. Desde então, não houve outro comunicado público até a confirmação da morte nesta manhã.