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Mano Brown defende o caderno e critica o celular como ferramenta de composição no rap

Em encontro com Nei Lopes, o líder dos Racionais MC's deu conselhos diretos sobre escrita, vocabulário e processo criativo na música

9 set 2026 - 11h28
Resumo
Em entrevista ao projeto Cidade de Dentro ao lado de Nei Lopes, Mano Brown criticou o uso de celulares e buscas no Google por jovens rappers na hora de compor. O vocalista dos Racionais MC's defendeu o uso do caderno manuscrito, argumentando que o papel mantém visível uma nuvem de palavras descartadas que podem ser reaproveitadas no futuro. Além disso, Brown aconselhou a nova geração a criar um dicionário interno e a desenvolver memória poética por meio da convivência direta com a escrita.

Mano Brown defendeu o caderno como ferramenta de composição e criticou o hábito, entre rappers mais jovens, de escrever letras no celular. A declaração foi feita no primeiro episódio de Cidade de Dentro, série lançada na última terça, 8, nos canais da Casa de Francisca no YouTube e no Spotify. O episódio reuniu o integrante dos Racionais MC's e o compositor, escritor e sambista Nei Lopes, de 84 anos, em uma conversa mediada pela artista Thalma de Freitas, com participação musical do compositor Rodrigo Campos. A gravação ocorreu na Sala B do Palacete Tereza Toledo Lara, no centro de São Paulo.

Mano Brown se apresenta no C6 Fest, em maio de 2026
Mano Brown se apresenta no C6 Fest, em maio de 2026
Foto: Mauricio Santana/Getty Images / Rolling Stone Brasil

https://www.youtube.com/watch?v=ej_zZKG4eNo

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A recomendação do caderno veio acompanhada de uma justificativa prática. Para Brown, o papel cria uma espécie de "nuvem de palavras" ao redor de quem compõe: versos descartados em um dia podem render faixas em outro, e esse material só permanece visível quando é escrito à mão. "A molecada agora gosta de escrever no celular. Eu digo: 'Não faz isso. Usa o caderno'. Por quê? Mesmo que não aproveite, deixa a nuvem de palavras à sua volta", disse.

Brown também comentou sobre vocabulário e memória poética. Antes de recorrer ao Google em busca de rimas, sugeriu que compositores construam um "dicionário interno", um repertório pessoal de sons e terminações, desenvolvido na convivência com a língua.

"Tá com dificuldade de rimar? Antes de ir pro Google… tenta criar memória; faz o seu dicionário próprio de tudo o que você lembra com as últimas três letras ou quatro letras. Tem que conviver com as palavras, com a escrita", afirmou.

O encontro com Nei Lopes também teve um momento descontraído. Quando o compositor carioca mencionou a tradição de compêndios formais de métrica na língua portuguesa — ferramentas usadas por poetas eruditos para estudar ritmo e rima —, Brown reagiu com bom humor e certa provocação: "Aconselha a olhar no dicionário de rima? No rap, acho mancada, mas tudo bem, né, mano?"

Nascido no Capão Redondo, em 1970, Mano Brown é vocalista e principal letrista dos Racionais MC's, grupo fundado em 1988 e um dos mais importantes da história do rap brasileiro. Sua escrita se destaca pela precisão vocabular, por imagens do cotidiano das periferias de São Paulo e pela capacidade de transformar relatos de violência e desigualdade em crônica poética. Que um dos maiores letristas do país venha a público defender o caderno — e questionar o Google — diz muito sobre o que entende como base do ofício de compositor.

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Rolling Stone Brasil
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