Desde que surgiu em Atlanta como "Miss Mulatto" no reality show The Rap Game — um apelido que gerou acusações de provocação antes de ela, felizmente, encurtar o nome — Latto construiu uma carreira surpreendentemente resistente. Seus três primeiros álbuns, a partir de Queen of Da Souf (2020), receberam certificação de ouro e renderam ao menos um grande hit cada, de "Big Energy" (2021), que cita Mariah Carey, a "Put It on the Floor" (2023), esta última com Cardi B.
Ainda assim, apesar de ter chegado ao topo da Billboard Hot 100 em 2023 com sua participação em "Seven", de Jung Kook (BTS), e de somar até aqui três indicações ao Grammy, Latto continua subestimada — nem tão aclamada pela crítica quanto Monaleo e Doechii, nem uma marca multiplatina como Cardi. Ela rima tão pesado quanto qualquer um e tem a personalidade picante e exigente que, na prática, virou pré-requisito para mulheres no rap popular. Porém, seus álbuns às vezes soam como uma colcha de retalhos de impulsos, divididos entre satisfazer o público mais fiel e montar um currículo voltado ao pop do rádio.
Big Mama, cuja capa mostra Latto visivelmente grávida, parece feito para mudar isso. A lista de 18 faixas em 55 minutos está abarrotada de letras sobre ser uma "baddie" apaixonada, graças a um romance bagunçado e perfeito para tabloides com o astro atlantaense 21 Savage, líder de paradas, que teria deixado a esposa para ficar com Latto, e ao nascimento da filha do casal no mês passado. "Não consigo acreditar na minha vida agora, me sinto no topo do mundo/Deveria ter visto minha cara quando me disseram que era uma menina", ela rima em "Mama", uma balada country-rock melodramática com Jelly Roll. ("Somebody", que encerra Big Mama, é uma incursão de arena rap mais eficaz.) Enquanto isso, 21 Savage aparece na bem mais safada "Hostage", e o casal troca barras de sexo enquanto Latto se gaba: "Eu meto a mão na bolsa dele, ele mete a mão nas minhas entranhas". Musicalmente, Latto ainda pode ansiar pelo tipo de sucesso de alcance amplo que parece quixotesco numa era em que o rap praticamente desapareceu das paradas da Billboard (com Drake como notável exceção). Mas ninguém pode dizer que ela não está fazendo uma declaração.
As primeiras faixas de Big Mama confirmam as credenciais de Latto no rap pesado. "As vadias invejosas não gostam de mim (amargas)/Mas todas as lésbicas querem me 'dykar' (tesoura)", ela rima num estilo de hashtag na eficiente "Get Money Girl", um trap sulista produzido por Coupe. (Ele e Go Grizzly, ambos veteranos de ATL, participam da maioria das músicas do álbum.) Latto divide versos com a estrela de Memphis Glorilla em "GOMF", enquanto a dupla se gaba e despreza haters, com Glo mandando: "O Google disse que meu patrimônio é quanto? Isso é quanto eu paguei de imposto". Mas, na quarta faixa, a sem batida "Chrome Heart Diaper Bag", Latto passa a cantar-rap em cima de melodias etéreas de laptop sobre sexo bom: "Eu sabia que ia precisar de um teste assim que a gente aterrissasse de volta em casa". Depois vem outra canção apaixonada, "Okayyy", com Doja Cat, que rima: "A gente duas esqueceu o que é camisinha/Você acharia que a gente tava tentando ter filhos".
O restante de Big Mama fica concentrado demais num amor enorme, enorme, ao estilo Fleetwood Mac. Há desvios líricos interessantes, como em "Hostage", em que Latto acelera: "Eu não vou a lugar nenhum, eu vou morrer em Atlanta/Que cara eu tenho, Trae Young?". E ela provoca boas performances de cantoras como Teyana Taylor ("4L"), Wizkid e Odeal ("Anxious") e Mariah the Scientist ("Make Me"). Mas a ênfase singular pode cansar, por mais que ela tente manter o clima "sujo". "Gangsters também precisam de amor/Fodonas também precisam de amor/De verdade também precisam de amor/Ricas também precisam de amor", ela entoa em "Need Luv 2", ao lado da rapper de St. Louis Sexyy Red.
Mulheres no rap muitas vezes são penalizadas injustamente por suas escolhas artísticas, ficando num dilema impossível. Se pesam demais a mão, caras como Jermaine Dupri recorrem a clichês sexistas sobre "stripper". (Latto, por sua vez, tira sarro de Dupri em "Get Money Girl", ao celebrar que superou as expectativas dele sobre ela.) Mas, se soam suaves demais, são descartadas como sem graça e definitivamente não hip hop. Dá para questionar a enxurrada de temas românticos em Big Mama e se perguntar se as músicas resultantes poderiam ser melhores. Há apenas um ou dois fracassos claros, como "Onnat", que referencia o clássico "Kryptonite", do Purple Ribbon All-Stars de Big Boi, mas afunda num refrão medíocre, e "Fallin'", que junta cordas chorosas a linhas descartáveis do tipo "Você consegue fazer um dólar parecer cem mil". No geral, porém, soa como coisa boa demais.
Ao pensar em Big Mama, é impossível não lembrar da trajetória de Trina, a rapper de Miami que foi frequentemente ignorada no auge dos anos 2000, mas hoje é celebrada como uma artista definidora — a ponte de voz atrevida entre MC Lyte e nomes como Megan Thee Stallion. Talvez Latto, que demonstrou conhecer o cânone do rap sulista ao entoar "baow baow", como Waka Flocka Flame, e citar "Knuck If You Buck", do Crime Mob, em suas letras, esteja jogando um jogo de longo prazo, criando um trabalho que ganhará mais apreço com o tempo, à medida que o público o absorver de verdade. Enquanto isso, ela tem uma filha recém-nascida para criar.