Ariana Grande não está preocupada em compensar o tempo perdido na abertura da turnê 'Eternal Sunshine'

Em sua primeira apresentação como atração principal desde 2019, a veterana do pop abandonou o formato de "grandes sucessos" e apostou em um repertório mais incisivo, que cria uma conversa essencial entre ela e o público

8 jun 2026 - 09h21

Ariana Grande precisa que todo mundo na Oakland Arena faça silêncio. É a noite de estreia da turnê Eternal Sunshine e ela está de pé na extremidade circular da longa passarela do palco, com uma estação de repetição posicionada à sua frente. O pedido é enorme diante das mais de 17 mil pessoas que esperaram quase sete anos para dividir o mesmo espaço com ela novamente. Ela sabe disso. Quando surge por um elevador no palco, é recebida por gritos estridentes. Ela absorve aquilo por um instante, manda beijos e leva a mão ao coração. "Eu quase tenho medo de pedir, mas será que vocês podem ficar calmos só nesta parte?", pergunta Grande, apontando para a estação de repetição. "Parece que não é a hora certa de pedir para vocês ficarem quietos". A multidão responde com ainda mais barulho e, então, se aquieta quando Grande começa a trabalhar.

Foto: Michael Kovac/Getty Images para AFI / Rolling Stone Brasil

As primeiras camadas que ela grava são versões diferentes do mesmo verso: "I don't care what people say is true" ("Não me importa o que as pessoas digam que é verdade"). Ela acrescenta harmonias mais agudas em uma, depois soma mais algumas, depois constrói por cima disso e acrescenta ainda mais. Em seguida, passa para a próxima seção de sua mixagem ao vivo. Não vou quebrar. Não dá para sacudir. Este destino. Reescrever. Respirações profundas. Peito apertado. Vida. Morte. Rebobinar. As palavras ficam se repetindo em diferentes variações harmônicas — algumas leves, outras mais firmes, outras pontuadas por um "buh, buh, bum" arejado. Quando tudo está pronto, Grande faz um joinha para o público. A voz coletiva da plateia entra como um coral e, finalmente, ela dá início a "Eternal Sunshine".

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É como nos velhos tempos — embora muita coisa tenha mudado desde que Grande encerrou sua última turnê como atração principal em dezembro de 2019, sobretudo sua relação com o estrelato pop e suas exigências. "Os últimos 10 ou 15 anos vão parecer muito diferentes dos que vêm pela frente", disse Grande no início deste ano sobre sua carreira. "Não quero afirmar nada definitivo. Eu sei que estou muito animada para fazer essa turnê pequena, mas acho que talvez isso não aconteça de novo por um longo, longo, longo, longo, longo tempo". Quase nada na turnê Eternal Sunshine pode ser considerado pequeno. Ela é, ao mesmo tempo, um retorno triunfante e uma suposta despedida, embalada em quase duas horas de espetáculo audiovisual.

Os 20 minutos que antecedem "Eternal Sunshine" incluem a provocação de Grande em "Yes, And", que abriu o show, e a primeira performance ao vivo de "Positions" diante de uma plateia. Ela também puxa, logo no início, faixas de Eternal Sunshine como "The Boy Is Mine" e "Dandelion", uma música-bônus lançada no deluxe do ano passado, Brighter Days Ahead. É a turnê Eternal Sunshine, então é evidente que o álbum ocupa a maior parte do espaço no repertório de 23 músicas. Mas Grande dá atenção especial às faixas extras lançadas depois que o álbum original saiu, em 2024. Todas as faixas do deluxe entram no show: "Warm", "Twilight Zone", "Past Life" e "Hampstead".

"Hampstead" não é uma faixa particularmente marcante — especialmente quando se pensa nas músicas originais de Eternal Sunshine que ficaram totalmente fora do repertório, como "Don't Wanna Break Up Again", "True Story" e "I Wish I Hated You". A ausência delas dói, mas há algo em "Hampstead" que se destaca ao vivo de um jeito que nunca se destacou como simples faixa de estúdio. Ali, naquele palco, ela funciona mais como um recurso narrativo. Grande canta sentada em um banquinho, com uma perna dobrada sob o corpo. Não há enfeites: só ela e o microfone. Os sucessos têm seu peso — como "Into You", "Rain on Me" e "Break Free" —, mas nada é mais essencial para o legado de Ariana Grande do que aquela voz. Ela parece confortável sob os holofotes. Em geral, estrelas pop precisam de mais armas do que isso, mas há a sensação de que Grande poderia ter feito o show inteiro desse jeito.

Ainda assim, o show que ela constrói em torno de Eternal Sunshine é deliberadamente físico. Não necessariamente no sentido de ser extenuante — a coreografia que Grande faz junto do grupo de 12 dançarinos é inspirada, mas não é mais complexa do que o que ela já fez antes. Só que os movimentos chamam atenção para como esses corpos se movem juntos, em diálogo uns com os outros. Em "The Boy Is Mine", Grande entra em um confronto tenso com uma dançarina, literalmente empurrando e puxando a outra com um chicote entre abraços.

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Em "Past Life", seis dançarinos a erguem no ar. Quando ela deixa o palco após "Hampstead", dois dançarinos apresentam uma rotina íntima de balé ao som do instrumental da música. Tudo isso cria uma sensação de ampliação — como quando Grande canta "Don't comment on my body, do not reply" ("Não comente sobre meu corpo, não responda") em "Yes, And?", cercada por uma dúzia de figuras que se movem livremente.

Grande nunca foi do tipo que ignora os sussurros e as suposições que acompanharam sua vida sob os holofotes. Logo no começo do show, ela menciona com provocação o tempo em que interpretou Glinda em Wicked, perguntando: "É bom ver a gente, não é?".

E então, claro, há o divórcio. Grande não consegue ignorar a ironia durante a ponte de "Thank U, Next", quando fala sobre querer se casar algum dia. "Only wanna do it once, real bad" ("Só quero fazer isso uma vez, de verdade"), ela canta, levantando dois dedos e rindo. "Gon' make that shit last" ("Vou fazer essa merda durar"). Ela continua boa em encontrar humor em momentos que geralmente não têm nada de engraçado, mas é mais um lembrete de quanto mudou desde a última vez que a vimos no palco.

"Seven Rings" talvez seja o exemplo mais contundente. Sentada diante da imagem de uma casa rosa-choque, Grande parece uma artista completamente diferente daquela que incendiou a internet com o single em 2019. Até Positions parece ter sido em outra vida. O álbum recebeu mais espaço no repertório da turnê Eternal Sunshine do que se esperava. Grande já admitiu que descartou planos para Positions depois de captar o que chamou de uma vibe de "isso não é o que queremos" de parte do fandom.

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Ela nunca deveria ter dado ouvidos, mas pelo menos o mantra de manifestação "Just Like Magic" entrou no repertório — assim como "Safety Net" e "Positions". Algumas das melhores músicas do álbum, como "POV" e "Off the Table", ficaram de fora — mas também não dá para culpá-la por não querer passar todas as noites cantando canções de amor que escreveu sobre alguém que, mais tarde, inspirou músicas sobre deixar de amar.

Mesmo assim, Grande não quer esquecer tudo. O design de palco da turnê Eternal Sunshine faz muitas referências ao universo visual que ela criou para o álbum no curta Brighter Days Ahead, com sua própria versão da clínica de apagamento de memórias de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. O cenário gira em torno da casa alagada, queimada e demolida que aparece nas imagens do álbum e que, de alguma forma, segue de pé apesar de tudo. Em uma cena, ela até começa a florescer.

Entre trocas de cenário e figurino, Grande continua a história. De mãos dadas com sua versão mais jovem, enquanto atravessa uma água turva — o alagamento que ela enfrentou no início do show —, ela passa por diferentes versões de si mesma que buscaram o tratamento em busca de uma página em branco.

Uma delas usa o figurino do One Love Manchester, o show-tributo que ela organizou após 22 pessoas serem mortas em um atentado a bomba durante a turnê Dangerous Woman (2017). "One Last Time" ainda parece pertencer a eles, enquanto milhares de vozes imploram para levar uns aos outros para casa. É um dos momentos mais emocionantes e edificantes de toda a noite. Outro paciente na clínica é uma versão ainda mais jovem dela. A combinação de blusa com ombreiras e minissaia evasê só pode ser da era Yours Truly (2013). Ela a homenageia com uma versão jazzística, repleta de cordas, de "Honeymoon Avenue", a faixa de abertura de seu primeiro álbum. Não há nada que represente a era Sweetener (2018) — mas, por outro lado, não há músicas do álbum no repertório, de qualquer forma.

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Grande quase vai às lágrimas ao agradecer aos fãs que a acompanham desde sua estreia, há 13 anos. O trecho final do repertório é um ótimo argumento para explicar por que continuam ali. A estreia ao vivo de "Hate That I Made You Love Me", o primeiro single de seu próximo oitavo álbum, Petal, eleva a versão de estúdio a um ponto em que parecem músicas completamente diferentes. A maior diferença é que ela está realmente cantando. Os melismas e harmonias que ela adiciona ao vivo acendem um fogo necessário nas palavras que escreveu. "Is it really my fault you all gave me your hearts of your own accord?" ("A culpa é mesmo minha se vocês me deram seus corações por vontade própria?"), ela canta. Há uma tensão intrigante em fazer essa pergunta a uma arena inteira que grita as mesmas palavras de volta.

Se esta for mesmo a última vez que Grande vai dividir esse espaço com o público por um bom tempo, é imperativo que escutem o que ela tem a dizer — mesmo por cima dos próprios gritos. Só por um momento, ela precisa que todo mundo faça silêncio. Todo mundo faça silêncio.

Rolling Stone Brasil
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