A cantora e ativista Joan Baez reafirma o poder transformador da música e da resistência coletiva não violenta na luta por direitos humanos. Relembrando sua trajetória histórica ao lado de Martin Luther King e de grandes nomes do rock, a artista conclama a sociedade à ação urgente contra injustiças atuais nos EUA, como a perseguição a imigrantes e o autoritarismo. Baez encontra esperança e coragem na mobilização popular contínua para seguir resistindo e cantando em tempos de crise.
Há quarenta anos, participei da turnê musical Uma Conspiração de Esperança da Anistia Internacional — a primeira a chamar a atenção para as violações dos direitos humanos em todo o mundo. Ao lado de U2, Sting, Peter Gabriel e Neville Brothers, entre outros ícones do rock, viajamos pelos Estados Unidos, conscientizando e inspirando uma nova geração de jovens a se envolver, a se manifestar e a se pronunciar. Os shows resultaram em dezenas de milhares de novos membros se juntando à Anistia Internacional.
Tem sido assim a minha vida inteira. Desde que ganhei um ukulele na adolescência, fui a um show do Pete Seeger e ouvi a Odetta cantar, tenho sido impulsionada pelo poder transformador da música e abençoada com o dom da minha voz para inspirar as pessoas à ação. E, caso ainda haja alguma dúvida, continuo acreditando firmemente no poder da resistência coletiva não violenta para gerar mudanças.
Senti orgulho de estar ao lado do Dr. Martin Luther King na Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade em 1963; de participar dos protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã em Berkeley; e de ir para a prisão em apoio àqueles que se recusaram a servir no exército. Defendi prisioneiros de consciência em todas as partes do mundo e levantei minha voz ao lado daqueles que lutavam pela liberdade na América Latina, África do Sul e na antiga União Soviética, inclusive me apresentando para Václav Havel durante a Revolução de Veludo na então Tchecoslováquia e cantando para os cidadãos da Sarajevo devastada pela guerra.
Neste fim de semana, estarei me apresentando em mais um show, o Power to the People Festival (Festival poder para o povo, em tradução livre), organizado pelo meu velho amigo Tom Morello e com a participação do incomparável Bruce Springsteen, que nos mostrou a todos como resistir aos tiranos. Buscaremos usar o poder da música e da ação coletiva para inspirar a mudança que é tão urgentemente necessária neste momento.
Como país [Estados Unidos], percorremos um longo caminho rumo à liberdade e à justiça, mas certamente não o suficiente. Agora, mais do que nunca, precisamos de resistência e ação.
Juntos, podemos defender os imigrantes e todos aqueles que são alvo do ICE, especialmente as crianças que foram separadas de suas famílias e enfrentam incertezas enquanto estão sob custódia, sem apoio e representação legal. Juntos, podemos exigir o retorno do Estado de Direito e rejeitar a politização dos tribunais. E diante do poder desenfreado e da corrupção dos oligarcas, podemos nos manifestar com veemência contra a concentração do poder executivo (Chega de reis!) e protestar contra a militarização de nossas cidades.
Me sinto encorajada pela resistência de tantos. Apesar do espaço cada vez menor para a liberdade de expressão, de palavra e de imprensa, em todo o país as pessoas estão se manifestando e protestando por aqueles que não podem — mesmo quando isso significa sair de suas zonas de conforto ou temer serem notadas ou enfrentarem consequências por seus atos.
Tanto nos estados republicanos quanto nos democratas, vejo diariamente filas de pessoas com seus cartazes criativos escritos à mão, denunciando a crueldade, a injustiça e a desigualdade que enxergam. Isso me anima porque me ajuda a acreditar na bondade que existe em todos nós. Me anima porque fortalece minha determinação de continuar me manifestando. E me anima porque me ajuda a encontrar espaço e serenidade para cantar e dançar, mesmo enquanto a tempestade ao nosso redor se intensifica.