Penelope Lowenstein se formou recentemente na famosa New York University. Alguns dos seus colegas de turma devem estar pensando agora no que o futuro lhes reserva e quais as opções no mercado de trabalho. Quanto a ela, o plano imediato é um show em festival de grande porte no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
A americana de Chicago é guitarrista, baixista e vocalista do Horsegirl, uma das bandas de indie rock mais badaladas dos Estados Unidos — e atração do C6 Fest 2026 no próximo sábado, 23, às 14h40, na Tenda MetLife. Neste e em outros dias de evento, também se apresentam Robert Plant, The xx, Cameron Winter, Beirut, entre outros.
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, Penelope, de 21 anos, revelou como visitar o país era um desejo antigo:
"Sinceramente, o Brasil é o lugar que mais quero visitar no mundo desde criança. Essa será a primeira vez que vou pro país e estou super empolgada. Esse show é algo muito grande para gente."
A paixão pelo Brasil não para por aí. A musicista também revelou sua paixão pela cultura local. Durante a pandemia — quando o Horsegirl ainda era um nome internacionalmente desconhecido —, Penelope chegou a ter aulas de violão clássico com o cantor e compositor Sessa. Além disso, ela se revelou muito fã da autora Clarice Lispector:
"Ela é muito popular por aqui agora. Ela está tendo um momento, acho, então tive uma pequena obsessão pela obra dela. Acho que ela só foi traduzida pra inglês recentemente, ou coisa assim, porque quando comecei a faculdade, ela teve uma explosão. Ela e o [Roberto] Bolaño estouraram nos Estados Unidos ao mesmo tempo."
Amadurecimento
A passagem do tempo é chave para compreender o estado atual do Horsegirl. A banda despontou online em 2020 graças a seu EP de estreia, Horsegirl: Ballroom Dance Scene et cetera. O primeiro álbum de estúdio, Versions of Modern Performance (2022) trazia consigo muita influência de rock alternativo dos anos 80 e 90, como Breeders, Yo La Tengo e Sonic Youth.
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O trabalho foi lançado pouco antes de Penelope e a outra vocalista/guitarrista/baixista do Horsegirl, Nora Cheng, saírem de Chicago para cursar a NYU. Anos depois, quando a banda se reuniu para trabalhar no disco sucessor, as integrantes — Penelope, Nora e a baterista Gigi Reece — estavam mais interessadas em despir as camadas de distorção e feedback da estreia.
Lowenstein descreveu como isso foi consequência de diversos fatores, mas principalmente mudança normal da idade:
"Quando compomos nosso primeiro álbum, a gente não tinha um contrato de gravação. Éramos crianças tocando num porão. Nosso foco era cativar o público em cima de um palco. Foi um disco composto para tocar para outros jovens em shows amadores, o que meio que explica a nossa atração por barulho na época. Era uma questão de ocupar espaço com som. Quanto ao segundo trabalho, a gente teve a experiência muito incomum de sair em turnês longas super jovens. Acho que isso fez a gente tirar esse instinto do nosso sistema. Sem falar que nossos hábitos de escuta mudaram. Acho que entre as idades de 17 e 21 você rejeita a música que amou durante o colégio. Então tinha aquele instinto natural de pensar: 'Ok, a gente não quer fazer outro álbum barulhento'."
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O resultado, Phonetics On and On (2025), é um disco reminiscente de artistas como Velvet Underground, Syd Barrett, The Raincoats e Television Personalities, nomes responsáveis por moldar a estética do indie rock, punk e pós-punk nos seus primórdios. Em resumo, o Horsegirl procurou quem influenciou suas influências.
Sem falar que apostar num som mais limpo — enquanto seus contemporâneos tocam shoegaze — demonstra uma confiança enorme na própria música. Penelope discutiu como isso vem do fato das integrantes enxergarem nesse trabalho um retrato mais completo delas, seja em termos de indivíduas e banda:
"Não estou surpresa por termos mudado tanto. Acho também que nos tornamos mais capazes de compreender melhor nossas próprias sensibilidades. Acho que o segundo álbum parece mais sincero, ao meu ver. Nós estávamos tocando juntas há mais tempo àquele ponto. Então foi como se estivéssemos encontrando uma linguagem compartilhada nossa em comparação ao primeiro disco, que foi a gente processando como tocar juntas, o que gostamos de ouvir. Dessa vez foi mais: 'O que nós três temos para falar?'"
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Aprendizado
Uma pessoa que Penelope dá crédito por auxiliar o Horsegirl nesse processo de autodescoberta é Cate Le Bon, produtora de Phonetics On and On. A galesa — que nos últimos cinco anos trabalhou com artistas de renome como Wilco, Kurt Vile, Devendra Banhart e Dry Cleaning — foi fundamental para incentivar a criatividade das integrantes:
"Eu não fiz conservatório de música ou coisa assim, mas considero minha experiência com ela uma das melhores aulas magnas que já tive em composição, arranjos e criatividade em geral. É uma daquelas coisas difíceis de ensinar, mas acho que o papel de um produtor bom é criar um ambiente criativo no estúdio em que compor ainda parece uma opção."
A banda chegou no estúdio com o material do álbum finalizado, mas Le Bon desafiava as integrantes ao longo das gravações a mudarem sua abordagem quando necessário. A musicista reconheceu a dificuldade de não ficar defensiva nessa situação, mas a crítica construtiva oferecida pela produtora nunca parecia limitar o processo criativo do grupo.
Além disso, a experiência abriu os olhos do Horsegirl para a ideia de usar mais o estúdio no processo de gravação. O trio vinha de uma mentalidade lo-fi e as lições de Cate ecoam até hoje, enquanto o sucessor de Phonetics On and On toma forma, de acordo com Penelope:
"Foi um ambiente bem lúdico, de um jeito que nunca tinha visto antes e agora que estamos compondo o terceiro álbum, o tanto que lembramos das coisas aprendidas com a Cate o tempo inteiro no estúdio é incrível."
https://www.youtube.com/watch?v=oLmxqJ_mRGI&list=RDoLmxqJ_mRGI&start_radio=1&pp=ygUOaG9yc2VnaXJsIDIwMjWgBwE%3D
Quanto ao próximo álbum, Lowenstein não quis definir a sonoridade. Entretanto, ela afirma que a banda está mais em paz com seu passado hoje em dia em comparação a quando começaram a gravar seu segundo disco:
"Não acho que estou mais na posição de querer rejeitar meu último trabalho, algo que eu acho fez parte da experiência de ir da adolescência aos 21 anos. Acho que a gente aprendeu muito com a Cate a ponto da gente continuar a evoluir. Nós todas da banda moramos juntas agora. Então tem novos níveis de proximidade e nossas dinâmicas sempre mudam entre álbuns."
Cena que cresceu
O Horsegirl se tornou talvez o maior símbolo de uma cena DIY de Chicago batizada Hallogallo, em homenagem a uma música da banda pioneira de krautrock Neu!. Esse grupo de amigos — formado ainda pelos integrantes do Lifeguard, Sharp Pins e Friko — ganhou notoriedade online por combinar elementos de pós-punk, rock alternativo e psicodelia dos anos 1960.
Logo, músicos de todos os Estados Unidos se mudaram para a cidade, em busca não só da promessa de sucesso, mas da possibilidade de encontrar pessoas com as mesmas ideias musicais. Quando questionada sobre o impacto que sua roda de amigos teve na cena musical da cidade, Penelope expressou sua felicidade:
"Acho incrível encontrar outros jovens que falam sobre ver o que a gente estava fazendo quando criança e se sentirem inspirados por isso. Isso me deixa comovida porque éramos tão pouca gente. Às vezes você precisa inventar uma cena assim para poder existir. A gora, eu volto pra casa e encontro pessoas que se mudaram para Chicago porque viram a gente. Isso é tudo que a gente desejava, porque nós queríamos mais amigos que gostam da mesma coisa que a gente."
Tal impacto é ainda mais especial para Lowenstein, considerando o fato da Hallogallo ser formada originalmente por um círculo muito pequeno de amigos. Um dos integrantes do Lifeguard é o irmão dela, Isaac, que começou tocando com o Horsegirl e depois formou sua própria banda, mais puxada para pós-punk barulhento. Desse grupo, por sua vez, saiu o Sharp Pins, projeto solo do vocalista e guitarrista Kai Slater. Friko acaba sendo o grupo mais afastado do núcleo apenas porque não tem integrantes em comum com os outros. Apesar disso, o cantor Niko Kapetan foi engenheiro de um dos primeiros singles do Horsegirl, "Ballroom Dance Scene". Esse espírito de colaboração continua até hoje, espalhado pela cidade de Chicago.
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