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Héloa quer ressignificar o sertão brasileiro em 'ÁRIDA': 'Resistência e cultura'

Cantora sergipana se aprofundou numa "investigação do DNA ancestral" para construir um mosaico das referências afro-indígenas e árabe-africanas em novo álbum

8 out 2026 - 15h15
Resumo
A cantora e compositora sergipana Héloa lança o álbum "ÁRIDA", terceiro de sua trilogia ancestral, que desconstrói estereótipos de escassez ligados ao sertão para exaltar sua riqueza e resistência cultural. Com direção musical compartilhada com Yuri Queiroga, o disco une influências afro-indígenas a ritmos como forró, rap e afrobeat. Marcado pela criação coletiva, o projeto traz parcerias com nomes como Luedji Luna e Tiganá Santana, integrando música, identidade visual e saberes tradicionais.

Héloa quer ressignificar o sertão brasileiro. A cantora e compositora sergipana lança, nesta quinta, 8, seu álbum ÁRIDA, que busca desconstruir o imaginário do sertão associado à seca, à escassez e à falta.

Héloa
Héloa
Foto: Divulgação/Mavi / Rolling Stone Brasil

"Nasci no litoral, mas sempre tive uma conexão com a história dos meus antepassados", explica a artista. O disco investiga influências afro-indígenas e árabe-africanas que atravessam a formação cultural do país.

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Quando começo a caminhar por territórios [interioranos, sertanejos e ribeirinhos], eu começo a ver a vida que há nesses lugares. 'Aridez' no dicionário é algo seco, sem vida, e acho muito injusto designar o semiárido brasileiro, que tem tanta riqueza. Existe um projeto pensado para se olhar pro Nordeste com esse estereótipo da secura, da tristeza, mas em meio a tudo isso, floresce muita resistência e cultura.

Segundo Héloa, o álbum é o terceiro de uma trilogia iniciada em Opará (2019) e continuada em yIDé (2022). "É meu caminho dentro da da investigação desse DNA ancestral, e a partir dos meus processos no candomblé, das minhas caminhadas para as aldeias indígenas", explica. "Foi uma descoberta muito profunda, porque eu saí de Sergipe para [São Paulo] e depois voltei para Sergipe entendendo que era lá onde estava meu caminho na música".

A artista descreve o semiárido e a Caatinga como territórios que "potencializam uma tecnologia ancestral" — saberes e técnicas que permitam que a vida resista em harmonia com a natureza. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Héloa entrou em detalhes sobre os aspectos sonoros, visuais e a coletividade essencial de seu novo álbum.

Um passeio por diversos ritmos

O ritmo de ÁRIDA é marcado pelos sons dos terreiros de Candomblé e das aldeias indígenas. Mesclando elementos do forró, baião, rap, xaxado, afrobeat e reggae — o álbum incorpora instrumentos como tambores, pífano e djembê com beats eletrônicos e samples —, Héloa ressalta que buscou construir uma espécie de "mosaico" da diáspora africana.

"O povo [indígena Sabuká] Kariri-Xocó, a matriz da minha família, tem uma sonoridade muito forte, os rojões, os torés, que são cantos aguerridos", explica. "Boa parte dos meus discos têm composições minhas, mas também tem cantos coletivos".

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Héloa destaca a contribuição do produtor Yuri Queiroga no processo criativo. "Ele caminhou junto comigo, então foi muito fácil entender a sonoridade que eu queria, junto com a pesquisa dele também". Os dois, juntos, são responsáveis pela direção musical do álbum.

Entendemos que essa diáspora é muito vasta, e tentamos passear pelo máximo de ritmos que a gente poderia contemplar para criar essa colcha de retalhos.

Criação coletiva

Em todos os seus trabalhos, Héloa mantém como princípio a coletividade. Ela explica que a criação compartilhada da arte abre possibilidades que não existem em um processo individual. "A palavra 'solo' não dá conta de explicar a história de nenhuma carreira", opina.

Eu venho de uma tradição de coletividade, sou mulher candomblecista, de retomada indígena, lugares onde o fazer coletivo está muito na forma de compor, de pensar. [...] A inspiração está nos lugares por onde você passa.

Na composição de ÀRIDA, a artista tem parcerias com Tiganá Santana, Jorge Du Peixe, Liu Kid, Yuri Queiroga e Souto MC. As faixas tem como colaboradores Mestrinho, Souto MC, Maestro Spok, Luedji Luna, Cauê Silva, Tiganá Santana, Jorge Du Peixe e o grupo indígena Sabuká Kariri-Xocó.

Árida tem um lugar de afeto com as histórias compartilhadas.

"Dança N'kisi Dança", o primeiro single lançado do projeto, é uma parceria com o artista angolano Liu Kid e a brasileira Luedji Luna. A música celebra o Candomblé e ressalta a presença dos vocábulos angolanos no português falado no Brasil, convidando o público ao movimento e à dança coletiva.

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"Muitas das palavras que estão ali são de origem banto", afirma Héloa. "E tenho uma proximidade muito grande [com a Luedji], desde que chegamos juntas na cidade de São Paulo. É uma parceira já de composição de outros tempos".

https://www.youtube.com/watch?v=DULHkqZxMj4

Héloa também destaca a parceria com Jéssica Areias em "Louva a Deusa". "[Jéssica] tem uma pesquisa sobre as línguas bantas, incorpora isso na sua forma de cantar, e também tem uma musicalidade muito pulsante", explica.

Além da afinidade artística e da pesquisa sobre ancestralidade, a cantora explica que construir música junto com outras mulheres é muito importante. "'Louva a Deusa' é pra louvar esse feminino, esse encontro entre mulheres de lugares e culturas diferentes".

https://www.youtube.com/watch?v=XsAo_G36_eI

A faixa "Acenda Essa Fogueira", por sua vez, ganhará um videoclipe gravado na própria aldeia Kariri-Xocó. "Já tenho outros clipes gravados em meio à Caatinga, com a sonoridade dos pássaros, isso é algo muito presente no Árida. Para que a pessoa tenha a dimensão do que é essa vivência, eu acho que o território precisa estar sendo visto além de ouvido".

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https://www.youtube.com/watch?v=-VeQ1VkDWsU

O álbum conta também com releituras marcantes: "Flor de Mandacaru" (Chico César), "Charles Ilê" (Carlinhos Brown) e "De Amor Eu Morrerei" (Dominguinhos e Anastácia).

Visualidade

Filha de mãe cientista social e pai músico, Heloá é formada em Artes Visuais e explica que cresceu cercada pelo teatro e pela cultura popular. "Nada se separa. A cultura popular é visual, é música, é território, é política", ressalta.

A cantora afirma que seu processo criativo nasce muito das imagens e da escuta. "É um processo que vem tudo junto, e eu acho que o movimento é algo muito inspirador para mim, observar pessoas, caminhar pelas ruas".

Para a identidade visual do disco, o estilista sergipano Althair Santo criou o "Manto Árida", inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário. A criação do figurino foi concebida a partir da pesquisa realizada por Héloa, que assina a direção artística e criativa de todo o projeto.

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Esse manto foi todo feito à mão, tem várias palavras costuradas das músicas, das referências, dessas etnias, desses povos. Botões, bordados, tudo isso que representa a nossa ancestralidade.

Héloa também é diretora e condutora de Originários, primeira série documental indígena de Sergipe, ao lado da diretora e produtora Daniella Hinch. O projeto de 6 episódios apresenta histórias narradas a partir do ponto de vista dos próprios povos originários e das aldeias que resistem no estado, cruzando as realidades contemporâneas com saberes ancestrais.

Muitos dos sons e das músicas foram extraídos desse território, vão estar também na série e no álbum, então é um [diálogo constante] entre imagem e som.

Ao vivo

ÁRIDA será acompanhado por apresentações em São Paulo, Piracicaba e Rio de Janeiro. No ao vivo, a cantora pretende incorporar a coletividade do disco. "A minha movimentação no palco busca trazer toda essa sutileza e essa delicadeza, olhar para esse lugar composto por várias mãos", afirma. "Vai ter dança, balé, é um show para trazer essa pulsação do fazer coletivo e da nossa tecnologia maior".

Ela deseja que todos os ouvintes se convidem a olhar para o Brasil com outros olhos. "ÁRIDA é um convite a se despir do estereótipo, e se libertar para viver um Brasil profundo, repleto de muita tecnologia ancestral a ser ensinada a quem nunca viveu", relata. "Qualquer imaginário que tenha sido criado nunca vai ser capaz de contar a história de quem vive o território. Pisar no chão é importante".

O lançamento de ÁRIDA, contemplado pelo Edital de Fomento à Música para a Cidade de São Paulo, será acompanhado por uma agenda de apresentações. Confira a seguir:

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Agenda de lançamento - ÁRIDA

11 de outubro - Festival Curau (Piracicaba/SP)

18 de outubro - Show de lançamento de "ÁRIDA" - CCSP (São Paulo/SP)

20 de outubro - Sesc Copacabana (Rio de Janeiro/RJ)

22 de outubro - Sesc Ramos (Rio de Janeiro/RJ)

23 de outubro - Sesc Nova Iguaçu (Nova Iguaçu/RJ)

24 de outubro - Sesc Quitandinha (Rio de Janeiro/RJ)

30 de outubro e 06 de novembro - Festival Rock The Mountain (Itaipava/RJ)

Rolling Stone Brasil
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