Oferecimento

Ringo Starr volta a estádio de Nova York pela primeira vez desde a Beatlemania, em 1964

"É ótimo estar de volta", brincou Ringo, com sua habitual ironia, para o público, que incluía vários fãs que o viram tocar no local com os Beatles 62 anos atrás

3 out 2026 - 14h56
Resumo
Ringo Starr retornou ao Forest Hills Stadium, em Nova York, apresentando-se no local pela primeira vez desde a Beatlemania em 1964. Acompanhado pela All Starr Band — com integrantes do Toto, Men at Work e Average White Band —, o músico de 86 anos exibiu vigor na bateria e nos vocais. O repertório reuniu clássicos solo, sucessos dos Beatles cantados por ele e hits dos convidados, marcando um reencontro nostálgico com o estádio histórico onde tocou no auge da Beatlemania.

Em 29 de agosto de 1964, os Beatles fizeram o segundo de dois shows consecutivos no Forest Hills Tennis Stadium, encerrando alguns meses movimentados no espaço ao ar livre do Queens, em Nova York, que também recebeu apresentações de Barbra Streisand, Harry Belafonte com Miriam Makeba, Joan Baez com o convidado surpresa Bob Dylan, Johnny Mathis com Peter Nero e um inusitado show triplo com Trini Lopez, Count Basie e Woody Allen.

Ringo Starr, lendário baterista dos Beatles, em show no Forest Hills Stadium, em Nova York
Ringo Starr, lendário baterista dos Beatles, em show no Forest Hills Stadium, em Nova York
Foto: Astrida Valigorsky/Getty Images / Rolling Stone Brasil

The Bill Black Combo, The Exciters, The Righteous Brothers e Jackie DeShannon abriram para os Beatles, mas foram ignorados pela maior parte da imprensa — que se concentrou exclusivamente no pandemônio que tomou conta do local durante os 25 minutos de apresentação do quarteto.

Publicidade

"Um público de mais de 15 mil pessoas, em sua maioria garotas adolescentes, gritou em aprovação", escreveu Robert Shelton em uma reportagem sobre a primeira noite no New York Times. "Elas continuaram seus gritos frenéticos, quase histéricos, enquanto o quarteto cantava vários de seus sucessos fabulosamente populares. Era praticamente impossível ouvir o canto em meio aos gritos, que frequentemente chegavam ao limiar da dor. Seria imprudente avaliar a produção musical em uma situação como essa. O evento soava como um bando de rádios transistorizados tocando alto em uma arena de tourada."

O mundo passou por inúmeras mudanças nos 62 anos desde aquelas noites frenéticas no auge da Beatlemania, mas o interior do Forest Hills Stadium permanece praticamente idêntico. Isso deve ter provocado uma forte sensação de déjà vu em Ringo Starr quando ele voltou ao local pela primeira vez desde aquela época para fazer um show com a All Starr Band, em 1º de outubro.

"É ótimo estar de volta", brincou, com sua habitual ironia, após abrir a apresentação com o clássico "Matchbox", de Carl Perkins. "Mil novecentos e sessenta... [murmúrio confuso e arrastado] nós tocamos aqui, e aqui estou eu de volta, ainda fazendo isso, essa é a grande coisa. Estão prontos para se divertir? Estão prontos para ouvir música?"

Algumas músicas depois, ele voltou a falar com o público. "Nós tocamos aqui em 1964", disse. "Que show incrível foi aquele. Fiz uma música lá, e vou fazer a mesma música, já que a toco todas as noites, desde antes mesmo daquela banda em que vocês estão pensando. Na [minha banda pré-Beatles] Rory and the Hurricanes, comecei a tocar essa música."

Publicidade

https://www.youtube.com/watch?v=YnCFd_gV8Vg

Ele se referia ao clássico de 1960 das Shirelles, "Boys", que de fato faz parte de seu repertório ao vivo desde os primeiros anos do governo de John F. Kennedy. Foi a única música repetida do show de 1964, já que Ringo não pretendia tocar "All My Loving", "I Want to Hold Your Hand", "She Loves You" ou mesmo os covers de "Twist and Shout" e "Long Tall Sally".

Seguindo a tradição de todos os shows da All Starr Band desde a primeira turnê, em 1989, as músicas dos Beatles ficaram limitadas a faixas como "Octopus's Garden", "Yellow Submarine", "I Wanna Be Your Man" e "With a Little Help From My Friends", que Ringo originalmente cantou. (Esperamos em vão há 37 anos pela estreia ao vivo de "Good Night". A esta altura, provavelmente isso nunca vai acontecer.)

https://www.youtube.com/watch?v=q9QFWXyFhNA

Durante a maior parte da história dessas turnês, Ringo montava uma nova formação de All Starrs a cada edição. Em um verão, era possível vê-lo ao lado de Randy Bachman, do Guess Who, John Entwistle, do Who, Mark Farner, do Grand Funk Railroad, Billy Preston e Felix Cavaliere, dos Rascals; no ano seguinte, Peter Frampton, Gary Brooker, do Procol Harum, Jack Bruce, do Cream, e Simon Kirke, do Bad Company. Mas ele mantém Steve Lukather, do Toto, desde 2012; Colin Hay, do Men at Work, desde 2018; e Hamish Stuart, do Average White Band, desde 2019.

https://www.youtube.com/watch?v=NbgRMhfsOXo

Publicidade

Eles se tornaram o mais próximo que Ringo teve de uma banda fixa desde os Beatles, e todos "passam o bastão" ao longo da noite, cantando seus três maiores sucessos. O resultado é um repertório fantasticamente surreal, no qual "Rosanna", do Toto, "Pick Up the Pieces", do Average White Band, e "Down Under", do Men at Work, são tocadas em sequência, com Ringo na bateria.

A essa altura, eles já dominam o repertório como uma ciência, e é um prazer ver Hay ajudar Lukather nas partes agudas de "Africa" ("It's gonna take a lot to drag me away from you/There's nothing that a hundred men or more could ever do"), enquanto Stuart canta alegremente junto em "Who Can It Be Now?" e "Hold the Line".

https://www.youtube.com/watch?v=bW-ex17JbCQ

Starr está a apenas quatro anos de completar 90 anos, mas tocou bateria em praticamente todas as músicas que não cantou como vocalista principal e, de alguma forma, ainda teve energia para fazer polichinelos ao fim de "With a Little Help From My Friends" antes de sair correndo do palco e voltar para cantar uma coda de "Give Peace a Chance", de John Lennon. Os cientistas deveriam estudar Starr para descobrir os segredos da longevidade.

Em 1964, até mesmo um crítico relativamente esclarecido como Robert Shelton — que teve papel fundamental na apresentação de Bob Dylan a um público nacional três anos antes — era cético em relação aos Beatles. "A capacidade dos Beatles de influenciar, manipular e hipnotizar um público imaturo foi comprovada", escreveu em sua crítica do show no New York Times. "Eles criaram um monstro em seu público. Se têm alguma preocupação além do dinheiro que estão ganhando, deveriam se preocupar em controlar seus públicos antes que essa histeria fabricada alcance proporções incontroláveis."

Publicidade

Aquela histeria já desapareceu há muito tempo, embora o público gritasse sempre que Ringo pegava o microfone e uma senhora de cabelos brancos sentada perto da frente — balançando um enorme cartaz para mostrar que estava lá em 1964 — tenha dançado por duas horas seguidas ao som da música. Não havia nada de "fabricado" na reação dela àquela música em 1964, 2026 ou em qualquer momento entre os dois anos. Algo fundamental em nosso mundo mudou quando os Beatles chegaram em 1964, e suas reverberações continuarão para sempre.

Para Ringo, enquanto isso, foi apenas mais um show. Agora ele segue para Portland, no Maine, para a próxima apresentação. Ele faz isso há mais tempo do que boa parte do público do Forest Hills estava viva e estará em algum lugar tocando "Boys" depois que todos nós tivermos partido.

Rolling Stone Brasil
Fique por dentro das principais notícias de Entretenimento
Ativar notificações