Amala Ratna Zandile Dlamini, a Doja Cat, mergulhou de cabeça nos anos 1980 em seu último álbum, Vie. O disco encabeça sua atual turnê, a Ma Vie World, que teve sua única apresentação em São Paulo, no Suhai Music Hall, nesta quinta, 5.
Sem apelo, Doja não conseguiu esgotar nenhum dos setores da apresentação. A organização chegou até a fazer uma espécie de "saldão" de ingressos, com 60% de desconto.
É fato que o caminho do rap feminino, no Brasil e no mundo, é tortuoso, mas também é fato que Vie não gerou nenhum mega hit para Doja, a mesma dona de Kiss Me More e Say So. É um de seus melhores álbuns - e deve arrebatar algumas indicações ao Grammy no ano que vem -, mas a cantora parece tê-lo lançado mais para abraçar sua fama de "celebridade relutante", tentando romper com o que já havia feito antes, do que para de fato inaugurar uma identidade.
Vie usa e abusa de saxofones, grooves e sintetizadores - marca registrada de Jack Antonoff, um dos produtores. E, durante o show, Doja e sua banda usam e abusam de colãs, meia calça pink e mullets.
No palco, a cantora assume um ar de Madonna, com sobreposição de lingeries, com postura de Prince e Janet Jackson. As referências são boas, mas, sem uma narrativa bem definida, a apresentação parece mais um simulacro dos anos 1980 do que apenas Doja bebendo da fonte dos que vieram antes.
O setlist começa com o solo de saxofone de Cards, uma das melhores do último álbum, e um ato com todas as músicas - e até sucessos mais antigos da cantora, como Kiss Me More - com arranjos à la anos 80. Doja não deixa de lado suas marcas registradas: os olhos arregalados para se comunicar com a plateia, a ironia e as danças provocantes.
E é indiscutível que a cantora se sai muito melhor quando é ela mesma. Impressiona com coreografias exigentes e com sua habilidade de migrar de vocais mais pop para a cadência do rap.
Mais perto da reta final do show, há uma sequência arrebatadora de Wet Vagina, WYM Freestyle, Demons e Tia Tamera. As três primeiras de um de seus álbuns com mais rap e letras afiadas, Scarlet (2023).
Nesse trecho, o melhor do show, os graves da caixa de som batem em sincronia com as luzes da apresentação. E Doja parece mais à vontade, ora com coreografias sexies no chão, ora com uma linguagem corporal de quem parece estar "possuída". Nada, porém, combina com a caracterização anos 1980.
Ela volta à época com AAAHHH! MEN! e retorna ainda mais atrás, em 1967, em um cover de I'm a Man, do Spencer Davis Group. Em seguida, encaixa outro sucesso explosivo, Boss Bitch.
A cantora encerra o show com Jealous Type, single do último álbum. Chega a dar bronca em alguém da plateia por um momento de confusão após jogar uma bandeira do Brasil no público.
O show acaba, mas ela segue no palco. Tudo para distribuir rosas aos presentes, no mesmo estilo Roberto Carlos - coincidentemente, alguém que teve lá sua contribuição para os anos 1980 no Brasil. Quem sabe até Doja achasse engraçada a semelhança.