No festival C6 no Rock, a formação atual dos Titãs, reduzida a Sergio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello, apresentou na íntegra o clássico álbum "Cabeça Dinossauro". Embora o trio demonstre superação pessoal diante de recentes problemas de saúde, o show evidenciou a fragilidade do grupo sem os membros originais. Com arranjos desajustados e vocais limitados, a performance não fez jus ao peso histórico da obra, restando a Britto a tarefa de sustentar a apresentação.
O Titãs, em 2026, é uma banda frágil e aquém do que foi. O show realizado neste sábado, 22, no festival C6 no Rock, em São Paulo, foi prova disso e dizer o contrário seria mentir para os fãs e ser injusto com a história da melhor banda de rock do Brasil.
Sem o talento e a presença de palco dos ex-integrantes Nando Reis, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos (sem esquecer do baterista Charles Gavin, diga-se, e do saudoso Marcelo Fromer, que morreu em 2001), a versão atual do grupo é um pastiche. Para impor mais dificuldades a esse cenário desfavorável, os remanescentes Sergio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello decidiram fazer uma turnê comemorativa tocando na íntegra o emblemático e fundamental LP Cabeça Dinossauro (1986).
Eles subiram ao palco montado no Parque Ibirapuera após uma introdução que mostrava o documento de censura do governo militar sobre a música Bichos Escrotos, uma das faixas do disco. O registro foi mostrado a eles pelo Estadão durante uma entrevista realizada em março. Embora o País vivesse um período de transição democrática em 1986, as leis de censura ainda estavam vigentes.
E, claro, foi uma bem pensada abertura para o disco que chocou a sociedade brasileira ao protestar contra o establishment e suas diversas instituições: a igreja, a família, a polícia, o Estado violento, as dívidas e os homens retrógrados - "primatas" e com "cabeça de dinossauro, pança de mamute e espírito de porco". Exatamente pela contundência das letras, o álbum permanece vivo e relevante.
Bellotto e Mello enfrentaram duros tratamentos de saúde contra o câncer e merecem toda admiração por isso. Quem foi ao show esperando o Titãs das últimas décadas, porém, não encontrou. Se, por um lado, o trio não reproduz mais o ímpeto que a obra dos Titãs pede, por outro eles dão exemplo pessoal de superação - cantando, apesar das dificuldades, tocando e levantando fãs que acompanham a banda desde os tempos de formação completa.
Bellotto, que nunca foi cantor, precisou assumir os vocais em Família e Estado Violência - em ambas, algo estava fora da ordem. Mello, que perdeu a voz por causa do tumor na garganta, se esforçou muito para entoar Flores, não pertencente ao Cabeça.
Até mesmo o hino Bichos Escrotos, recentemente assassinado por Anitta, foi dizimado outra vez. O arranjo estava estranho e a banda desajustada. Outra versão que deixou a desejar foi de O Que, poema concreto de Arnaldo Antunes que perdeu todo o seu groove e apelo.
Os demais músicos de apoio, incluindo Beto Lee, o guitarrista que é filho de Rita, cumprem um papel burocrático. Fica a cargo de Britto, portanto, carregar o show nas costas e empolgar a plateia. No fim das contas, ficou a impressão de que ninguém no palco estava muito à vontade com o que estava acontecendo.
O C6 no Rock vai até domingo, 23, e tem ainda apresentações de Paralamas do Sucesso, IRA! e Marina Lima, entre outros, cantando discos emblemáticos, além de homenagens a Rita Lee e Cazuza.