As noites de quarta-feira da Rolling Stone Sessions nunca mais serão iguais sob o olhar e a ação inclusivos de Amabbi. A cantora e compositora apresentou Crisálida ao vivo em nossa residência no Blue Note São Paulo. O que começou como uma performance marcada por colaborações com Clara Lima (em "Prólogo"), Clau ("Epílogo"), Cynthia Luz ("Romance de Fevereiro"), Day Limns ("Primeira Classe"), Elana Dara ("Alô? É Você"), Freeda ("Ficção"), Manocchio ("Atemporal"), Yoún ("Do Que É Feito o Amor"), NP Vocal e Bernardo, seu sobrinho, tornou-se um manifesto colaborativo que expandiu, diante de nós, a força da união e remeteu ao fato de estarmos no espaço sagrado do improviso bem-vindo de um clube de jazz. Não que ela tenha improvisado, mas naturalizou sua vulnerabilidade e se divertiu seguindo o caminho que a tirou da feira onde costumava vender pastel, como relembrou.
Em pouco mais de uma hora, ela comandou um festival com a essência sensorial de uma veterana e a leveza de sua própria novidade aos 22 anos. Seu poder de mobilização real e sua despretensão povoaram um set lotado, marcado por encontros de amigos que acrescentavam o peso subjetivo que sua história já carrega. À nossa frente, estava a máxima de que, quando você se levanta, leva também os seus. A música ali era uma crônica viva que o público nem sabia que precisava ouvir. Como se Versos e Voos, seu solar trabalho de estreia oficial, evoluísse para uma transição contemplativa, questionadora e profunda, mas ainda palpável em seus versos documentais.
A noite contou com participações afetivas de Sade (em uma versão de vocal poderoso para "Smooth Operator"), Lauryn Hill (em "Doo Wop"), Erykah Badu e Jahmal Cantero (em "On & On"), além de Nana Caymmi (sampleada em "Prólogo") e Art Popular (em "Atemporal").
Amabbi gravita entre o rap e o R&B, fundindo-os de forma genuína e original à trilha afetiva de sua família, que vai de Alcione ao Art Popular ("Temporal" é um hit que seu pai cantava nos karaokês). Ela transcende esse passado à medida que constrói um manifesto multigeracional sobre visibilidade e representatividade — com tanta força que nos dá a certeza de que precisamos absorver essa visão imediatamente e agir a partir dela. De carisma inegável, Amabbi desperta a vontade de viver na trilha sonora de sua vida, como vimos nas reações do público. Ousamos dizer que é um dos maiores nomes do rap nacional surgidos nos últimos tempos. "E que ninguém reclame do seu apogeu", parafraseando o Art Popular.