Malu Galli fala sobre a maternidade como aprendizado e estrelará "Mulher em Fuga", peça baseada na obra de Édouard Louis, enquanto concilia novos projetos teatrais e cinematográficos.
Malu Galli, de 54 anos, não teve férias. A atriz carioca encerrou em outubro as gravações da novela Vale Tudo, da Rede Globo, e engatou, dias depois, os ensaios do espetáculo Mulher em Fuga, que estreia nesta quinta, 15, no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, em São Paulo.
Sob a direção de Inez Viana, a peça é uma dramaturgia construída por Pedro Kosovski em cima dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, do autor francês Édouard Louis, de 33 anos, um dos principais expoentes da literatura autoficcional.
No palco, Malu interpreta Monique, a mãe do escritor, representado pelo ator Tiago Martelli, que também é o idealizador e conversava com a colega sobre a viabilização da montagem há dois anos.
A personagem sobrevive aos relacionamentos abusivos, à falta de oportunidades e às dificuldades na criação dos filhos em nome de uma redenção que não imagina de onde virá. Neste caso, veio da ascensão intelectual e social do filho, que se salvou pela vocação literária e ofereceu à mãe uma chance de futuro.
Com a experiência de quem faz teatro desde os 18 anos, Malu farejou a oportunidade rara e converteu o cansaço da televisão em estímulo para retornar à cena. "Existe um esgotamento físico, você imagina ficar um mês em uma praia, mas isto não é real e, como entrar em uma sala de ensaio é libertador, renovei as energias", afirma ela, que consolidou a carreira em espetáculos assinados por diretores expressivos, como Enrique Diaz e Christiane Jatahy. "É a história de uma mulher simples, reconhecível que, além de não realizar os sonhos, nunca recebeu nada pela dedicação aos homens que a rodeiam."
Entre o realismo e a poesia, as obras de Louis conquistam milhões de leitores mundo afora, e Mulher em Fuga é a segunda peça brasileira inspirada em seus textos. No ano passado, Eddy - Violência e Metamorfose, dirigida por Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com base nos livros O Fim de Eddy, História da Violência e Mudar: Método, estreou no Rio de Janeiro e deve chegar a São Paulo este ano. Além disso, o escritor vira ator e interpreta ele mesmo em Quem Matou Meu Pai, também baseada em sua autoficção. Com direção de Thomas Ostermeier, será apresentada em março na MITsp.
"A maternidade precoce, a interrupção dos estudos, a dependência econômica e o silenciamento progressivo são experiências de Monique que se repetem na trajetória de muitas mulheres brasileiras", justifica Martelli.
De tia Celina a Monique
Monique é o aposto da sofisticada Celina Junqueira, a irmã da empresária Odete Roitman (papel de Debora Bloch), defendida pela atriz em Vale Tudo, o remake que se tornou fenômeno midiático no ano passado. "Pela primeira vez, eu passei a ser chamada nas ruas pelo meu nome porque antes era tratada como a personagem", declara.
Maturidade é que não falta a Malu, que estreou na televisão somente aos 36 anos, chancelada pelo prestígio teatral, na minissérie Queridos Amigos (2008). "Fiz tantos testes lá pelos meus 20 e poucos anos e nunca rolou nada até que, quando desencanei, veio a oportunidade", conta. "Tenho orgulho dos meus trabalhos na televisão, dos colegas que conheci e nunca tive qualquer experiência traumática."
A maternidade como ponto em comum
Se existe um ponto comum entre Malu, Monique e Celina é a maternidade - mesmo que a personagem de Vale Tudo não tenha tido filhos, ela criou os sobrinhos Heleninha e Afonso (papéis de Paolla Oliveira e Humberto Carrão). Malu é mãe de Luiz, de 23 anos, que estuda cinema na Suécia, e aprende diariamente a controlar a saudade intensificada pela distância, algo que, em diferentes limites, sempre pontuou sua rotina.
"A profissão de atriz briga o tempo todo com a maternidade porque, muitas vezes, estamos presentes, mas exaustas, voltadas às personagens", assume ela, que é casada com o artista plástico Afonso Tostes. "Como mãe, a gente faz, erra e vai compensando, aprendendo a se perdoar para que possamos nos acolher."
Uma questão que Malu acha importante que os próprios colegas reflitam é sobre a idealização da imagem dos artistas, que costuma ser vendida pelas redes sociais e até se volta contra a categoria. "Todas nós, mulheres, já sofremos pressão da maternidade e ainda precisamos ter uma cabeça boa, parecer bonita e achar tempo para ler livros recém-lançados", diz. "Logo, devemos derrubar esse glamour da profissão porque, algumas vezes, vamos para a gravação bufando e preocupados em pagar nossos boletos."
Mallu Galli em 'Querido Mundo'
Diante de tantas demandas, Malu, porém, continua crente de que o bom trabalho é revigorante. Neste ano, ela lança o filme Querido Mundo, dirigido por Miguel Falabella, em que contracena com Eduardo Moscovis e lhe deu o Kikito de melhor atriz no Festival de Gramado, em agosto passado. "É um longa na contramão deste olhar realista do cinema brasileiro, mas que fala de assuntos urgentes, como violência doméstica, sob uma perspectiva poética", observa.
Mesmo focada na estreia de Mulher em Fuga, uma outra proposta teatral começa a ser desenhada para 2027 com a dramaturga Silvia Gomez, o diretor Gabriel Fontes Paiva e o ator Alejandro Claveaux sobre um embate entre adolescência e maturidade.
Um projeto, entretanto, que ronda a cabeça de Malu há cinco anos deve sair do papel em breve e renderá à intérprete uma grande protagonista nas telas. Trata-se de uma cinebiografia sobre Niède Guidon (1933-2025), a arqueóloga que transformou a luta pela preservação da Serra da Capivara, no Piauí, em missão de vida e, segundo a atriz, precisa ter seus feitos divulgados. "Já está claro que o homem e as cidades não deram certo, então, nós precisamos nos voltar para a natureza, e a Niède deve ser reconhecida porque abraçou a causa de forma quase mágica", diz. "Eu adoro a construção do sonho para que histórias sejam contadas e cheguem ao público."
Mulher em Fuga
- Sesc 14 Bis - Teatro Raul Cortez (Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista)
- Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h
- R$ 70
- Até 8 de fevereiro. A partir de quinta (15)