Imagem "cool" do Brasil impulsiona o cinema do país, diz Kleber Mendonça Filho

14 mar 2026 - 11h55

O diretor de cinema brasileiro Kleber Mendonça Filho não sabe exatamente o que transformou seu quarto longa-metragem, "O Agente ‌Secreto", em um sucesso global, mas suspeita que tenha a ver com a crescente percepção de que o Brasil é "cool".

O filme, um thriller político sobre um acadêmico fugitivo no Recife durante a ditadura nos anos 1970, já levou prêmios no Globo de Ouro e em Cannes e agora concorre a quatro Oscars, incluindo melhor filme e melhor ator. O êxito segue o impacto de "Ainda Estou Aqui", que no ano passado se tornou o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar.

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Em entrevista à Reuters por Zoom de Paris durante a temporada de premiações, Mendonça Filho comenta a recepção global ao filme, a evolução da indústria audiovisual brasileira e por que seu próximo desafio pode incluir dirigir uma produção no exterior.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza.

Como você explica o apelo global que o filme ⁠tem tido?

Eu acho que tem uma construção dos filmes que eu já tinha feito, como uma escada. Isso também me permitiu fazer o meu maior filme até agora, um thriller com um panorama humano e ‌histórico do Brasil. 

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Os desenvolvimentos políticos do Brasil chamaram atenção, e tudo isso ajuda a explicar a recepção ao filme. 

Além disso, ano passado tivemos o "Ainda Estou Aqui", que encantou e conquistou muita gente. E "O Agente Secreto" conta com um grande astro internacional, Wagner Moura, que vem do Brasil — um país que, acredito, está sendo muito admirado agora no cenário internacional.

Além do suspense, há também um componente distópico ou fantástico ‌em suas narrativas, como a cena da perna cabeluda atacando pessoas em "O Agente Secreto". Isso está relacionado aos estilos de ‌outros escritores latino-americanos, como García Márquez, Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar?

Eu, pessoalmente, tenho um fascínio pelo naturalismo, mas também me interesso muito pela fantasia — aquilo que vem do cinema, da ⁠literatura. Nunca pensei em Gabriel García Márquez, embora seja um grande admirador. Acho que quem leu "Cem Anos de Solidão" jamais consegue "desler". Talvez algo disso esteja embutido em mim, mas, francamente, não.

É muito raro abrir um jornal e encontrar uma história fantástica, como a "Perna Cabeluda" assustando pessoas no parque. Esses textos eram publicados abertamente, como uma forma de debochar da censura. A "Perna Cabeluda" era, na verdade, a polícia agredindo pessoas. Essa mistura do normal com o fantástico, do realismo com o extremo, é o que realmente me interessa.

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Seu filme parece coroar um momento muito produtivo para o cinema brasileiro. Desde que você começou a fazer filmes, como você viu esse caminho se desenrolar?

As políticas públicas tiveram um papel. No segundo mandato do (presidente Luiz Inácio Lula da Silva) Lula, começou-se a pensar em distribuir recursos públicos para apoiar produções ‌que não necessariamente viriam do Rio de Janeiro e de São Paulo. Se não fosse esse edital, eu não teria feito "O Som ao Redor" (2012). Hoje meu nome é estabelecido, mas as pessoas esquecem que comecei ‌fazendo um filme viabilizado por uma política de cotas.

É muito importante ⁠que novos autores estejam conseguindo mostrar seus filmes, porque ⁠vamos construindo uma visão de Brasil por meio do audiovisual — e isso é estratégico para o país. Gera emprego e também gera identidade.

O crescimento da indústria audiovisual brasileira é frequentemente comparado ao da Coreia do Sul, que ⁠possui um setor audiovisual muito forte. O Brasil poderia desenvolver algo semelhante?

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Vivemos em um país cuja Constituição garante o apoio à expressão ‌artística e à difusão. É muito inteligente apoiar manifestações artísticas, ‌sejam elas literatura, teatro, música, cinema ou o audiovisual.

A Coreia do Sul tem um investimento muito forte numa ideia de país que se expressa através do K-pop, dos filmes de cineastas como Bong Joon Ho, de Park Chan-wook.  

O fenômeno de um cinema brasileiro que representa o país é incrível. Eu acho que o filme, junto com "Ainda Estou Aqui" no ano passado, abriu um portal na cabeça das pessoas sobre o Brasil. Então tudo isso para mim é muito massa. 

Como foi o processo de coprodução com a Netflix? E qual o papel que as plataformas ⁠de streaming tem desempenhando na promoção do cinema brasileiro?

O Brasil precisa se equiparar a outros países e taxar as plataformas de streaming que operam no país. Elas têm enorme popularidade, lucram com a indústria local e, por isso, deveriam contribuir para a produção audiovisual nacional.

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Nós vendemos a estreia brasileira do filme no streaming para a Netflix. Ou seja, depois do circuito de cinema, ele será lançado na plataforma. Como realizador, alguém que defende a sala de cinema, é muito importante que isso só aconteça no quarto, quinto ou sexto mês de exibição na sala de cinema.

A Netflix tem sido uma boa parceira, nossas diferenças foram tratadas nesse acordo. Primeiro vem o cinema, segundo o cinema e terceiro, eu vou ficar muito ‌feliz quando ele entrar na Netflix, mas na hora certa. E gosto muito da ideia de que milhões de brasileiros que, infelizmente, não têm acesso às salas de cinema poderão ver o filme.

Quando você fala sobre "O Agente Secreto" lá fora ou com esses parceiros, você leva algum projeto debaixo do braço?

Esse próximo projeto será, mais uma vez, um filme que nasce de mim — algo ⁠para o qual vou precisar sentar, pesquisar e escrever. Mas também tenho dito que estou me mantendo muito aberto para encontrar uma ideia nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França pela qual eu possa me apaixonar.

Então você contaria uma história não brasileira?

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Sim, porque, quando conto as histórias que conto, há um elemento muito interessante do Brasil, mas isso não é minha primeira preocupação.

Cada filme é um desafio. O "Agente Secreto" foi um desafio que eu queria enfrentar: trabalhar com o Wagner, ambientar a trama nos anos 1970, revisitar a história do país e de Recife, evitar usar a palavra "ditadura" — tudo isso era, para mim, muito interessante.

Fazer um filme fora do Brasil é outro desafio que me atrai. Mas estou apenas conjecturando. A ideia precisa dar aquele clique.    

   Com o Oscar se aproximando, o que este momento representa para a indústria cinematográfica brasileira? E para você?

Este é um grande momento para o público brasileiro e para a indústria cinematográfica do país, porque o sucesso de "Ainda Estou Aqui", e agora de "O Agente Secreto", está muito relacionado a se ver na tela — e também a perceber que as imagens que vêm do Brasil estão ganhando muita projeção e prestígio no exterior. Tudo isso é meio mágico, porque acho que os brasileiros têm plena consciência de como o Brasil é um país "cool".

Temos mais de 60 personagens em "O Agente Secreto" e recebemos essa indicação tão especial de melhor elenco — um trabalho extraordinário feito por Gabriel Domingues — além das outras três indicações.

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Acho que há uma energia muito forte no Brasil em torno desse filme, sobre o que ele significa, sobre o passado do país, a ditadura e a violência. E, acima de tudo, sobre o amor e o afeto que fazem parte da história e que considero elementos essenciais de quem somos como povo. Somos um povo muito afetuoso, mesmo tendo de lidar com um país que é, ao mesmo tempo, lindo e feio, acolhedor e também violento. E o filme explora exatamente essas contradições.

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