Virginia Cavendish celebra 40 anos de carreira refletindo sobre personagens marcantes, a necessidade de jogo de cintura na profissão e a combinação de atriz e produtora para manter estabilidade financeira, valorizando liberdade criativa e bons projetos.
A atriz Virginia Cavendish, de 55 anos, completa 40 anos de carreira em 2026. Considerada uma referência do audiovisual, ela foi responsável por encarnar personagens marcantes ao longo das décadas, como Rosália, de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998); Inaura, de Lisbela e o Prisioneiro (2003); e Rosinha, de Auto da Compadecida (2000–2025), a qual, inclusive, revisitou há pouco nos cinemas devido ao lançamento da sequência.
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Natural do Recife, em Pernambuco, ela começou a trabalhar cedo com a dramaturgia. Aos 17, já integrava espetáculos e peças de teatro. Com quase 40 anos dedicados à sétima arte, acredita que dois fatores foram importantes para torná-la uma personalidade de sucesso: sorte e preparo. Na visão da artista, um trabalho só se concretiza quando as duas se encontram; um não funciona sem a presença do outro.
Para além da sorte e do preparo, ela também crê que é necessário ter ‘jogo de cintura’ para lidar com os altos e baixos da profissão. “A minha vida como atriz é muito ligada à minha vida como produtora. Eu falo que a minha carreira de atriz sozinha não paga as contas, mas a atriz e a produtora pagam”, disse Virginia Cavendish em entrevista exclusiva ao Terra.
Em papo exclusivo com a reportagem, a artista fez um balanço profissional de seu 2025, ano em que lançou filme e trabalhou no teatro; relembrou sua carreira no audiovisual de forma ampla e comentou sobre retorno à televisão aberta. Seu último personagem fixo foi em Gênesis (2021), da Record. A seguir, confira a entrevista na íntegra:
Terra: Em 2025, você revisitou uma personagem marcante, Rosinha. Como foi isso?
Virginia Cavendish: Foi muito um ano que eu trabalhei demais, não reclamando, obviamente. Foi o lançamento do Auto da Compadecida 2, que foi um marco na minha carreira, foi uma coisa muito emocionante, na verdade, retomar esse personagem tanto tempo depois. Foi um sonho realizado. Na verdade, eu nem imaginava que isso pudesse acontecer [ter uma sequência]. Essa personagem forte, segura, dona de si vem representando signos que me interessam muito na minha atualidade, de mulher independente, mulher que toma conta da sua vida, que não está vinculada a um amor romântico unicamente. Então, isso foi muito legal.
Terra: Você também esteve no teatro como Mary Stuart, certo?
Virginia Cavendish: A Mary Stewart é uma peça que eu venho levando desde 2022, é uma personagem que me fez crescer como atriz monumentalmente, porque é uma peça difícil de falar, de fazer, com intensidade, é uma tragédia gigante e eu tô vindo com essa peça desde 2022, que eu estreei no SESI aqui em São Paulo. É uma peça com um elenco grande, uma produção grande, e não é um musical, nem é uma peça de comédia ligeira, fácil de manter tanto tempo em cartaz.
E a gente completou agora, em 2025, a gente encerrou o Festival de Recife, fazendo 132 apresentações. É, portanto, um marco muito potente, grande. Eu fico muito feliz de ter conseguido levar todos os anos essa peça em cartaz. Como atriz, foi um privilégio ter um personagem tão desafiador, e manter a qualidade artística do espetáculo durante tanto tempo é muito maravilhoso.
Terra: Você também gravou um filme em 2025, certo?
Virginia Cavendish: O filme se chama Ensaio Sobre a Verdade. É sobre uma história de uma família fazendeira que invade uma terra indígena para exploração e, aí, contamina as pessoas com mercúrio. Uma história trágica, terrível, que já aconteceu de fato. E a minha personagem se chama Luzia, que faz referência à Santa que perdeu os olhos. O filme é meio que uma denúncia e mostra uma realidade que a gente não vê no nosso dia a dia. Eu entreguei o meu melhor mesmo, eu me senti muito à vontade filmando com eles lá.
Terra: Em 2025, você também lançou ‘O Segredo Delas’. Fala sobre isso.
Virginia Cavendish: Foi uma série documental [que está no Instagram] que eu fiz entrevistando atrizes veteranas sobre o processo criativo de trabalho, sobre carreira, sobre etarismo e sobre assédio no trabalho. Eu planejava fazer isso na pandemia, uma coisa mais online, mas o projeto ganhou um corpo tão bonito que eu ofereci para alguns lugares e o Itaú Cultural se interessou e fez uma parceria comigo.
Foram 10 atrizes maravilhosas, com carreiras diversas umas das outras, falando sobre as dificuldades de como sobreviver tantas décadas na carreira, como lidaram com a idade e foram passando por gerações trabalhando, trabalhando porque muita gente vai desistindo no meio do caminho… Então, foi um aprendizado maravilhoso e está aí para as próximas gerações assistirem e ver como é que essas mulheres brilhantes conseguiram ficar tanto tempo na crista da onda e trabalhando.
Terra: Falando em mulheres brilhantes, você tem 40 anos de carreira. A que atribui a longevidade no audiovisual?
Virginia Cavendish: No meu mestrado, eu fiz duas leituras aqui na minha casa, uma com o elenco original de [Hedda Gabler], que se encontrou 18 anos depois da montagem da peça, e a gente falou sobre a carreira de todo mundo, das dificuldades do ator brasileiro de pagar as contas, desses altos e baixos da carreira. Todo mundo ali tinha feito peças e trabalhos de sucesso, mas também tinham passado por momentos de dificuldade, essa instabilidade, que eu inclusive falei com as atrizes do meu programa, O Segredo Delas. Todas tinham uma profissão paralela; as que não tiveram não estavam numa situação confortável, financeiramente falando.
A minha vida como atriz é muito ligada à minha vida como produtora. Eu falo que a minha carreira de atriz sozinha não paga as contas, mas a atriz e a produtora pagam. Porque essa coisa de idealizar o projeto e fazer acontecer me faz ter duas profissões, na verdade: de produtora, idealizadora e atriz. Então, eu falo que quem paga as contas é o combo, Virgínia atriz com a Virgínia produtora e, sim, graças a Deus, eu consigo tomar conta de mim. Eu sou produtora também de ‘Lisbela e o Prisioneiro’, esse filme fez muito sucesso, então foi uma coisa que me deu muita estabilidade financeira. Eu tive essa sorte também de passar por projetos que foram realmente sucessos muito grandiosos, mas, assim, eu tomo muito cuidado com o que eu faço, com o que eu gasto, sabe? Não saio gastando assim.
Terra: Como você vê a carreira nas artes hoje em dia?
Virginia Cavendish: Eu acho que o ator brasileiro tem que se virar nos 30 mesmo. Ainda mais agora que acabou essa coisa de ser contratado em uma televisão e ter uma vida fácil. Hoje em dia, ninguém tem isso, e eu nunca fui contratada de nenhum canal, e acho que não gostaria. Você tem a vantagem de ter o salário todo mês na conta, mas você perde a sua liberdade, e liberdade é uma coisa que não tem preço. Então, eu nunca tive e eu nunca terei, provavelmente. Não sei nem como é, mas não gostaria de ficar presa e submetida ao desejo de outro que não o meu. Seria difícil para minha realização artística fazer um trabalho que não quero porque eu tenho que pagar as contas, sabe?
Terra: Você já trabalhou na TV aberta. Pretende voltar algum dia?
Virginia Cavendish: Eu gosto de fazer novela, quando tem um personagem bom e tudo. Eu acho ótimo fazer, é divertido. Eu sempre gostei. Eu fiz o personagem de O Cravo e a Rosa, que foi superdivertido, é um sucesso até hoje. Essa novela mesmo que eu fiz na Record, que era um personagem que não era bíblico, o texto estava muito bom e era muito divertido. Eu gosto de fazer televisão, não é que eu não goste. Eu só estou atrás de bons personagens; quando tiver um bom personagem, eu vou, seja no teatro, no cinema ou na televisão.
Terra: Quais aprendizados, desafios e memórias leva desses 40 anos de carreira?
Virginia Cavendish: Olha, difícil. Desafio talvez seja passar esses altos e baixos na carreira. Ano passado, por exemplo, eu fui fazer esse filme [da Luzia] e calhou de chegar um convite para fazer outro filme em Pernambuco justamente na mesma data. Acontece muito isso: depois você fica um ano sem trabalhar e, quando aparece, aparece tudo ao mesmo tempo.
Isso, na minha vida, aconteceu sempre. Então, aprendi a lidar com a frustração, lidar com isso [essa pausa], com os papéis que você não pega, e, ao mesmo tempo, entender que assim é a vida mesmo: das portas fechadas, abrem-se outras janelas e outras portas. O que é do homem, o bicho não come. Então, se não era para fazer, é porque não era para fazer. Entender isso, entender e estar pronto é tudo. Para qualquer coisa que você vai fazer, estar pronto é tudo.