Uma jovem dona de casa obcecada pela princesa Diana vê a foto do infiel príncipe Charles no jornal e, num surto de raiva, atira na imagem.
Mas a cegueira emocional a fez esquecer que, por trás da página de notícias havia um homem, seu marido, que é atingido e morre.
A mãe da assassina, uma funcionária pública, surge para ajudar a filha a se livrar da cadeia.
Assim começa ‘A Filha da…’, espetáculo com Regina Duarte e Gabriela Duarte que estreia nesta quinta (27) no Teatro BDO Jaraguá, no centro de São Paulo.
A entrevista em vídeo à ‘Folha’ para divulgar a peça viralizou pelas reações de mãe e filha às perguntas sobre o envolvimento da veterana atriz com o governo Bolsonaro e a direita. Virou uma novelinha.
Talvez tenha sido o melhor marketing espontâneo. Havia muito tempo não se falava tanto na internet e na imprensa de uma produção teatral.
A trama de ‘A Filha da…’, escrita por Carlos Eduardo Silva no fim da década de 1990, se conecta com a vida privada e a carreira de Regina e Gabriela.
Assim como no texto, mãe e filha cultivam forte cumplicidade. A mais velha foi um pouco Diana em seu auge de fama na TV, com fotógrafos e fãs no seu encalço.
Nas novelas, viveu personagens — entre elas, três Helenas de Manoel Carlos — que sofreram por amor romântico, assim como a princesa britânica.
O estilo nonsense da peça reflete a maneira como a própria Regina tem sido vista desde sua adesão ao bolsonarismo: foi banida pela maioria dos colegas artistas, criticada pelo comportamento em entrevistas e cancelada inúmeras vezes por postagens consideradas ‘sem noção’.
Ironicamente, o texto que critica a idolatria patológica a uma personalidade parece um espelho do horror de quem se assusta com a devoção implacável aos líderes da extrema direita.
Já Gabriela, sempre discreta, se conecta com a ex-mulher de Charles por meio de sua batalha pessoal contra a invasão de privacidade, assim como a nobre vivia em guerra contra os tabloides de fofocas.
‘A Filha da…’ termina com mãe e filha em Londres assistindo ao cortejo fúnebre da Princesa do Povo.
O espetáculo parece transformar a morte de Diana em uma espécie de metáfora para mãe e filha.
Enquanto a princesa foi eternizada no instante em que desapareceu, Regina e Gabriela sobem juntas ao palco para lidar com o que resta dos mitos construídos em torno delas, inclusive o da eterna ‘namoradinha do Brasil’.
No teatro, as duas reafirmam uma cumplicidade que atravessa décadas e, por uma hora, convidam espectadores de direita e esquerda a fazer algo que parece cada vez mais difícil fora dali: dividir o mesmo espaço pacificamente.
'A Filha da...' tem adaptação e direção-geral de Darson Ribeiro. O elenco conta também com Clau Carvalho e Vinícius Tardelli. Fica em cartaz até 27 de setembro. Sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h.