'Ser amputada é só uma parte da minha história': conta influencer que foi atropelada por ônibus na Paulista

Amanda Valente teve a perna esquerda amputada após acidente em 2022; hoje, usa as redes para falar sobre autoestima, moda e empoderamento

24 ago 2026 - 04h58
Amanda Valente diz que tem mais vontade ainda de viver a vida.
Amanda Valente diz que tem mais vontade ainda de viver a vida.
Foto: Arquivo Pessoal/ Amanda Valente

A influenciadora digital Amanda Valente, de 29 anos, precisou reconstruir a própria vida depois de um acidente que mudou sua trajetória. Em abril de 2022, ela foi atropelada por um ônibus na Avenida Paulista, em São Paulo, após se assustar durante uma tentativa de assalto. O impacto provocou graves lesões e, depois de uma série de procedimentos médicos, levou à amputação da perna esquerda.

Mais de quatro anos depois, Amanda diz enxergar a experiência de outra maneira. A influenciadora, que já sonhava em trabalhar com internet antes do acidente, transformou a própria vivência em parte de seu trabalho e passou a abordar nas redes sociais temas além da deficiência, como autoestima, moda, beleza e empoderamento.

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“Ser amputada é só uma parte da minha história”, resume. Para ela, a deficiência não deve definir quem uma pessoa é — e essa é uma das principais mensagens que procura transmitir ao público.

94 dias no hospital

Amanda estava na Avenida Paulista no fim da tarde de 20 de abril de 2022, quando três homens se aproximaram e ela suspeitou de uma tentativa de assalto. Ao se assustar, movimentou o corpo e colocou um dos pés para fora da calçada. Naquele momento, o semáforo estava aberto para os veículos e um ônibus a atingiu, arrastando-a por alguns metros.

“Eu não saí correndo. Eu só movimentei o corpo e coloquei o pé para fora”, relembra Amanda em entrevista ao Terra.

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Ela permaneceu consciente após o atropelamento e inicialmente não imaginava a gravidade do quadro. No hospital, porém, precisou passar por algumas cirurgias e chegou a receber dez bolsas de sangue. Os médicos tentaram preservar a perna durante cerca de 15 dias, mas a falta de circulação e os danos vasculares impediram a recuperação do membro.

Ao todo, ela ficou 94 dias internada antes de voltar para casa, sendo 64 dias na UTI e mais 30 dias em uma unidade de reabilitação.

O período também foi marcado por um aspecto que Amanda guarda com carinho: a relação com os profissionais que cuidaram dela. 

“A equipe que cuidou de mim realmente amava o que estavam fazendo. Eu os amei e eles me amaram, foi muito especial. Eu não tenho aquele trauma, tive poucos momentos ruins na UTI. Eles eram muito atenciosos, sabiam que eu gostava de maquiagem e deixavam eu me maquiar. Montaram uma penteadeira no quarto que eu podia usar”, conta.

A influenciadora ainda recorda da importância desse cuidado da equipe para ela se reconectar consigo. 

“Eu perdi a perna esquerda e quebrei a mão esquerda. Sou canhota e era a mão que eu usava para me maquiar. Ainda internada aprendi a me maquiar com a mão direita e foi muito legal fazer isso enquanto ainda estava lá dentro, porque era uma forma de me sentir eu mesma”, lembra. 

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O espelho e uma nova relação com o corpo

A adaptação não aconteceu apenas fisicamente. Antes da amputação, ela imaginava que esconderia a prótese com roupas largas para evitar olhares. 

“Quando eu estava internada na UTI eu falei: ‘acho que não vou querer me olhar no espelho agora porque eu devo estar feia’. Não tinha como eu me olhar porque não tinha espelho lá. Eu falei: ‘além de estar muito debilitada não tenho mais uma perna, acho que não quero me ver’. Acho que vou usar só calça bem larga para ninguém ficar olhando para mim e perceber que uso prótese”, relembra Amanda.

A primeira experiência diante do espelho na reabilitação, porém, mudou essa perspectiva.

“Fui para reabilitação e no primeiro dia o exercício era ficar em pé na frente do espelho. E eu pensava: ‘que engraçado, que ironia (risos). Tá, eu me reconheço aqui’. Foi muito natural. Eu não sou feia por causa disso, eu não estou feia. Isso é tão pequeno, perto de todas as coisas, que percebi que meu pensamento sobre a beleza tinha mudado”, conta.

Hoje, ela afirma que se considera mais bonita do que antes do acidente, justamente por ter passado a enxergar a beleza para além da aparência física. “Eu vejo a minha beleza de dentro para fora”, explica.

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A relação com a moda também precisou ser adaptada. Amanda conta que passou a descobrir, na prática, quais roupas funcionam melhor com a prótese. Calças muito justas, saias curtas e peças compridas que podem enroscar, por exemplo, exigem adaptações.

Para ela, mostrar a prótese nas redes também é uma forma de não esconder uma parte de sua identidade. “Se eu tô escondendo ela, eu tô me escondendo”, afirma.

'Não quero ser atleta paralímpica'

Amanda mostra que não existe uma única maneira de ser uma pessoa com deficiência. Ela critica o estereótipo de que amputados necessariamente precisam estar ligados ao esporte paralímpico.

“Eu sou amputada que gosta de beleza, que gosta de look, que quer viajar. Não quero performar no esporte e ganhar medalha”, afirma.

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Amanda Valente fala sobre alguns estereótipos que pessoas com deficiência passam.
Foto: Arquivo Pessoal/ Amanda Valente

Para a influenciadora, também existe uma cobrança para que pessoas com deficiência sejam vistas como “guerreiras” o tempo inteiro. O problema, segundo ela, é que essa expectativa pode ignorar sentimentos como tristeza, cansaço e frustração.

“Aquela coisa de super-heroína. Nossa, mas você é muito guerreira. Já parou para pensar que talvez eu não tivesse muitas opções? Sempre faço uma piadinha besta: ‘gente, ninguém é de ferro, por mais que eu seja um pouquinho, também não é para tanto. Calma aí, sabe?’ Eu também tenho dias difíceis”, brinca.

Outro incômodo está na forma como desconhecidos abordam pessoas com deficiência. 

“Antes de você perguntar o que aconteceu, pergunta meu nome e quem eu sou”, afirma.

Assédio nas redes sociais e tabu

Amanda também falou sobre o assédio que enfrenta nas redes sociais e sobre o tabu em torno da sexualidade de mulheres com deficiência. Segundo ela, já recebeu comentários de homens com teor sexual e de baixo calão relacionados à amputação. 

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“Alguns comentários muito ruins de homens: ‘Ela tem uma perna a menos, fica mais fácil tirar a calcinha’. No começo me abalava um pouco, mas hoje em dia eu exponho e bloqueio”, explica.

Para a influencer, ainda existe dificuldade em enxergar mulheres com deficiência para além da condição física. Ela afirma que algumas pessoas adotam um comportamento de infantilização, tratando-a como se fosse uma criança, enquanto outras reconhecem sua autonomia e a veem como uma mulher vaidosa, sensual e independente.

“Tem pessoas que taxam a gente: ‘você é tão fofa e tão guerreira’. E leva para um lado meio infantil, que eu percebo do jeito que a pessoa fala comigo. Tenho quase 30 anos e sinto que algumas pessoas falam comigo como se eu fosse uma criança. E há pessoas que vem que somo mulheres empoderadas como qualquer outra”, relata.

Amanda também diz que ainda existe curiosidade excessiva sobre a vida íntima de mulheres com deficiência. Ela conta que é frequentemente questionada sobre relacionamentos e sexo. 

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“É um tabu, existe muita curiosidade. As pessoas perguntam muito sobre essa parte. Se eu tenho relação, se mudou alguma coisa, se meu marido tem interesse por mim, se outros caras já deram em cima porque sou assim”, detalha.

Na avaliação da influencer, a percepção da sociedade ainda está dividida entre aqueles que acreditam que a deficiência anula a sexualidade e quem entende que mulheres com deficiência podem viver relacionamentos e exercer sua sexualidade normalmente.

'Tenho mais vontade de viver'

Ao comparar a Amanda de 2022 com a mulher que se tornou em 2026, ela aponta principalmente uma mudança na relação consigo mesma: “eu tenho mais empatia comigo e com as outras pessoas também. É um olhar mais sensível para as coisas”.

Segundo ela, antes do acidente existia uma sensação de estar sem direção. Hoje, acredita ter encontrado sentido no trabalho que desenvolve na internet.

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“Hoje eu tenho intenção nas coisas que faço, eu sei meu propósito e tenho mais vontade ainda de viver a vida”, diz.

Apesar do tom positivo que costuma aparecer em suas publicações, Amanda faz questão de diferenciar sua maneira de enxergar a vida de uma romantização da deficiência. “Eu sei que ser uma pessoa com deficiência é muito difícil. E eu vivo isso”, afirma.

Fonte: Portal Terra
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