Ser mulher, ter mais de 50 anos e permanecer em evidência continua sendo um desafio em um país que envelhece rapidamente, mas ainda demonstra enorme dificuldade em aceitar as marcas naturais do tempo.
Os recentes ataques dirigidos à atriz Carolina Ferraz e à escritora e espiritualista Monica Buonfiglio expõem como o etarismo pode ser cruel e causar feridas emocionais.
Símbolo de beleza desde os tempos em que se consolidou como atriz e apresentadora, Carolina, 58 anos, foi chamada de “velha” por um usuário de rede social.
Não se abateu e devolveu na mesma moeda: descreveu a decadência física de quem a ofendeu e criticou os homens em geral que se acham no direito de debochar do corpo feminino.
Carolina costuma postar vídeos de cara limpa, livre de maquiagem e filtros. Faz procedimentos estéticos com cautela, sem a intenção de forçar uma aparência jovem.
Tornou-se uma referência de beleza madura e da coragem de se mostrar como é. Sabe-se que a maioria das famosas jamais aparece em público sem uma superprodução estética.
O xingamento contra Monica Buonfiglio também foi numa rede social e partiu de outra mulher (cadê a sororidade?). A escritora e espiritualista, de 63 anos, reagiu com bom humor: assumiu-se “velha” com risos.
Os dois episódios ilustram uma realidade comum enfrentada por figuras femininas expostas na internet e na mídia.
A idade, que deveria ser encarada como consequência natural da vida, é frequentemente transformada em motivo de humilhação, como se envelhecer fosse uma falha.
Esse comportamento desrespeitoso contra a mulher 50+ corre justamente em um país que envelhece em ritmo acelerado.
As projeções indicam que, em 2030, a população brasileira com 60 anos ou mais ultrapassará o número de crianças e adolescentes de até 14 anos, uma mudança demográfica sem precedentes.
Apesar disso, cresce o preconceito contra pessoas que exibem no corpo — e especialmente no rosto — os sinais da passagem do tempo.
Rugas, flacidez, cabelos grisalhos e ganho de peso continuam sendo alvos de julgamentos constantes.
As mulheres são, indiscutivelmente, as que mais sofrem com essa pressão. Enquanto homens maduros costumam ser associados à experiência e ao charme, elas são descritas como “acabadas”.
Tal pressão mexe com a saúde mental e faz muitas brasileiras, tanto celebridades quanto anônimas, exagerarem em tratamentos invasivos e cirurgias plásticas, ganhando um visual artificial ou até deformações físicas.
Como observou a filósofa francesa Simone de Beauvoir, a mulher mais velha é mais duramente atingida pelas críticas porque foi ensinada a se definir através do olhar dos outros.
O melhor a fazer, indicam as sábias e belas Carolina Ferraz e Monica Buonfiglio, é recusar a vergonha que tantos tentam impor e encarar a maturidade sem pedir desculpas por ela.