Em "Tigre de Papel", novo filme de James Gray ambientado nos anos 80, uma família se envolve com a máfia russa após aceitar uma proposta duvidosa. Apesar da estética retrô em película e da atuação brilhante de Scarlett Johansson, o longa desmorona sob uma direção frágil e um roteiro clichê. Com atuações masculinas fracas de Miles Teller e Adam Driver, além de cenas de ação pouco convincentes, a produção falha em gerar tensão e entrega um suspense genérico que desperdiça o talento de sua protagonista.
James Gray é frequentemente celebrado como um dos grandes cineastas norte-americanos da atualidade, e seus filmes figuram com regularidade entre os cotados de premiações e festivais. Sua relevância, portanto, é inegável. Ainda assim, suas incursões mais recentes não geraram consenso entre crítica e público: "Ad Astra" e "Armageddon Time", pelo menos fora da academia, onde ele parece reinar, tiveram recepções mornas, sem maiores entusiasmos. Agora, o diretor retorna disposto a seduzir novamente com "Tigre de Papel", que acompanha uma família envolvida com a máfia russa na Nova York dos anos 80.
Irwin Perl (Miles Teller) é um engenheiro que vive no subúrbio com a esposa, Linda (Scarlett Johansson), e os dois filhos adolescentes. Empenhado em quitar as contas e juntar dinheiro para a faculdade dos rapazes, o homem enxerga uma grande oportunidade quando seu irmão, o ex-policial Gary (Adam Driver), lhe propõe um empreendimento de grande porte em um terreno abandonado, contaminado por esgoto e lixo. O problema surge quando os contratantes se revelam ligados à máfia russa, e o irmão um sujeito de caráter bem menos nobre do que aparentava.
A partir dessa premissa, "Tigre de Papel" é construído não apenas como uma história ambientada nos anos 80, mas como um filme concebido naquela época, sobretudo pela fotografia em película 35 milímetros, com seu aspecto desgastado e granulado, de cores frias e desprovidas de vida. Trata-se de uma escolha estética até previsível, considerando o tipo de narrativa criminal que se pretende contar. Nada que Scorsese, referência declarada de Gray, já não tenha realizado no passado. O personagem de Adam Driver, inclusive, é tão "scorsesiano" que flerta com a caricatura em alguns momentos.
Falando em atuações, o destaque fica com Johansson, que compõe uma personagem sensível às agruras da família e, ao mesmo tempo, notavelmente firme na missão de manter os entes queridos a salvo, mesmo diante de uma doença inesperada. Ela é a verdadeira força do filme e ofusca os colegas masculinos de elenco, até porque Teller não convence como pai de família, seja pela atuação carregada de caretas, seja pela própria caracterização: sob as camisas polo, o corpo de fisiculturista denuncia o artifício.
O problema é que Johansson, sozinha, não sustenta um filme inteiro quando não é a protagonista. Por isso, "Tigre de Papel" falha até mesmo ao tentar construir tensão entre seus personagens, seja por recorrer mais uma vez aos desgastados vilões russos tatuados, seja por apresentar algumas cenas de ação mal concebidas. Um exemplo é a sequência em que o personagem de Driver entra em um café para tirar satisfações com capangas que ameaçavam o irmão. Ele tira o cinto da calça e o utiliza para nocautear três homens mais fortes, que momentos antes haviam se mostrado extremamente ameaçadores. É uma direção frágil de Gray neste momento, que não confere peso nem impacto ao embate. Tudo é mostrado à distância e de maneira impessoal, de modo que o espectador não percebe a relevância que a cena deveria ter para o desenrolar da trama.
Quanto ao roteiro, há pouco a comentar, pois se trata de um tipo de texto que Hollywood produz à exaustão: a feliz família norte-americana que enfrenta os vilões malignos vindos de outro país, ansiosos por destruir o sonho americano por meio de seus crimes hediondos. Pode até ser que essa fórmula convencesse mais nos anos 80 e 90, mas hoje, na era de Donald Trump, todos sabem que os próprios EUA integram a vilania do mundo. Portanto, o título "Tigre de Papel" faz jus ao conteúdo, afinal trata-se de uma expressão de origem chinesa usada para descrever algo ou alguém que aparenta ser poderoso, mas que, na realidade, é frágil.
"Tigre de Papel" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Vídeo: Reprodução/Youtube (@DiamondFilmsBrasil)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.