Em delação premiada à Polícia Federal, o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior apontou fraude no envio de US$ 12,3 milhões a um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro nos EUA, via Banco Master, alegando crer que investia em imóveis e não no filme "Dark Horse". A PF, contudo, apontou contradições em seu relato, já que documentos assinados citavam a produção cinematográfica. Diante das divergências e da apuração envolvendo também Flávio Bolsonaro, a PF solicitou novo depoimento e mais 90 dias de inquérito.
BRASÍLIA - No primeiro depoimento de sua delação premiada, o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior indicou à Polícia Federal que houve uma fraude na operação financeira para pagamento de 12,3 milhões de dólares a um fundo aberto nos Estados Unidos por um advogado de Eduardo Bolsonaro, porque achou que estava comprando cotas de um investimento em empreendimentos imobiliários nos EUA. Dono da Entre Investimentos, ele foi o responsável por transferir recursos ao fundo depois que o banqueiro Daniel Vorcaro acertou com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) repasses sob justificativa de financiar o filme Dark Horse, mas disse que só depois ficou sabendo disso.
Em relatório sobre o depoimento, porém, a própria Polícia Federal menciona contradições de Freixo Júnior e diz que um dos documentos assinados por sua empresa mencionava a destinação dos recursos ao filme. "O documento está, assim, em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos", escreveu a PF, que solicitou autorização para ouvir novamente o colaborador.
Flávio e Eduardo são investigados nesse inquérito. A PF enviou documentação ao Supremo Tribunal Federal (STF) com as diligências realizadas nas últimas semanas e pediu autorização para obter novos documentos e aprofundar o caso. Também foi feito pedido ao ministro André Mendonça para prorrogar o inquérito por 90 dias.
É a primeira vez que vem a público o depoimento de Antônio Carlos Freixo Júnior depois que ele fechou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Como antecipou o Estadão, ele entregou documentos e relatou que os recursos usados para pagamentos ao fundo ligado a Eduardo Bolsonaro no exterior tiveram como origem, no Brasil, o Banco Master. Logo depois dos pagamentos ao exterior, ele recebia repasses no Brasil para cobrir as remessas.
Apenas posteriormente é que Freixo diz ter tomado conhecimento que a justificativa para envio dos valores seria financiar o filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele disse que fez os repasses a pedido do dono do Banco Master porque houve um problema em uma conta no exterior do cunhado dele, Fabiano Zettel, e que iria transferir as cotas do empreendimento imobiliário para Vorcaro depois da regularização dessa conta.
"Em momento algum lhe foi informado que os recursos se destinavam ao financiamento de um filme ou cinebiografia, ressaltando que jamais aceitaria participar de uma operação com esse viés em razão do elevado risco reputacional para seu portfólio de empresas", afirmou no termo de depoimento. "A subscrição ocorreu em nome da Entre Investimentos com base na reação de confiança mantida com Daniel Vorcaro, havendo a perspectiva informal de que, após a regularização cadastral, a titularidade das cotas seria transferida para a pessoa física de Daniel ou para o Banco Master, sem a formalização de side letter", complementou.
Os documentos entregues por Freixo confirmam o pagamento de 12,3 milhões de dólares ao fundo Havengate entre fevereiro e setembro de 2025. A PF afirma que foram remetidos ao exterior R$ 72 milhões, enquanto Freixo recebeu R$ 90 milhões no Brasil.
Ele entregou documentos indicando que fez os aportes por meio de subscrição a um fundo imobiliário.
Freixo afirma que tomou conhecimento por reportagens na imprensa de que o fundo serviria para outro propósito que não era o mercado imobiliário e, por isso, solicitou a devolução dos valores, mas não obteve nenhuma resposta.
"Tomou conhecimento do verdadeiro propósito do fundo e da destinação dos recursos para a produção audiovisual apenas após a veiculação de matérias pela imprensa. Que diante dos fatos expostos, adotou os procedimentos formais de investidor ao encaminhar e-mails de notificação solicitando o resgate integral dos valores e a apresentação do balancete demonstrativo dos investimentos do fundo, não obtendo resposta dos gestores", afirmou.