Em "Minotauro", Andrey Zvyagintsev constrói uma alegoria política sobre a Rússia de Putin na guerra contra a Ucrânia. No enredo, o empresário Gleb é coagido pelo Estado a recrutar quatorze funcionários para o conflito, ecoando o tributo do mito grego. Paralelamente, ele descobre a infidelidade de sua esposa. Usando o drama familiar e a frieza dos cenários para retratar um país doente, o filme expõe uma burguesia omissa e um governo autoritário que devora os próprios cidadãos.
Na mitologia grega, Minos, rei de Creta, pediu ao deus Poseidon um touro branco como sinal de aprovação de seu reinado. A divindade atendeu à súplica, mas impôs uma condição: o animal deveria ser sacrificado assim que chegasse à ilha. Encantado com a beleza da criatura, porém, o monarca a poupou, e com isso despertou a fúria do deus, que, como castigo, fez com que a rainha Pasífae, esposa de Minos, se apaixonasse perdidamente pelo touro e engravidasse após se unir ao animal. Dessa união nasceu o Minotauro, com corpo de homem e cabeça de touro.
Insaciável em sua fome por carne humana, o Minotauro mostrou-se incontrolável, e por isso Minos ordenou a construção de um labirinto para aprisioná-lo. Depois de derrotar Atenas em uma guerra, o rei exigiu da cidade um tributo cruel: periodicamente, os atenienses deveriam enviar quatorze jovens (sete rapazes e sete moças) para serem devorados pela criatura no labirinto, e assim mantê-la sob controle.
É nesse mito que Andrey Zvyagintsev se ampara para erguer seu novo filme que, a exemplo de suas obras anteriores, examina as relações humanas e a corrupção do Estado. Desta vez, porém, o diretor acrescenta uma camada: mostra como esse Estado corrompido é utilizado para alimentar a máquina de guerra de Vladimir Putin, em um conflito que o resto do mundo conhece apenas pela superfície: a invasão da Ucrânia. Sob essa superfície, no entanto, existe um emaranhado de outros elementos que funcionam como peças nos planos obscuros de Moscou.
O Minotauro de Zvyagintsev é o Estado controlado por Putin, que transforma o empresário Gleb (Dmitriy Mazurov) em uma das peças dessa engrenagem, já que ele precisa indicar quatorze funcionários de sua empresa (assim como Atenas devia enviar quatorze jovens a Creta) para a linha de frente da guerra contra a Ucrânia. Sem saber como proceder e recusando-se a enviar colaboradores de longa data, ele precisa descobrir uma maneira de alimentar o monstro no labirinto antes que ele próprio se torne uma das vítimas. A situação se agrava ainda mais quando Gleb descobre que sua bela esposa, Galina (Iris Lebedeva), mantém um caso com um jovem fotógrafo.
A partir daí, o desenrolar dos acontecimentos é impactante e revelador. O roteiro, assinado pelo próprio Zvyagintsev em parceria com Simon Lyashenk, mostra-se competente ao construir antecipações do que está por vir (o texto, aliás, tem como inspiração "A Mulher Infiel", de 1969, dirigido por Claude Chabrol). Assim, uma bicicleta no porta-malas de um carro e um movimento panorâmico da câmera do diretor de fotografia Mikhail Krichman por um apartamento sugerem como esses espaços serão cruelmente aproveitados instantes depois. A casa do casal, que divide o teto com o filho adolescente, também funciona como elemento narrativo das intenções dos cineastas, por se tratar de um ambiente impessoal, desprovido de qualquer decoração em cores vivas. Os cômodos são escuros e as paredes cinzentas, conferindo a cada cena ali passada um ar de desolação. Por vezes, os personagens são enquadrados do lado de fora da casa, entre as janelas, como se estivessem presos em uma cela de vidro, onde até tentam esconder seus segredos, mas não escapam do olhar externo, que penetra pelas transparências.
A história dessa casa na qual reside a esposa que trai o marido suscita uma reflexão política profunda, sobretudo porque, naquele contexto, o microcosmo reflete o conjunto de um país adoecido, seja por uma burguesia alheia ao sofrimento que ajuda a provocar, seja por um governo ditatorial que, para saciar seus monstros internos, subjuga os cidadãos e os conduz a cometer crimes de guerra em solo estrangeiro. Talvez, para que a maldição traçada pelos deuses seja desfeita, o tipo de pessoa retratada nos personagens de Zvyagintsev precise desaparecer. Só assim, como na bela conclusão do longa, o sol poderá surgir em meio às nuvens negras.
"Minotauro" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Vídeo de Minotauro: Reprodução/Youtube (@imovision)
Imagem destacada de "Minotauro": Divulgação/Imovision
Publicado originalmente na Woo! Magazine.