Los Angeles — Se o boom dos super-heróis em Hollywood acabou há anos, o Homem-Aranha, aparentemente, não foi avisado.
Homem-Aranha: Um Novo Dia, o 11º filme de grande orçamento do Aranha produzido pela Sony Pictures desde 2002, deve vender cerca de US$ 355 milhões em ingressos nas bilheterias da América do Norte de quinta-feira até este domingo, 2, segundo a Rentrak, serviço de dados sobre cinema. O resultado ficaria entre as maiores estreias domésticas de todos os tempos, atrás apenas de Vingadores: Ultimato (Disney-Marvel), que arrecadou US$ 357 milhões em 2019, ou cerca de US$ 467 milhões em valores corrigidos pela inflação.
Dirigido por Destin Daniel Cretton, a partir de roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers, Um Novo Dia deveria faturar cerca de US$ 572 milhões no exterior, em 73,5 mil salas, para um total global de estreia de aproximadamente US$ 927 milhões. (A receita de bilheteria é dividida meio a meio entre estúdios e exibidores.) A Sony gastou cerca de US$ 225 milhões para produzir o filme, classificado como PG-13 nos EUA (recomenda supervisão do pais para menores de 12 anos; equivalente, grosso modo, à classificação brasileira de 12 anos), sem contar os custos de marketing.
Para atender à demanda, alguns multiplex nos Estados Unidos dedicaram quase metade de suas sessões do fim de semana a Um Novo Dia — o dobro do usual, mesmo para um filme-evento. Em algumas unidades, as sessões começavam a cada 15 minutos. A EntTelligence, empresa de pesquisa do setor, estimou que 24,1 milhões de pessoas assistiriam ao filme na América do Norte de quinta-feira a domingo.
"É um trem desgovernado", disse Tom Rothman, presidente do Motion Picture Group da Sony, em entrevista por telefone, soando um tanto atordoado.
Antes da estreia de Um Novo Dia, na semana passada, a consultoria National Research Group previa que o filme arrecadaria cerca de US$ 195 milhões na América do Norte. No sábado, 1º, a Sony provocou espanto em Hollywood ao dizer que as vendas domésticas de ingressos poderiam chegar a US$ 325 milhões no fim de semana. A venda de ingressos na bilheteria, mais forte que o previsto, elevou a estimativa até a manhã de domingo.
Geração Z impulsiona estreia explosiva do novo Homem-Aranha
Um Novo Dia atraiu um público especialmente forte da geração Z — definida como os nascidos entre 1997 e 2012, hoje na faixa dos 14 aos 29 anos. Entre os motivos estão o elenco (o filme traz jovens estrelas como Tom Holland, Zendaya e Sadie Sink) e escolhas narrativas específicas, segundo Greg Durkin, fundador da Enact Insight, empresa de pesquisa em entretenimento.
"Alguns dos temas de Um Novo Dia que mobilizam a geração Z incluem desafios de saúde mental, solidão e a sensação de não ser visto por quem você ama", disse Durkin por e-mail. No filme, Peter Parker (vivido pela quarta vez por Holland) luta para reconstruir a vida depois de perder as conexões pessoais que um dia o definiram, o que o deixa isolado ao enfrentar uma nova ameaça.
Essa ênfase foi intencional. Entre os produtores está Amy Pascal, envolvida com a franquia desde que a Sony licenciou o personagem da Marvel pela primeira vez, em 1999. Ela sempre defendeu que a vida emocional e as relações pessoais de Parker permanecessem no centro dos filmes. Analistas dizem que essa abordagem criativa ajudou a manter o Homem-Aranha com identidade própria mesmo com o esfriamento do entusiasmo pelos super-heróis. (Kevin Feige, Avi Arad e Rachel O'Connor completam o núcleo de produção.)
"O público se importa quando os filmes o fazem sentir alguma coisa", disse Rothman. "Neste filme, Peter Parker está lidando com o tipo de problema com que todos nós já lidamos em algum momento da vida. E, no fim das contas, o filme é sobre esperança."
"O que os filmes duradouros realmente fazem, de Lawrence da Arábia para baixo", continuou ele, "é entregar ao público espetáculo, diversão e fogos de artifício, mas por meio de uma história muito pessoal — e é isso que este filme é."
Um Novo Dia chegou sob aclamação generalizada, algo que se tornou raro para continuações de super-heróis. Os críticos encheram o filme de elogios, a ponto de começarem a circular em Hollywood conversas sobre uma possível corrida ao Oscar. A nota do público no Rotten Tomatoes estava em 98% de aprovação no domingo.
Havia também uma demanda represada nas bilheterias por um super-herói icônico, segundo David A. Gross, consultor que publica uma newsletter sobre números de bilheteria. O interesse do público por filmes de super-heróis diminuiu nos últimos anos, levando os estúdios a reduzir drasticamente a produção. O último herói de primeira linha a chegar aos cinemas foi o Superman, no ano passado.
"O mercado está maduro, maduro, maduro", disse Gross.
Como Um Novo Dia faz uma franquia de 24 anos parecer nova?
A Sony vendeu Um Novo Dia menos como uma continuação e mais como um recomeço (até o título anuncia o reset), algo que, segundo analistas, fez o filme parecer especial: é um evento, não apenas mais um capítulo de uma saga em expansão permanente. Em vez de entregar o enredo, os trailers omitiram detalhes importantes da história, permitindo que os fãs passassem meses debatendo aquilo que não estavam vendo.
Desde os anos 1970, Hollywood viveu eras distintas de super-heróis, cada uma redefinindo as expectativas do público e revelando uma nova estratégia da indústria. O Superman, que reinou de 1978 até meados dos anos 1980, provou que os personagens podiam ressoar além do público infantil. Na era do Batman, iniciada em 1989, os filmes de super-heróis se tornaram franquias de alta voltagem, repletas de um número vertiginoso de parcerias de marketing e produtos de consumo.
Em 2008, quando o Homem de Ferro inaugurou a era do Marvel Studios, os super-heróis viraram uma produção industrial, com estúdios como Marvel e Warner Bros. lançando filmes interconectados em ritmo de linha de montagem. O resultado foi a saturação. Em 2023, um filme de super-herói após o outro decepcionou nas bilheterias, incluindo As Marvels, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, The Flash, Aquaman e o Reino Perdido, Besouro Azul e Shazam! Fúria dos Deuses.
O Homem-Aranha mostrou que o problema talvez não sejam os super-heróis, e sim a mesmice. A Sony encontrou repetidamente formas de fazer cada novo capítulo parecer distinto. Dois dos 11 títulos do estúdio foram animações, abraçando uma estética de quadrinhos diferente de tudo o que se vê nos blockbusters de Hollywood. O papel-título foi reformulado três vezes. E agora, com Um Novo Dia, encontrou um jeito de fazer uma franquia de 24 anos parecer nova — um ponto em que o público pode entrar sem sentir que perdeu anos de lição de casa.
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