Uma câmera na altura dos olhos de uma menina de sete anos, uma lente aberta a 1.2 que enxerga só um ponto e, ao redor, o sertão do Piauí inteiro fora de foco. É desse jeito, quase teimoso, que a diretora Eliza Capai decidiu contar A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário que estreou na quinta-feira, 30, nos cinemas brasileiros depois de abrir a Mostra Generation Kplus do Festival de Berlim e colecionar prêmios em Guadalajara e no Cine PE.
A produção acompanha de perto um grupo de meninas moradoras do município de Guaribas, no Piauí, que, através de conversas e brincadeiras, revelam um universo lúdico e vão tocando, sem pressa, em temas como independência feminina, casamento e as alegrias mais simples da infância, ao mesmo tempo em que refletem sobre as histórias mais duras vividas por suas mães e avós.
Muitas das cenas nasceram como resposta direta a falas machistas registradas havia mais de dez anos, como a de um homem que, entrevistado em 2013, resumiu para Capai sua visão de mundo dizendo que "o homem é o gigante da mulher". A reação das meninas aos roteiros e às cenas, segundo a diretora, "era de subverter esse machismo". "Elas sempre estão questionando isso de uma forma muito infantil, muito lúdica", diz. "Eu achei aquilo muito potente, muito potente."
Fé, medo e o que fica de fora
Entre 2013 e as filmagens de 2024 e 2025, Capai viu a cidade mudar de religião praticamente inteira. "Todas as pessoas que eu conhecia eram de religião católica", diz ela sobre a primeira visita. Mas "foi ali, no final do governo Bolsonaro, durante a pandemia, que praticamente todas que eu conhecia se converteram à religião evangélica". O filme não foge dessa complexidade: há leituras da própria Bíblia questionadas pelas crianças, inclusive uma cena sobre o Gênesis que pergunta se a mulher seria diferente "se ela tivesse sido feita direto do barro". Ao mesmo tempo, Capai reconhece o outro lado da moeda, como no arco do pai de Sofia, alcoólatra, que, graças à entrada da esposa na igreja evangélica e às orações dela, parou de beber. "Transforma muito positivamente a vida dessa família", diz a diretora, sem ironia.
Foi na montagem, aliás, que Capai sentiu o peso maior da responsabilidade de filmar crianças. Muita coisa saborosa, narrativamente rica, ficou de fora. "Houve uma preocupação muito grande de pensar o que iria alimentar a autoestima delas e o que poderia colocá-las numa situação de vulnerabilidade", explica. A diferença, ela insiste, é que adultos se expõem com alguma consciência do que aquilo vai virar "e quando são crianças que estão ali se divertindo, muitas vezes esquecendo mesmo, ou sem entender o que aquilo iria virar". Prova disso veio quando o filme estreou em Berlim: mesmo depois de tudo explicado, as meninas ficaram em choque com a repercussão. "O que elas achavam era que isso ia ser um vídeo de YouTube", conta Capai.
A estreia em si guarda uma das lembranças mais bonitas da diretora. Não exatamente pela cerimônia, mas pelo instante em que a plateia começou a bater palmas no meio do filme. "Eu nunca tinha visto isso, eu achei divertidíssimo", diz ela. "Ali eu entendi que estava comunicando com as pessoas". Na versão dublada em alemão da mostra infantil, ouvir a trilha sonora sem a edição de som original foi, admite Capai, "um tanto constrangedor", mas compensado pela plateia lotada de crianças pequenas demais para ler legenda.
O filme já passou por Xangai, Guadalajara, Cartagena, pela Cinemateca do Uruguai e, mais recentemente, pela Itália. Para a diretora, esse alcance faz sentido. "O filme ainda fala de vida, morte, de casamento", diz. "Fala, no final, de temas que estão em todas as sociedades."